quarta-feira, 9 de abril de 2014

Texto de Leitor - Prosa - Essa noite eu não chorei - Layara Sarti

Retomando nossas postagens de leitores, segue o excelente texto de Layara Sarti.




Essa noite eu não chorei.



Copo vazio, coração transbordante.



As sombras das árvores serpenteiam pela minha cama, o doce barulho do vento balança as folhas e limita meu coração a suspiros curtos e abafados. Rejunto minha alma ao pouco de integridade que restou dos meus meros restos.


O silêncio é vil e cruel a quem não tem competência para domá-lo, dilacera qualquer um que tenha baixado a guarda, encara olhos com uma perspicácia voraz e indomável. Engole com dentes afiados e mastiga trucidando com um profunda satisfação. Aprecia o sabor empertigando-se suavemente, é um bicho sem coração que assassina centenas de homens pelo mundo afora.



O silêncio até me consumiu, mas não me devorou.


Ainda respiro entre fraquezas e interrogatórios, não foi o sapato esquecido lá fora nem a roupa no varal. Não foram as palavras e nem as conversas procrastinadas. Não foram os cafés das cinco e nem as cartas guardadas na gaveta da escrivaninha. Não foi a parede manchada de ternura nem o sangue frio que vazou de mim. Não foram os hematomas nem as crianças que choravam nas ruas. Não foi o restaurante que não abriu naquele dia nem o afeto que se formou nos lençóis.



Eu morri de amor diversas vezes, mas continuava viva. Escrevi em cantos aleatórios os meus sentimentos que explodiam sem hora pré-determinada, chorei de alegria e padeci de felicidade. Mas o mundo atou meus braços e calou minha alma. Sem rodeios nem minutas de desculpas, não houve paixão que calasse nem encanto que desfizesse qualquer maldição proclamada. Nem buscas que me resgatassem e anúncios na rádio que me procurassem.



Nada me salvaria.



O sereno é tão bonito quanto o dia, mas o sabor é bem melhor. Se for pra ficar dessa maneira refaço-me sem custo algum. Costuro às avessas enquanto canto e profetizo eternidades a quem suspira de dor, ou amor.



A penteadeira não foi arrumada e a cama continua tão desajeitada quanto eu, mas essa noite você não apareceu.



Eu comi o sereno.



Agarrei com todos os dedos das minhas mãos, puxei e o devorei com força. Engravidei do universo e tive constelações. O mundo se despedaçou e eu teci meias para as estrelas, elas são chorosas, mas cantam ternuras. Uma beleza incomparável que esse mundo nunca viu igual. Recriei o mundo em uma noite, mas você não estava aqui para me ajudar.


Meu coração fugiu do peito aos prantos, ele chorou, mas eu não. Eu quis correr e resgatá-lo, mas não me movi. Eu dei vida ao mundo e minhas forças se esgotaram, sou mãe solteira de astros.  



Sinto sua falta.



Daria uma vida pela sua existência (provavelmente, a minha), mas não gosto dos seus olhos teimosos nem das suas sobrancelhas negras. E te odeio por não ter dado sinais do seu afeto, mas eu te amo. Eu te amo do meu jeito fraco e ocultamente destemido.



Essa noite você não veio, mas eu deixei a porta aberta e o coração perdido por aí. Virei os copos e derramei a cabeça na mesa, as constelações choram, mas eu não. Elas choram e choram sem parar, mas eu não. A noite lacrimejou cometas, o mundo se destruiu e você não veio.



Mas eu não chorei, não chorei…

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Autora: Layara Sarti
Publicado originalmente em: Poesias e Flores

Fonte da Imagem: Chega princesinha

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