sábado, 28 de julho de 2012

José de Alencar - Como e Porque sou Romancista (parte 1) - Texto


Como e Porque Sou Romancista


Por José de Alencar.

Apresentação:

"Como e Porque Sou Romancista" é a autobiografia intelectual de José de Alencar, importante para o conhecimento de sua personalidade e dos alicerces de sua formação literária.
O texto sob a forma de carta, foi escrito em 1873 e publicado em 1893, pela Tipografia Leuzinger. Entre suas reedições, merece menção a da Academia Brasileira de Letras, de 1987, conservando a ortografia original, apresentada pelo Prof. Afrânio Coutinho, com a erudição e clareza marcantes de sua crítica.
A presente edição, com o objetivo de tornar mais acessível a leitura, atualizou a ortografia do texto alencariano. Manteve-se, entretanto, a pontuação original que, no dizer de M. Cavalcanti Proença, é "elemento característico da prosa alencariana, subordinando-se muito menos às regras vigentes na época do que ao ritmo fraseológico, tal qual o concebera e criara".
Afrânio Coutinho definiu esta carta como "autêntico roteiro de teoria literária, o qual, reunido a outros ensaios de sua lavra, pode bem constituir um corpo de doutrina estética literária, que o norteou em sua obra de criação propriamente dita, sobretudo no romance".
O autor enfatizou, em sua formação escolar, a importância dada à leitura, com a correção, nobreza, eloqüência e alma que o mestre Januário Mateus Ferreira sabia transmitir a seus alunos. Ainda menino, como ledor dos serões da família, teve oportunidade de contínuo e repetido contacto com um escasso repertório de romances, cujos esquemas iam ficando gravados em seu espírito.
Já cursando a Faculdade de direito, em São Paulo, com grande esforço, dominou o idioma francês para ler obras de Balzac, Dumas, Vigny, Chateaubriand e Victor Hugo.
"A escola francesa, que eu então estudava nesses mestres da moderna literatura, achava-me preparado para ela. O molde do romance, qual mo havia revelado pôr mera casualidade aquele arrojo de criança a tecer uma novela com os fios de uma ventura real, fui encontra-lo fundido com, a elegância e beleza que jamais lhe poderia dar."
À influência das leituras na sua formação de escritor, sobrepôs Alencar o valor da imaginação:
"Mas não tivera eu herdado de minha santa mãe a imaginação de que o mundo apenas vê flores, desbotadas embora, e de que eu sinto a chama incessante, que essa leitura de novelas mal teria feito de mim um mecânico literário, desses que escrevem presepes em vez de romances."
Discordou da crítica literária que atribuía à influência de Cooper o paisagismo de O Guarani.
"Disse alguém, e repete-se pôr aí, de outiva, que O Guarani é um romance ao gosto de Cooper. Se assim fosse, haveria coincidência, e nunca imitação; mas não é. Meus escritos se parecem tanto com os do ilustre romancista americano, como as várzeas do ceará com as margens do Delaware."
Segundo Heron de Alencar, "já houve quem colocasse em dúvida algumas das afirmativas que Alencar inseriu em sua autobiografia literária. Ao escrevê-la, já era um escritor de renome e no auge de sua carreira, quatro anos antes de falecer. É possível, desse modo, que tenha, alguma vez querido vestir de fantasia a realidade de sua formação literária, para que a posteridade – sua grande e permanente preocupação – não lhe regateasse admiração e fidelidade. Isso em nada altera o julgamento que deve resultar da leitura de sua obra, e esse é o único julgamento que prevalece."
Para Antônio Cândido, "O escrito mais importante para conhecimento da personalidade é a autobiografia literária "Como e Porque Sou Romancista"...., um dos mais belos documentos pessoais da nossa literatura. Não há ainda biografia à altura do assunto, podendo-se dizer o mesmo da interpretação crítica. Mas há um conjunto de estudos que, somados, permitem bom conhecimento."


