domingo, 5 de agosto de 2012

José de Alencar - Como e Porque sou Romancista (parte 3) - Texto


Como e Porque Sou Romancista (parte 3)



Capítulo VII

Eis-me de repente lançado no turbilhão do mundo.
Ao cabo de quatro anos de tirocínio na advocacia, a imprensa diária, na qual apenas me arriscara como folhetinista, arrebatou-me. Em fins de 1856 achei-me redator-chefe do Diário do Rio de Janeiro.
É longa a história dessa luta, que absorveu cerca de três dos melhores anos de minha mocidade. Aí se acrisolaram as audácias que desgostos, insultos, nem ameaças conseguiram quebrar até agora; antes parece que as afiam com o tempo.
Ao findar o ano, houve idéia de oferecer aos assinantes da folha, um mimo de festa. Saiu um romancete, meu primeiro livro, se tal nome cabe a um folheto de 60 páginas.
Escrevi Cinco Minutos em meia dúzia de folhetins que iam saindo na folha dia pôr dia, e que foram depois tirados em avulso sem nome do autor. A prontidão com que em geral antigos e novos assinantes reclamavam seu exemplar, e a procura de algumas pessoas que insistiam pôr comprar a brochura, somente destinada à distribuição gratuita entre os subscritores do jornal; foi a única, muda mas real, animação que recebeu essa primeira prova.
Bastou para suster a minha natural perseverança. Tinha leitores e espontâneos, não iludidos pôr falsos anúncios. Os mais pomposos elogios não valiam, e nunca valerão para mim, essa silenciosa manifestação, ainda mais sincera nos países como o nosso de opinião indolente.
Logo depois do primeiro ensaio, veio A Viuvinha. Havia eu em época anterior começado este romancete, invertendo a ordem cronológica dos acontecimentos. Deliberei porém mudar o plano, e abri a cena com o princípio da ação.
Tinha eu escrito toda a primeira parte, que era logo publicada em folhetins; e contava aproveitar na segunda o primeiro fragmento; mas, quando o procuro,dou pela falta.
Sabidas as contas, Leonel que era então o encarregado da revista semanal, Livro do Domingo, como ele intitulou, achando-se um sábado em branco, pediu-me alguma coisa com que encher o rodapé da folha. Ocupado com outros assuntos, deixei que buscasse entre os meus borrões. No dia seguinte lograva ele aos leitões dando-lhes em vez da habitual palestra, um conto. Era este o meu princípio de romance ao qual ele tinha posto, com uma linha de reticências e duas de prosa, um desses súbitos desenlaces que fazem o efeito de uma guilhotina literária.
Fatigado do trabalho da véspera, urgido pelas ocupações do dia, em constantes tribulações, nem sempre podia eu passar os olhos pôr toda a folha.
Nesse domingo não li a revista, cujo teor já me era conhecido, pois saíra-me da pasta.
Imagine, como fiquei, em meio de um romance, cuja continuação o leitor já conhecia oito dias antes. Que fazer? Arrancar do Livro do Domingo, as páginas já publicadas? Podia-o fazer; pois o folhetinista não as dera como suas, e deixara entrever o autor; mas fora matar a ilusão.
Daí veio o abandono desse romance, apesar dos pedidos que surgiam a espaços, instando pela conclusão. Só três anos depois, quando meu amigo e hoje meu cunhado, Dr. Joaquim Bento de Souza Andrade, quis publicar uma segunda edição de Cinco Minutos, escrevi eu o final d’A Viuvinha, que faz parte do mesmo volume.
O desgosto que me obrigou a truncar o segundo romance, levou-me o pensamento para um terceiro, porém este já de maior fôlego. Foi O Guarani, que escrevi dia pôr dia para o folhetim do Diário, entre os meses de fevereiro e abril de 1857, se bem me recordo.
No meio das labutações do jornalismo, oberado não somente com a redação de uma folha diária, mas com a administração da empresa, desempenhei-me da tarefa que me impusera, e cujo alcance eu não medira ao começar a publicação, apenas com os dois primeiros capítulos escritos.
Meu tempo dividia-se desta forma. Acordava, pôr assim dizer, na mesa do trabalho; e escrevia o resto do capítulo começado no dia antecedente para envia-lo à tipografia. Depois do almoço entrava pôr novo capítulo que deixava em meio. Saía então para fazer algum exercício antes do jantar no "Hotel de Europa". A tarde, até nove ou dez horas da noite, passava no escritório da redação, onde escrevia o artigo editorial e o mais que era preciso.
O resto do serão era repousar o espírito dessa árdua tarefa jornaleira, em alguma distração, como o teatro e as sociedades.
Nossa casa no Largo do Rocio, nº 73, estava em reparos. Trabalhava eu num quarto do segundo andar, ao estrépito do martelo, sobre uma banquinha de cedro, que apenas chegava para o mister da escrita; e onde a minha velha caseira Ângela servia-me o parco almoço. Não tinha comigo um livro; e socorria-me unicamente a um canhenho, em que havia em notas o fruto de meus estudos sobre a natureza e os indígenas do Brasil.
Disse alguém, e repete-se pôr aí de outiva que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do Ceará com as margens do Delaware.
