quarta-feira, 1 de agosto de 2012

José de Alencar - Como e Porque sou Romancista (parte 2) - Texto

Como e Porque Sou Romancista (parte 2)



Capítulo III

Mais tarde, quando a razão, como o fruto, despontou sob a flor da juventude, muitas vezes cogitei sobre esse episódio de infância, que deixara em meu espírito, uma vaga dúvida a respeito do caráter de Januário.
Então o excessivo rigor que se me tinha afigurado injusto, tomava o seu real aspecto; e me aparecia como o golpe rude, mas necessário que dá têmpera ao aço. Porventura notara o diretor de minha parte uma confiança que deixava em repouso as minhas faculdades, e da qual proviera o meu descuido.
Este episódio escolástico veio aqui pôr demais, trazido pelo fio das reminiscências. Serve entretanto para mostrar-lhe o aproveitamento que deviam tirar os alunos desse método de ensino.
Sabíamos pouco; mas esse pouco sabíamos bem. Aos onze anos não conhecia uma só palavra de língua estrangeira, nem aprendera mais do que as chamadas primeiras letras.
Muitos meninos, porém, que nessa idade tagarelam em várias línguas e já babujam nas ciências, não recitam uma página de Frei Francisco de São Luís, ou uma ode do Padre Caldas, com a correção, nobreza, eloqüência e alma que Januário sabia transmitir a seus alunos.
Essa prenda que a educação deu-me para toma-la pouco depois, valeu-me em casa o honroso cargo de ledor, com que me eu desvanecia, como nunca me sucedeu ao depois no magistério ou no parlamento.
Era eu quem lia para minha boa mãe não somente as cartas e os jornais, como os volumes de uma diminuta livraria romântica formada ao gosto do tempo.
Morávamos, então, na Rua do Conde, nº 55. Aí nessa casa preparou-se a grande revolução parlamentar que entregou ao Sr. D. Pedro II o exercício antecipado de suas prerrogativas constitucionais.
A propósito desse acontecimento histórico, deixe passar aqui nesta confidência inteiramente literária, uma observação que me acode e, se escapa agora, talvez não volte nunca mais.
Uma noite pôr semana, entravam misteriosamente em nossa casa os altos personagens filiados ao Clube Maiorista de que era presidente o Conselheiro Antônio Carlos e Secretário o Senador Alencar.
Celebravam-se os serões em um aposento do fundo, fechando-se nessas ocasiões a casa às visitas habituais, a fim de que nem elas nem os curiosos da rua suspeitassem do plano político, vendo iluminada a sala de frente.
Enquanto deliberavam os membros do Clube, minha boa mãe assistia ao preparo de chocolate com bolinhos, que era costume oferecer aos convidados pôr volta de nove horas, e eu, ao lado com impertinências de filho querido, insistia pôr saber o que ali ia fazer aquela gente.
Conforme o humor em que estava, minha boa mãe às vezes divertia-se logrando com histórias a minha curiosidade infantil; outras deixava-me falar às paredes e não se distraía de suas ocupações de dona de casa.
Até que chegava a hora do chocolate. Vendo partir carregada de tantas gulosinas a bandeja que voltava completamente destroçada, eu que tinha os convidados na conta de cidadãos respeitáveis, preocupados dos mais graves assuntos, indignava-me ante aquela devastação e dizia com a mais profunda convicção:
-O que estes homens vêm fazer aqui é regalarem-se de chocolate.
Essa, a primeira observação do menino em coisas de política, ainda a não desmentiu a experiência do homem. No fundo de todas as evoluções lá está o chocolate embora sob vários aspectos.
Há caracteres íntegros, como o do Senador Alencar, apóstolos sinceros de uma idéia e mártires dela. Mas estes são esquecidos na hora do triunfo, quando não servem de vítimas para aplacar as iras celestes.
Suprima este mau trecho que insinuou-se malgrado e contra todas as usanças em uma palestra, senão au coin du feu, em todo o caso aqui neste cantinho da imprensa.
Afora os dias de sessão, a sala do fundo era a estação habitual da família.
Não havendo visitas de cerimônia sentava-se minha boa mãe e sua irmã D. Florinda com os amigos que pareciam, ao redor de uma mesa redonda de jacarandá, no centro da qual havia um candeeiro.