Capítulo I

Meu amigo,
Na conversa que tivemos, há cinco dias, exprimiu V. o desejo de colher acerca de minha peregrinação literária, alguns pormenores dessa parte íntima de nossa existência, que geralmente fica à sombra, no regaço da família ou na reserva da amizade.
Sabendo de seus constantes esforços para enriquecer o ilustrado autor do Dicionário Bibliográfico, de copiosas notícias que ele dificilmente obteria a respeito de escritores brasileiros, sem a valiosa coadjuvação de tão erudito glossólogo, pensei que me não devia eximir de satisfazer seu desejo e trazer a minha pequena quota para a amortização desta dívida de nossa ainda infante literatura.
Como bem reflexionou V., há na existência dos escritores fatos comuns, do viver quotidiano, que todavia exercem uma influência notável em seu futuro e imprimem em suas obras o cunho individual.
Estes fatos jornaleiros, que à própria pessoa muitas vezes passam despercebidos sob a monotonia do presente, formam na biografia do escritor a urdidura da tela, que o mundo somente vê pela face do matiz e dos recamos.
Já me lembrei de escrever para meus filhos essa autobiografia literária, onde se acharia a história das criaturinhas enfezadas, de que, pôr mal de meus pecados, tenho povoado as estantes do Sr. Garnier.
Seria esse o livro de meus livros. Se alguma hora de pachorra, me dispusesse a refazer a cansada jornada dos quarenta e quatro anos, já completos os curiosos de anedotas literárias saberiam, além de muitas outras coisas mínimas, como a inspiração d’O Guarani, pôr mim escrito aos 27 anos, caiu na imaginação da criança de nove, ao atravessar as matas e sertões do norte, em jornada do Ceará à Bahia.
Enquanto não vem ao lume do papel, que para o da imprensa ainda é cedo, essa obra futura, quero em sua intenção fazer o rascunho de um capítulo.
Será daquele, onde se referem as circunstâncias, a que atribuo a predileção de meu espírito pela forma literária do romance.


