quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Devaneios e Reflexões - As Caixas

As Caixas



Era sua quarta residência, três vezes se mudara. E desde a primeira mudança as caixas estavam lá.

Havia arquivos para as coisas que precisam ser guardadas e organizadas. As roupas saíram das malas e foram para os guarda-roupas. Enquanto isso as caixas foram empilhadas junto a uma parede.

Por um ano e meio as caixas ficaram lá, intocadas. Mas, mesmo ali paradas, elas incomodavam.

Estudar, trabalhar, organizar... tudo ficava mais difícil. A lembrança das caixas surgia com força. “Preciso arrumar aquelas caixas”, pensava a todo momento.

Entretanto, lá estavam as caixas. Decidiu-se. Abriu as caixas e despejou o conteúdo pelo chão da sala. “Agora eu tenho que mexer nessas coisas”. E descobriu que a própria mente trabalhava contra. Subitamente “apaixonou-se” por uma série nova e viu duas temporadas em dois dias! O subconsciente lutando para não mexer naquelas coisas.

Racionalmente, sabia que mais da metade iria ser jogada fora, mas era necessário avaliar coisa por coisa, papel por papel. E aí é que estava o problema.

As caixas tinham de tudo: papéis, documentos, tapetes, fotos, objetos de decoração, Cds e DVDs, livros, apostilas, cartas... lembranças!

Algumas dessas coisas não seriam mais úteis, outras estavam desatualizadas, algumas já haviam sido substituídas. Mas, porque ainda não se havia desfeito delas?

Apego? A quê? Aos objetos? Não. Apegava-se às lembranças, aos sonhos passados que não se realizaram, como se, ao manter os objetos, ainda houvesse algum modo de voltar ao passado. E não há, absolutamente, nenhuma forma de se voltar ao passado.

Quantas coisas guardamos apenas por isso! Mantê-las é como se sentíssemos que o momento ainda não passou, que ainda poderemos fazer algo para mudar o passado. Mas, infelizmente, não podemos. O que passou, passou. O que foi dito, está dito. O que foi feito, está feito. O que deixou de ser feito, não poderá mais ser realizado. A oportunidade perdida, nunca mais se apresenta para nós.

Há outro interesse da mente. A desculpa. A necessidade de arrumar as caixas sempre era uma desculpa. “Arrumou?”, “Estudou?”, “Fez o Trabalho?”; para todas as perguntas, havia a mesma desculpa: “Preciso arrumar aquelas caixas”.

Mas, uma vez identificado o problema, este deve ser resolvido. Decidiu-se por acabar com as desculpas, com as amarras do passado e seguir em frente.

Sentou-se em meio a todas aquelas coisas e começou a selecioná-las e arrumá-las. Uma a uma, um dia de cada vez. E surpreendeu-se ao perceber que, mesmo ciente do que deveria fazer, ainda tentava se apegar a algumas coisas. Viu-se selecionando papéis e objetos para serem guardados em um dia e descartando-os uma semana depois.

E a cada item lembrava-se, e sorria, e chorava, e alegrava-se e entristecia-se.

Sentiu a saudade daquilo que viveu e, ainda mais doloroso, uma pujante saudade do futuro que não aconteceu. De seus sonhos desfeitos e frustrados. Dos objetivos que nunca buscou de verdade. Alguns porque não teve coragem de perseguir. Outros, por não serem objetivos realmente seus, mas das pessoas à sua volta, a quem tentava agradar.

Finalmente arrumou as caixas, jogou fora o desnecessário, limpou sua casa, e com isso, sua mente e sua vida. Assim, pôde seguir vivendo, confiante e livre.

E então, com a mente liberta, percebeu o objetivo que sempre teve, que nunca buscou. Um pouco por medo do fracasso, um pouco por falta de coragem. Sempre aceitando desculpas criadas por sua mente: “isso não é para mim”; “não tenho o talento que preciso”, “não me dará a segurança financeira que preciso”, e tantas outras que perdeu a conta. Não queria e nem precisava lembrar-se delas. Tudo o que precisava saber é que agora sabia que desejava perseguir esse objetivo; que ainda era possível! E agora, livre das amarras do passado, e alcançando a maturidade mental necessária, iria se esforçar, mesmo que fracassasse.

“Não há vitória sem luta!”, como disse Santo Antônio de Pádua.

É preciso arriscar! É preciso lutar! É preciso tentar!

É melhor enfrentar um fracasso, a ter que suportar o arrependimento de nem ter tentado.

Lute! Arrisque! Siga em frente! Viva!
Autor: Alexandre Antonio Coutinho Faria

Primeira publicação.
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