A impressão profunda que em mim deixou Cooper foi, já lhe disse, como poeta do mar. D’Os Contrabandistas, sim, poder-se-ia dizer, apesar da originalidade da concepção, que foram inspirados pela leitura do Piloto, do Corsário, do Varredor do Mar etc. Quanto à poesia americana, o modelo para mim ainda hoje é Chateaubriand; mas o mestre que eu tive, foi esta esplêndida natureza que me envolve, e particularmente a magnificência dos desertos que eu perlustrei ao entrar na adolescência, e foram o pórtico majestoso pôr onde minha alma penetrou no passado de sua pátria.
Daí, desse livro secular e imenso, é que eu tirei as páginas d’O Guarani , as de Iracema , e outras muitas que uma vida não bastaria a escrever. Daí e não das obras de Chateaubriand, e menos das de Cooper, que não eram senão a cópia do original sublime, que eu havia lido com o coração.
O Brasil tem, como os Estados Unidos, e quaisquer outros povos da América, um período de conquista, em que a raça invasora destrói a raça indígena. Essa luta apresenta um caráter análogo, pela semelhança dos aborígenes. Só no Peru e México difere.
Assim o romancista brasileiro que buscar o assunto do seu drama nesse período da invasão, não pode escapar ao ponto de contacto com o escritor americano. Mas essa aproximação vem da história, é fatal, e não resulta de uma imitação.
Se Chateaubriand e Cooper não houvessem existido, o romance americano havia de aparecer no Brasil a seu tempo.
Anos depois de escrito O Guarani, reli Cooper a fim de verificar a observação dos críticos e convenci-me de que ela não passa de um rojão. Não há no romance brasileiro um só personagem de cujo tipo se encontre o molde nos Moicanos, Espíão, Ontário, Sapadores e Leonel Lincoln.
N’O Guarani derrama-se o lirismo de uma imaginação mpça, que tem como a primeira rama o vício da exuberância; pôr toda a parte a linfa, pobre de seiva, brota em flor ou folha. Nas obras do eminente romancista americano, nota-se a singeleza e parcimônia do prosador, que se não deixa arrebatar pela fantasia, antes a castiga.
Cooper considera o indígena sob o ponto de vista social, e na descrição dos seus costumes foi realista; apresentou-o sob aspecto vulgar.
N’O Guarani o selvagem é um ideal, que o escritor intenta poetizar, despindo-o da crosta grosseira de que o envolveram os cronistas, e arrancando-o ao ridículo que sobre ele projetam os restos embrutecidos da quase extinta raça.
Mas Cooper descreve a natureza americana, dizem os críticos. E que havia ele de descrever, senão a cena de seu drama? Antes dele Walter Scott deu o modelo dessas paisagens à pena, que fazem parte da cor local.
O que se precisa examinar é se as descrições d’O Guarani têm algum parentesco ou afinidade com as descrições de Cooper; mas isso não fazem os críticos, porque dá trabalho e exige que se pense. Entretanto basta o confronto para conhecer que não se parecem nem no assunto, nem no gênero e estilo.
A edição avulsa que se tirou d’O Guarani, logo depois de concluída a publicação em folhetim, foi comprada pela livraria do Brandão, pôr um conto e quatrocentos mil réis que cedi à empresa. Era essa edição de mil exemplares, porém trezentos estavam truncados, com as vendas de volumes que se faziam à formiga na tipografia. Restavam pois setecentos, saindo o exemplar a 2$000.
Foi isso em 1857. Dois anos depois comprava-se o exemplar a 5$000 e mais. Nos belchiores que o tinham a cavalo do cordel, embaixo dos arcos do Paço, donde o tirou o Xavier Pinto para a sua livraria da Rua dos Ciganos. A indiferença pública, senão o pretensioso desdém da roda literária, o tinha deixado cair nas pocilgas dos alfarrabistas.
Durante todo esse tempo e ainda muito depois, não vi na imprensa qualquer elogio, crítica ou simples notícia do romance, a não ser em uma folha do Rio Grande do Sul, como razão para a transcrição dos folhetins. Reclamei contra esse abuso, que cessou; mas posteriormente soube que aproveitou-se a composição já adiantada para uma tiragem avulsa. Com esta anda atualmente a obra na sexta edição.
Na bela introdução que Mendes Leal escreveu ao seu Calabar, se extasiava ante os tesouros da poesia brasileira, que ele supunha completamente desconhecidos para nós. "E tudo isto oferecido ao romancista, virgem, intacto, para escrever, para animar, para reviver".
Que ele o dissesse, não há estranhar, pois ainda hoje os literatos portugueses não conhecem da nossa literatura, senão o que se lhes manda de encomenda com um ofertório de mirra e incenso. Do mais não se ocupam; uns pôr economia, outros pôr desdém. O Brasil é um mercado para seus livros e nada mais.
Não se compreende, porém, que uma folha brasileira, como era o Correio Mercantil, anunciando a publicação do Calabar, insistisse na idéia de ser essa obra uma primeira lição do romance nacional dada aos escritores brasileiros, e não advertisse que dois anos antes um compatriota e seu ex-redator se havia estreado nessa província literária.
"Há muito que o autor pensava na tentativa de criar no Brasil para o Brasil um gênero de literatura para que ele parece tão afeito e que lhe pode fazer serviços reais". Quando Mendes Leal escrevia em Lisboa estas palavras, o romance americano já não era uma novidade para nós; e tinha n’O Guarani um exemplar, não arreado dos primores do Calabar, porém incontestavelmente mais brasileiro.


