domingo, 30 de setembro de 2012

Poesia - Ignoto Deo - Almeida Garret



Ignoto Deo

(D. D. D.)



Creio em ti, Deus; a fé viva
De minha alma a ti se eleva.
És: - o que és não sei. Deriva
Meu ser do teu: luz... e treva,
Em que - indistintas! - se envolve
Este espírito agitado,
De ti vêm, a ti devolve.
O Nada, a que foi roubado
Pelo sopro criador
Tudo o mais, o há-de tragar.
Só vive do eterno ardor
O que está sempre a aspirar
Ao infinito donde veio.
Beleza és tu, luz és tu,
Verdade és tu só. Não creio
Senão em ti; o olho nu
Do homem não vê na terra
Mais que a dúvida, a incerteza,
A forma que engana e erra.
Essência! a real beleza,
O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
Ignoto Deo, das ronceiras,
Vulgares turbas: despidos
Das coisas vãs e grosseiras
Sua alma, razão, sentidos,
A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só espera.



OBS: No presente poema, como o testemunham o título e o seu parêntesis (D. D. D. (dat, donat, dedicat (dá, sacrifica, consagra)), o sujeito poético concretiza a dedicatória de Folhas Caídas a um deus desconhecido (Ignoto Deo), dedicatória essa, aliás, anunciada já na Advertência (“Consagrei-os Ignoto Deo”) e confirmada nos vv 30/34.

Do Livro "Folhas Caídas"
Referência:Farol das Letras
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