Minha mãe e minha tia se ocupavam com trabalhos de costuras, e as amigas para não ficarem ociosas as ajudavam. Dados os primeiros momentos à conversação, passava-se à leitura e era eu chamado ao lugar de honra.
Muitas vezes, confesso, essa honra me arrancava bem a contragosto de um sono começado ou de um folguedo querido; já naquela idade a reputação é um fardo e bem pesado.
Lia-se até a hora do chá, e tópicos havia tão interessantes que eu era obrigado à repetição. Compensavam esse excesso, as pausas para dar lugar às expansões do auditório, o qual desfazia-se em recriminações contra algum mau personagem, ou acompanhava de seus votos e simpatias o herói perseguido.
Uma noite, daquelas em que eu estava mais possuído do livro, lia com expressão uma das páginas mais comoventes da nossa biblioteca. As senhoras, de cabeça baixa, levavam o lenço ao rosto, e poucos momentos depois não puderam conter os soluços que rompiam-lhes o seio.
Com a voz afogada pela comoção e a vista empanada pelas lágrimas, eu também cerrando ao peito o livro aberto, disparei em pranto e respondia com palavras de consolo às lamentações de minha mãe e suas amigas.
Nesse instante assomava à porta um parente nosso, o Revd.º Padre Carlos Peixoto de Alencar, já assustado com o choro que ouvira ao entrar – Vendo-nos a todos naquele estado de aflição, ainda mais perturbou-se:
-Que aconteceu? Alguma desgraça? Perguntou arrebatadamente.
As senhoras, escondendo o rosto no lenço para ocultar do Padre Carlos o pranto e evitar seus remoques, não proferiram palavra. Tomei eu a mim responder:
-Foi o pai de Amanda que morreu! Disse, mostrando-lhe o livro aberto.
Compreendeu o Padre Carlos e soltou uma gargalhada, como ele as sabia dar, verdadeira gargalhada homérica, que mais parecia uma salva de sinos a repicarem do que riso humano. E após esta, outra e outra, que era ele inesgotável, quando ria de abundância de coração, com o gênio prazenteiro de que a natureza o dotara.
Foi essa leitura contínua e repetida de novelas e romances que primeiro imprimiu em meu espírito a tendência para essa forma literária que é entre todas a de minha predileção?
Não me animo a resolver esta questão psicológica, mas creio que ninguém contestará a influência das primeiras impressões.
Já vi atribuir o gênio de Mozart e sua precoce revelação à circunstância de ter ele sido acalentado no berço e criado com música.
Nosso repertório romântico era pequeno; compunha-se de uma dúzia de obras entre as quais primavam a Amanda e Oscar, Saint-Clair das Ilhas, Celestina e outras de que já não me recordo.
Esta mesma escassez, e a necessidade de reler uma e muitas vezes o mesmo romance, quiçá contribuiu para mais gravar em meu espírito os moldes dessa estrutura literária, que mais tarde deviam servir aos informes esboços do novel escritor.


Capítulo IV

O primeiro broto da semente que minha boa mãe lançara em meu espírito infantil, ignara dos desgostos que preparava a seu filho querido, veio dois anos depois.
Entretanto é preciso que lhe diga. Se a novela foi a minha primeira lição de literatura, não foi ela que me estreou na carreira de escritor. Este título cabe a outra composição, modesta e ligeira, e pôr isso mesmo mais própria para exercitar um espírito infantil.
O dom de produzir a faculdade criadora, se a tenho, foi a charada que a desenvolveu em mim, e eu teria prazer em referir-lhe esse episódio psicológico, se não fosse o receio de alongar-me demasiado, fazendo novas excursões fora do assunto que me produz.
Foi em 1842.
Já então havíamos deixado a casa da Rua do Conde e morávamos na Chácara da Rua Maruí, nº 7, donde também saíram importantes acontecimentos de nossa história política. E todavia ninguém se lembrou ainda de memorar o nome do Senador Alencar, nem mesmo pôr esse meio econômico de uma esquina de rua.