Capítulo VIII

Hoje em dia quando surge algum novel escritor, o aparecimento de seu primeiro trabalho é uma festa, que celebra-se na imprensa com luminárias e fogos de vistas. Rufam todos os tambores do jornalismo, e a literatura forma parada e apresenta armas ao gênio triunfante que sobe ao Panteão.
Compare-se essa estrada, tapeçada de flores, com a rota aspérrima que eu tive de abrir, através da indiferença e do desdém, desbravando as urzes da intriga e da maledicência.
Outros romances é de crer que sucedessem a O Guarani no folhetim do Diário; se meu gosto não se voltasse então para o teatro. De outra vez falarei da feição dramática de minha vida literária; e contarei como e porque veio-me essa fantasia. Aqui não se trata senão do romancista.
Em 1862 escrevi Lucíola, que editei pôr minha conta e com o maior sigilo. Talvez não me animasse a esse cometimento, se a venda da segunda e terceira edição ao Sr. Garnier, não me alentasse a confiança, provendo-me de recursos para os gastos da impressão. O aparecimento de meu novo livro fez-se com a etiqueta, ainda hoje em voga, dos anúncios e remessa de exemplares à redação dos jornais. Entretanto toda a imprensa diária resumiu-se nesta notícia de um laconismo esmagador, publicada pelo Correio Mercantil: "Saiu à luz um livro intitulado Lucíola". Uma folha de caricaturas trouxe algumas linhas pondo ao romance tachas de francesia.
Há de ter ouvido algures, que eu sou um mimoso do público, cortejado pela imprensa, cercado de uma voga de favor, vivendo da falsa e ridícula idolatria a um romance oficial. Aí tem as provas cabais; e pôr elas avalie dessa nova
conspiração do despeito que veio substituir a antiga conspiração do silêncio e da indiferença.
Apesar do desdém da crítica de barrete, Lucíola conquistou seu público, e não somente fez caminho como ganhou popularidade. Em um ano esgotou-se a primeira edição de mil exemplares, e o Sr. Garnier comprou-me a segunda, propondo-me tomar em iguais condições ouro perfil de mulher, que eu então gizava.
Pôr esse tempo fundou a sua Biblioteca Brasileira, o meu amigo Sr. Quintino Bocaiúva, que teve sempre um fraco pelas minhas sensaborias literárias. Reservou-me um de seus volumes, e pediu-me com que enche-lo. Além de esboços e fragmentos, não guardava na pasta senão uns dez capítulos de romance começado.
Aceitou-os, e em boa hora os deu a lume; pois esse primeiro tomo desgarrado excitou alguma curiosidade que induziu o Sr. Garnier a editar a conclusão. Sem aquela insistência de Quintino Bocaiúva, As Minas de Prata, obra de maior traço, nunca sairia da crisálida e os capítulos já escritos estariam fazendo companhia a Os Contrabandistas.
De volta de São Paulo, onde fiz uma excursão de saúde, e já em férias de política, com a dissolução de 13 de maio de 1863, escrevi Diva que saiu a lume no ano seguinte, editada pelo Sr. Garnier.
Foi dos meus romances – e já andava no quinto, não contando o volume d’As Minas de Prata – o primeiro que recebeu hospedagem da imprensa diária, e foi acolhido com os cumprimentos banais da cortesia jornalística. Teve mais: o Sr. H Muzzio consagrou-lhe no Diário do Rio um elegante folhetim, mas de amigo que não de crítico.
Pouco depois (20 de junho de 1864) deixei a existência descuidosa e solteira para entrar na vida da família onde o homem se completa. Como a literatura nunca fora para mim uma Boêmia, e somente um modesto Tibur para o espírito arredio, este sempre grande acontecimento da história individual não marca época na minha crônica literária.
A composição dos cinco últimos volumes d’As Minas de Prata ocupou-me três meses entre 1864 e 1865, porém a demorada impressão estorvou-me um ano, que tanto durou. Ninguém sabe da má influência que tem exercido na minha carreira de escritor, o atraso de nossa arte tipográfica, que um constante caiporismo torna em péssima para mim.