Não vai nisso mais que um reparo, pois sou avesso a semelhante modo de honrar a memória de beneméritos; além de que ainda não perdi a esperança de escrever esse nome de minha veneração no frontispício de um livro que lhe sirva de monumento. O seu vulto histórico, não o atingem pôr certo as calúnias póstumas que, sem reflexão, foram acolhidas em umas páginas ditas de história constitucional; mas quantos dentre vós estudam conscienciosamente o passado?
Como a revolução parlamentar da maioridade, a revolução popular de 1842 também saiu de nossa casa, embora o plano definitivo fosse adotado em casa do Senador José Bento, à Rua do Conde, 39
Nos paroxismos, quando a abortada revolução já não tinha glórias, mas só perigos para os seus adeptos, foi na Chácara do Senador Alencar que os perseguidos acharam asilo, em 1842 como em 1848.
Entre os nossos hóspedes da primeira revolução, estava o meu excelente amigo Joaquim Sombra, que tomara parte no movimento sedicioso do Exu e sertões de Pernambuco.
Contava ele então os seus vinte e poucos anos: estava na flor da mocidade, cheio de ilusões e entusiasmos. Meus versos arrebentados à força de os esticar, agradavam-lhe ainda assim, porque no fim de contas eram um arremedo de poesia; e porventura levavam um perfume da primavera da alma.
Vendo-me ele essa mania de rabiscar, certo dia propôs-me que aproveitasse para uma novela o interessante episódio da sedição, do qual era ele o protagonista.
A idéia foi aceita com fervor e tratamos logo de a pôr em obra.
A cena era em Pajeú de Flores, nome que só pôr si enchia-me o espírito da fragrância dos campos nativos, sem falar dos encantos com que os descrevia o meu amigo.
Esse primeiro rascunho foi-se com os folguedos da infância que o viram nascer. Das minhas primícias literárias nada conservo; lancei-as ao vento, como palhiço que eram da primeira copa.
Não acabei o romance do meu amigo Sombra; mas em compensação de não te-lo feito herói de um poema, coube-me, vinte e sete anos depois, a fortuna mais prosaica de nomeá-lo coronel, posto que ele dignamente ocupa e no qual presta relevantes serviços à causa pública.
Um ano depois, parti para São Paulo, onde ia estudar os preparatórios que me faltavam para a matrícula no curso jurídico.


Capítulo V

Com a minha bagagem, lá no fundo da canastra, iam uns cadernos escritos em letra miúda e conchegada. Eram o meu tesouro literário.
Ali estavam fragmentos de romances, alguns apenas começados, outros já no desfecho, mas ainda sem princípio.
De charadas e versos, nem lembrança. Estas flores efêmeras das primeiras águas tinham passado com elas. Rasgara as páginas dos meus canhenhos e atirara os fragmentos no turbilhão das folhas secas das mangueiras, a cuja sombra folgara aquele ano feliz de minha infância.
Nessa época tinha eu dois moldes para o romance.
Um merencório, cheio de mistérios e pavores; esse, o recebera das novelas que tinha lido. Nele a cena começava nas ruínas de um castelo, amortalhadas pelo baço clarão da lua; ou nalguma capela gótica frouxamente esclarecida pela lâmpada, cuja luz esbatia-se na lousa de uma campa.
O outro molde, que me fora inspirado pela narrativa pitoresca do meu amigo Sombra, era risonho, loução, brincado, recendendo graças e perfumes agrestes. Aí a cena abria-se em uma campina, marchetada de flores, e regada pelo sussurrante arroio que a bordava de recamos cristalinos.
Tudo isto, porém, era esfumilho que mais tarde devia apagar-se.
A página acadêmica é para mim, como para os que a viveram, riquíssima de reminiscências, e nem podia ser de outra forma, pois abrange a melhor monção da existência.
Não tomarei dela, porém, senão o que tem relação com esta carta.
Ao chegar a São Paulo, era eu uma criança de treze anos, cometida aos cuidados de um parente, então estudante do terceiro ano, e que atualmente figura com lustre na política e na magistratura.
Algum tempo depois de chegado, instalou-se a nossa república ou comunhão acadêmica à Rua de São Bento, esquina da Rua da Quitanda, em um sobradinho acachapado, cujas lojas do fundo eram ocupadas pôr quitandeiras.
Nossos companheiros foram dois estudantes do quinto ano; um deles já não é deste mundo; o outro pertence à alta magistratura, de que é ornamento. Naqueles bons tempos da mocidade, deleitava-o a literatura e era entusiasta do Dr. Joaquim Manuel de Macedo que pouco havia publicado o seu primeiro e gentil romance. – A Moreninha.
Ainda me recordo das palestras em que meu companheiro de casa falava com abundâncias de coração em seu amigo e nas festas campestres do romântico Itaboraí, das quais o jovem escritor era o ídolo querido.
Nenhum dos ouvintes bebia esses pormenores com tamanha avidez como eu, para quem eram completamente novos. Com a timidez e o acanhamento de meus treze anos, não me animava a intervir na palestra; escutava à parte; e pôr isso ainda hoje tenho-as gravadas em minhas reminiscências, a estas cenas do viver escolástico.
Que estranho sentir não despertava em meu coração adolescente a notícia dessas homenagens de admiração e respeito tributados ao jovem autor d’A Moreninha! Qual régio diadema valia essa auréola de entusiasmo a cingir o nome de um escritor?
Não sabia eu então que em meu país essa luz, que dizem glória, e de longe se nos afigura radiante e esplêndida, não é senão o baço lampejo de um fogo de palha.
Naquele tempo o comércio dos livros era, como ainda hoje, artigo de luxo; todavia, apesar de mais baratas, as obras literárias tinham menor circulação. Provinha isso da escassez das comunicações com a Europa, e da maior raridade de livrarias e gabinetes de leitura.
Cada estudante, porém, levava consigo a modesta provisão que juntara durante as férias, e cujo uso entrava logo para a comunhão escolástica. Assim correspondia São Paulo às honras de sede de uma academia, tornando-se o centro do movimento literário.
Uma das livrarias, a que maior cabedal trazia a nossa biblioteca, era de Francisco Otaviano, que herdou do pai uma escolhida coleção das obras dos melhores escritores da literatura moderna, a qual o jovem poeta não se descuidava de enriquecer com as últimas publicações.
Meu companheiro de casa era dos amigos de Otaviano, e estava no direito de usufruir sua opulência literária. Foi assim que um dia vi pela primeira vez o volume das obras completas de Balzac, nessa edição em folha que os tipógrafos da Bélgica vulgarizam pôr preço módico.
As horas que meu companheiro permanecia fora, passava-as eu com o volume na mão, a reler os títulos de cada romance da coleção, hesitando na escolha daquele pôr onde havia de começar. Afinal decidia-me pôr um dos mais pequenos; porém, mal começada a leitura, desistia ante a dificuldade.
Tinha eu feito exame de francês à minha chegada em São Paulo e obtivera aprovação plena, traduzindo uns trechos do Telêmaco e da Henriqueida; mas, ou soubesse eu de outiva a versão que repeti, ou o francês de Balzac não se parecesse em nada com o de Fenelon e Voltaire; o caso é que não conseguia compreender um período de qualquer dos romances da coleção.
Todavia achava eu um prazer singular em percorrer aquelas páginas, e pôr um ou outro fragmento de idéia que podia colher nas frases indecifráveis, imaginava os tesouros que ali estavam defesos à minha ignorância.
Conto-lhe este pormenor para que veja quão descurado foi o meu ensino de francês, falta que se deu em geral com toda a minha instrução secundária, a qual eu tive de refazer na máxima parte, depois de concluído o meu curso de direito, quando senti a necessidade de criar uma individualidade literária.
Tendo meu companheiro concluído a leitura de Balzac, a instâncias minhas, passou-me o volume, mas constrangido pela oposição de meu parente que receava dessa diversão.
Encerrei-me com o livro e preparei-me para a luta. Escolhido o mais breve dos romances, armei-me do dicionário e, tropeçando a cada instante, buscando significados de palavra em palavra, tornando atrás para reatar o fio da oração, arquei sem esmorecer com a ímproba tarefa. Gastei oito dias com a Grenadière; porém um mês depois acabei o volume de Balzac; e no resto do ano li o que então havia de Alexandre Dumas e Alfredo Vigny, além de muito de Chateaubriand e Victor Hugo.