Se eu tivesse a fortuna de achar oficinas bem montadas com hábeis revisores, meus livros sairiam mais corretos; a atenção e o tempo pôr mim despendidos em rever, e mal, provas truncadas, seriam melhor aproveitados em compor outra obra.
Para publicar Iracema em 1869, fui obrigado a edita-lo pôr minha conta; e não andei mal inspirado, pois antes de dois anos a edição extinguiu-se.
De todos os meus trabalhos deste gênero nenhum havia merecido as honras que a simpatia e a confraternidade literária se esmeram em prestar-lhes. Além de agasalhado pôr todos os jornais, inspirou a Machado de Assis uma de suas mais elegantes revistas bibliográficas.
Até com surpresa minha atravessou o oceano, e granjeou a atenção de um crítico ilustrado e primoroso escritor português, o Sr. Pinheiros Chagas, que dedicou-lhe um de seus ensaios críticos.
Em 1868 a alta política arrebatou-me às letras para só restituir-me em 1870. Tão vivas eram as saudades dos meus borrões, que apenas despedi a pasta auri-verde dos negócios de estado, fui tirar da gaveta onde a havia escondido, a outra pasta de velho papelão, todo rabiscado, que era então a arca de meu tesouro.
Aí começa outra idade de autor, a qual eu chamei de minha velhice literária, adotando o pseudônimo de Sênio, e outros querem seja a da decrepitude. Não me afligi com isto, eu que, digo-lhe com todas as veras, desejaria fazer-me escritor póstumo, trocando de boa vontade os favores do presente pelas severidades do futuro.
Desta segunda idade, que V. tem acompanhado, nada lhe poderia referir de novo, senão um ou outro pormenor de psicologia literária, que omito pôr não alongar-me ainda mais. Afora isso, o resto é monótono, e não passaria de datas, entremeadas da inesgotável serrazina dos autores contra os tipógrafos que lhes estripam o pensamento.
Ao cabo de vinte e dois anos de gleba na imprensa, achei afinal um editor, o Senhor B. Garnier, que espontaneamente ofereceu-me um contrato vantajoso em meados de 1870.
O que lhe deve a minha coleção, ainda antes do contrato, terá visto nesta carta; depois, trouxe-me esta vantagem, que na concepção de um romance e na sua feitura, não me turva a mente a lembrança do tropeço material, que pode matar o livro, ou fazer dele uma larva.
Deixe arrotarem os poetas mendicantes. O Magnus Apollo da poesia moderna, o deus da inspiração e pai das musas deste século, é essa entidade que se chama editor e o seu Parnaso uma livraria. Se outrora houvesse Homeros, Sófocles, Virgílios, Horácios e Dantes, sem tipografia nem impressor, é porque então escrevia-se nessa página imortal que se chama a tradição. O poeta cantava; e seus carmes se iam gravando no coração do povo.
Todavia ainda para o que teve a fortuna de obter um editor, o bom livro é no Brasil e pôr muito tempo será para seu autor, um desastre financeiro. O cabedal de inteligência e trabalho que nele se emprega, daria em qualquer outra aplicação, lucro cêntuplo.
Mas muita gente acredita que eu me estou cevando em ouro, produto de minhas obras. E, ninguém ousaria acredita-lo, imputaram-me isso a crime, alguma cousa como sórdida cobiça.
Que país é este onde forja-se uma falsidade, e para que? Para tornar odiosa e desprezível a riqueza honestamente ganha pelo mais nobre trabalho, o da inteligência!
Dir-me-á que em toda a parte há dessa praga; sem dúvida, mas é praga; e não tem foros e respeitos de jornal,admitindo ao grêmio da imprensa.
Excedi-me além do que devia; o prazer da conversa...(1)

Maio de 1873.

Nota:

1. Aqui ficou interrompida a frase final deste trabalho, já datado e assinado pelo seu autor.

 Fonte: Wikisource
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...