A escola francesa, que eu então estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado pôr mera casualidade aquele arrojo de criança a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com a elegância e beleza que jamais lhe poderia dar.
E aí está, porque justamente quando a sorte me deparava o modelo a imitar, meu espírito desquita-se dessa, a primeira e a mais cara de suas aspirações, para devanear pôr outras devesas literárias, onde brotam flores mais singelas e modestas.
O romance, como eu agora o admirava, poema da vida real, me aparecia na altura dessas criações sublimes, que a Providência só concede aos semideuses do pensamento; e que os simples mortais não podem ousar, pois arriscam-se a derreter-lhes o sol, como a Ícaro, as penas de cisnes grudadas com cera.
Os arremedos de novelas, que eu escondia no fundo de meu baú, desprezei-os ao vento. Pesa-me ter destruído as provas desses primeiros tentamens que seriam agora relíquias para meus filhos e estímulos para fazerem melhor. Só pôr isso, que de valor literário não tinham nem ceitil.
Os dois primeiros anos que passei em São Paulo. Foram para mim de contemplação e recolhimento de espírito. Assistia arredio ao bulício acadêmico e familiariza-me de parte com esse viver original, inteiramente desconhecido para mim, que nunca fora pensionista de colégio, nem havia até então deixado o regaço da família.
As palestras à mesa do chá, as noites de cinismo conversadas até o romper da alva, entre a fumaça dos cigarros; as anedotas e aventuras da vida acadêmica, sempre repetidas; as poesias clássicas da literatura paulistana e as cantigas tradicionais do povo estudante; tudo isto sugava o meu espírito a linfa, para mais tarde desabrochar a talvez pálida florinha.
Depois vinham os discursos recitados nas solenidades escolares, alguma nova poesia de Otaviano, os brindes nos banquetes de estudantes, o aparecimento de alguma obra recentemente publicada na Europa e outras novidades literárias, que agitavam a rotina de nosso viver habitual e comoviam um instante a colônia acadêmica.
Não me recordo de qualquer tentâmen literário de minha parte, até fins de 1844. Os estudos de filosofia e história preenchiam o melhor de meu tempo, e de todo me traíam..
O único tributo que paguei então à moda acadêmica, foi o das citações. Era nesse ano bom-tom ter de memórias frases e trechos escolhidos dos melhores autores, para repeti-los a propósito.
Vistos de longe, e através da razão, esses arremedos de erudição, arranjados com seus remendos alheios, nos parecem ridículos; e todavia é esse jogo de imitação que primeiro imprime ao espírito a flexibilidade, como ao corpo o da ginástica.
Em 1845, voltou-me o prurido de escritor; mas esse ano foi consagrado à mania, que então grassava, de baironizar. Todo estudante de alguma imaginação queria ser um Byron; e tinha pôr destino inexorável copiar ou traduzir o bardo inglês.
Confesso que não me sentia o menor jeito para essa transfusão; talvez pelo meu gênio taciturno e concentrado que já tinha em si melancolia de sobejo, para não carecer desse empréstimo. Assim é que nunca passei de algumas peças ligeiras, das quais não me figurava herói e nem mesmo autor; pois divertia-me em escreve-las, com o nome de Byron, Hugo ou Lamartine, nas paredes de meu aposento, à Rua de Santa Tereza, onde alguns camaradas daquele tempo, ainda hoje meus bons amigos, os Doutores Costa Pinto e José Brusque talvez se recordem de as terem lido.
Era um discurso aos ilustres poetas atribuir-lhes versos de confecção minha; mas a broxa do caiador, incumbido de limpar a casa pouco tempo depois de minha partida, vingou-os desse inocente estratagema, com que nesse tempo eu libava a delícia mais suave para o escritor: ouvir ignoto o louvor de seu trabalho.
Que satisfação íntima não tive eu, quando um estudante que era então o inseparável amigo de Otaviano e seu irmão em letras, mas hoje chama-se o Barão de Ourém, releu com entusiasmo uma dessas poesias, seduzido sem dúvida, pelo nome de pseudo-autor! É natural que hoje nem se lembre desse pormenor; e mal saiba que todos os cumprimentos que depois recebi de sua cortesia, nenhum valia aquele espontâneo movimento.
Os dois anos seguintes pertencem à imprensa periódica. Em outra ocasião escreverei esta, uma das páginas mais agitadas da minha adolescência. Daí datam as primeiras raízes de jornalista; como todas as manifestações de minha individualidade, essa também iniciou-se no período orgânico.
O único homem novo e quase estranho que nasceu em mim com a virilidade, foi o político. Ou não tinha vocação para essa carreira, ou considerava o governo do estado coisa tão importante e grave, que não me animei nunca a ingerir-me nesses negócios. Entretanto eu saía de uma família para quem a política era uma religião e onde se haviam elaborado grandes acontecimentos de nossa história.
Fundamos, os primeiranistas de 1846, uma revista semanal sob o título – Ensaios Literários.
Dos primitivos colaboradores desse periódico, saudado no seu aparecimento pôr Otaviano e Olímpio Machado, já então redatores da Gazeta Oficial, faleceu, ao terminar o curso, o Dr. Araújo, inspirado poeta. Os outros aí andam dispersos pelo mundo. O Dr. José Machado Coelho de Castro é presidente do Banco do Brasil; o Dr. João Guilherme Whitaker é juiz de direito em São João do Rio Claro; e o conselheiro João de Almeida Pereira, depois de ter luzido no ministério e no parlamento, repousa das lides políticas no remanso da vida privada.


Capítulo VI

Foi somente em 1848 que ressurgiu em mim a veia do romance.
Acabava de passar dois meses em minha terra natal. Tinha-me repassado das primeiras e tão fagueiras recordações da infância, ali nos mesmos sítios queridos onde nascera.
Em Olinda onde estudava meu terceiro ano e na velha biblioteca do convento de São Bento a ler os cronistas da era colonial, desenhavam-se a cada instante, na tela das reminiscências, as paisagens de meu pátrio Ceará.
Eram agora os seus tabuleiros gentis; logo após as várzeas amenas e graciosas; e pôr fim as matas seculares que vestiam as seras como a ararróia verde do guerreiro tabajara.
E através destas também esfumavam-se outros painéis, que me representavam o sertão em todas as suas galas de inverno, as selvas gigantes que se prolongam até os Andes, os raios caudalosos que avassalam o deserto, e o majestoso São Francisco transformado em um oceano, sobre o qual eu navegara um dia.
Cenas estas que eu havia contemplado com olhos de menino dez anos antes, ao atravessar essas regiões em jornada do Ceará à Bahia; e que agora se debuxavam na memória do adolescente, e coloriam-se ao vivo com as tintas frescas da palheta cearense.
Uma coisa vaga e indecisa, que devia parecer-se com o primeiro broto d’O Guarani ou de Iracema, flutuava-me na fantasia. Devorando as páginas dos alfarrábios de notícias coloniais, buscava com sofreguidão um tema para o meu romance; ou peço menos um protagonista, uma cena e uma época.
Recordo-me de que para o martírio do Padre Francisco Pinto, morto pelos índios do Jaguaribe, se volvia meu espírito com predileção. Intentava eu figurá-lo na mesma situação em que se achou o Padre Anchieta, na praia de Iperoíg; mas sucumbindo afinal à tentação. A luta entre o apóstolo e o homem, tal seria o drama, para o qual de certo me faleciam as forças.
Atualmente que, embora em cena diversa, já tratei o assunto em um livro próximo a vir a luma, posso avaliar da dificuldade da empresa.
Súbito todas aquelas lucubrações literárias apagaram-se em meu espírito. A moléstia tocara-me com sua mão descarnada ; e deixou-me uma espécie de terror da solidão em que tanto se deleitava o meu espírito, e onde se embalavam as cismas e devaneios de fantasia. Foi quando desertei de Olinda, onde só tinha casa de estado, e aceitei a boa hospitalidade de meu velho amigo Dr. Camarim, então colega de ano e um dos seis da colônia paulistana, a que também pertenciam o conselheiro Jesuíno Marcondes e o Dr. Luís Álvares.
Dormiram as letras, e creio que também a ciência, um sono folgado. De pouco se carecia para fazer então em Olinda um exame sofrível e obter a aprovação plena. Em novembro regressei à Corte, com a certidão precisa para a matrícula do 4º ano,. Tinha cumprido o meu dever.
Nessas férias, enquanto se desenrolava a rebelião de que eu vira o assomo e cuja catástrofe chorei com os meus olhos, refugiei-me da tristeza que envolvia nossa casa, na literatura amena.
Com as minhas bem parcas sobras, tomei uma assinatura em um gabinete de leitura que então havia à Rua da Alfândega, e que possuía copiosa coleção das melhores novelas e romances até então saídos dos prelos franceses e belgas.
Nesse tempo, como ainda hoje, gostava de mar; mas naquela idade as predileções têm mais vigor e são paixões. Não somente a vista do oceano, suas majestosas perspectivas, a magnitude de sua criação, como também a vida marítima, essa temeridade do homem em luta com o abismo, me enchiam de entusiasmo e admiração.
Tinha em um ano atravessado o oceano quatro vezes, e uma delas no brigue-escuna Laura que me transportou do Ceará ao Recife com uma viagem de onze dias à vela. Essas impressões recentes alimentavam a minha fantasia.
Devorei os romances marítimos de Walter Scott e Cooper, um após outro; passei aos do Capitão Marryat e depois a quantos se tinham escrito desse gênero, pesquisa em que me ajudava o dono do gabinete, em francês, de nome Cremieux, se bem me recordo, o qual tinha na cabeça toda a sua livraria.
Li nesse discurso muita coisa mais: o que me faltava de Alexandre Dumas e Balzac, o que encontrei de Arlincourt, Frederico Soulié, Eugênio Sue e outros. Mas nada valia para mim as grandiosas marinhas de Scott e Cooper e os combates heróicos de Marryat.
Foi então, faz agora vinte e seis anos, que formei o primeiro esboço regular de um romance, e meti ombros à empresa com infatigável porfia. Enchi rimas de papel que tiveram a má sorte de servir de mecha para acender o cachimbo.
Eis o caso. Já formado e praticante no escritório do Dr. Caetano Alberto, passava eu o dia, ausente de nossa chácara, à Rua do Maruí, nº 7 A.
Meus queridos manuscritos, o mais precioso tesouro para mim, eu os trancara na cômoda; como, porém, tomassem o lugar da roupa, os tinham, sem que eu soubesse, arrumado na estante.
Daí, um desalmado hóspede, todas as noites quando queria pitar, arrancava uma folha, que torcia a modo de pavio e acendia na vela. Apenas escaparam ao incendiário alguns capítulos em dois canhenhos, cuja letra miúda a custo se distingue no borrão de que a tinta. Oxidando-se com o tempo,saturou o papel.
Tinha esse romance pôr título – Os Contrabandistas. Sua feitura havia de ser consoante à inexperiência de um moço de 18 anos, que nem possuía o gênio precoce de Victor Hugo, nem tinha outra educação literária, senão essa superficial e imperfeita, bebida em leituras a esmo. Minha ignorância dos estudos clássicos era tal, que eu só conhecia Virgílio e Horácio, como pontos difíceis do exame de latim, e de Homero apenas sabia o nome e a reputação.
Mas o traço d’Os Contrabandistas, como o gizei aos 18 anos, ainda hoje o tenho pôr um dos melhores e mais felizes de quantos me sugeriu a imaginação. Houvesse editor para as obras de longo fôlego, que já essa andaria a correr mundo, de preferência a muitas outras que dei à estampa nestes últimos anos.
A variedade dos gêneros que abrangia este romance, desde o idílio até a epopéia, era o que sobretudo me prendia e agradava. Trabalhava, não pela ordem dos capítulos, mas destacadamente esta ou aquela das partes em que se dividia a obra. Conforme a disposição do espírito e veia da imaginação, buscava entre todos o episódio que mais se moldava às idéias do momento. Tinha para não perder-me nesse Dédalo o fio da ação que não cessava de percorrer.
A estas circunstâncias atribuo ter o meu pensamento, que eu sempre conheci ávida de novidade, se demorado nesse esboço pôr tanto tempo; pois, quatro anos depois, já então formado, ainda era aquele o tema único de meus tentamens no romance; e se alguma outra idéia despontou, foi ela tão pálida e efêmera que não deixou vestígios.

Fonte: Wikisource




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