Capítulo II

No ano de 1840, freqüentava eu o Colégio de Instrução Elementar, estabelecido à Rua do Lavradio, nº 17, e dirigido pelo Sr. Januário Matheus Ferreira, a cuja memória eu tributo a maior veneração.
Depois daquele que é para nós meninos a encarnação de Deus e o nosso humano Criador, foi esse o primeiro homem que me incutiu respeito, em quem acatei o símbolo da autoridade.
Quando me recolho da labutação diária com o espírito mais desprendido das preocupações do presente, e sucede-me ao passar pela Rua do Lavradio pôr os olhos na tabuleta do colégio, que ainda lá está na sacada do nº.17, mas com diversa designação; transporto-me insensivelmente àquele tempo, em que de fraque e boné, com os livros sobraçados, eu esperava ali na calçada fronteira o toque da sineta que anunciava a abertura das aulas.
Toda a minha vida colegial se desenha no espírito com tão vivas cores, que parecem frescas de ontem, e todavia mais de trinta anos já lhes pairaram sobre. Vejo o enxame dos meninos, alvoriçando na loja, que servia de saguão; assisto aos manejos da cabala para a próxima eleição do monitor geral; ouço o tropel do bando que sobe as escadas, e se dispersa no vasto salão, onde cada um busca o seu banco numerado.
Mas o que sobretudo assoma nessa tela é o vulto grave de Januário Mateus Ferreira, como eu o via passeando diante da classe, com um livro na mão e a cabeça reclinada pelo hábito da reflexão.
Usava ele de sapatos rinchadores; nenhum dos alunos do seu colégio ouvia de longe aquele som particular, na volta de um corredor, que não sentisse um involuntário sobressalto.
Januário era talvez ríspido e severo em demasia; orem nenhum professor o excedeu no zelo e entusiasmo com que desempenhava o seu árduo ministério. Identificava-se com o discípulo; transmitia-lhe suas emoções e tinha o dom de criar no coração infantil os mais nobres estímulos, educando o espírito com a emulação escolástica para os grandes certames da inteligência.
Dividia-se o diretor pôr todas as classes, embora tivesse cada uma seu professor especial; desse modo andava sempre ao corrente do aproveitamento de seus alunos, e trazia os mestres como os discípulos em constante inspeção. Quando, nesse revezamento de lições, que ele de propósito salteava, acontecia achar atrasada alguma classe, demorava-se com ela dias e semanas, até que obtinha adianta-la e só então a restituía ao respectivo professor.
Meado o ano, porém, o melhor dos cuidados do diretor voltava-se para as últimas classes, que ele se esmerava em preparar para os exames.
Eram estes dias de gala e de honra para o colégio, visitado pôr quanto havia na Corte de ilustre em política e letras.
Pertencia eu à sexta classe, e havia conquistado a frente da mesma, não pôr superioridade intelectual, sim pôr mais assídua aplicação e maior desejo de aprender.
Januário exultava a cada uma de minhas vitórias, como se fora ele próprio que estivesse no banco dos alunos, a disputar-lhes o lugar, em vez de achar-se como professor dirigindo os seus discípulos.
Rara vez sentava-se o diretor; o mais do tempo levava a andar de um a outro lado da sala em passo moderado. Parecia inteiramente distraído da classe, para a qual nem volvia os olhos; e todavia nada lhe escapava. O aparente descuido punha em prova a atenção incessante que ele exigia dos alunos, e da qual sobretudo confiava a educação da inteligência.
Uma tarde ao findar a aula, houve pelo meio da classe um erro. – Adiante, disse Januário, sem altear a voz, nem tirar os olhos do livro. Não recebendo resposta ao cabo de meio minuto, repetiu a palavra, e assim de seguida mais seis vezes.
Calculando pelo número dos alunos, estava na mente de que só à sétima vez, depois de chegar ao fim da classe é que me tocava responder como o primeiro na ordem da colocação.
Mas um menino dos últimos lugares tinha saído poucos momentos antes com licença, e escapava-me esta circunstância. Assim, quando sorrindo eu esperava a palavra do professor para dar o quinau, e ao ouvir o sétimo adiante, perfilei-me no impulso de responder; um olhar de Januário gelou-me a voz nos lábios.
Compreendi; tanto mais quanto o menino ausente voltava a tomar seu lugar. Não me animei a reclamar; porém creio que em minha fisionomia se estampou, com a sinceridade e a energia da infância, o confrangimento de minha alma.
Meu imediato e êmulo, que me foi depois amigo e colega de ano em São Paulo, era o Aguiarzinho (Dr. Antônio Nunes de Aguiar), filho do distinto general do mesmo nome, bela inteligência e nobre coração ceifados em flor, quando o mundo lhe abria de par em par as suas portas de ouro e pórfiro.
Ansioso aguardava ele a ocasião de se desforrar da partida que lhe eu havia ganho, depois de uma luta porfiada – Todavia não lhe acudiu a resposta de pronto; e passaria a sua vez, se o diretor não lhe deixasse tempo bastante para maior esforço do que fora dado aos outros e sobretudo a mim – Afinal ocorreu-lhe a resposta, e eu com o coração transido, cedi ao meu vencedor o lugar da honra que tinha conquistado de grau em grau, e conseguia sustentar havia mais de dois meses.
Nos trinta anos vividos desde então, muita vez fui esbulhado do fruto de meu trabalho pela mediocridade agaloada; nunca senti senão o desprezo que merecem tais pirraças da fortuna, despeitada contra aqueles que não a incensam.
Naquele momento, porém, vendo perdido o prêmio de um estudo assíduo, e mais pôr surpresa, do que eu traguei silenciosamente, para não abater-me ante a adversidade.
Nossa classe trabalhava em uma varanda ao rés do chão, cercada pelo arvoredo do quintal.
Quando, pouco antes da Ave-Maria, a sineta dava sinal da hora de encerrar as aulas, Januário fechava o livro; e com o tom breve do comando ordenava uma espécie de manobra que os alunos executavam com exatidão militar.
Pôr causa da distância da varanda, era quando todo o colégio já estava reunido no grande salão e os meninos em seus assentos numerados, que entrava em passo de marcha a sexta classe, a cuja frente vinha eu, o mais pirralho e enfezadinho da turma, em que o geral se avantajava na estatura, fazendo eu assim as vezes de um ponto.
A constância com que me conservava à frente da classe no meio das alterações que em outras se davam todos os dias, causava sensação no povo colegial; faziam-se apostas de lápis e canetas; e todos os olhos se voltavam para ver se o caturrinha do Alencar 2º (era o meu apelido colegial) tinha afinal descido de monitor de classe.
O general derrotado a quem a sua ventura reservava a humilhação de assistir à festa da vitória, jungido ao carro triunfal de seu êmulo, não sofria talvez a dor que eu então curti, só com a idéia de entrar no salão, rebaixado de meu título de monitor, e rechaçado para o segundo lugar.
Se ao menos se tivesse dado o fato no começo da lição, restava-me a esperança de com algum esforço recuperar o meu posto; mas pôr cúmulo da infelicidade sobreviera o meu desastre justamente nos últimos momentos, quando a hora estava a findar.
Foi no meio dessas reflexões que tocou a sineta, e as suas badaladas ressoaram em minha alma como o dobre de uma campa.
Mas Januário que era acerca de disciplina colegial de uma pontualidade militar, não deu pelo aviso e amiudou as perguntas, percorrendo apressadamente a classe. Poucos minutos depois eu recobrava meu lugar, e erguia-me trêmulo para tomar a cabeça do banco.
O júbilo, que expandiu a fisionomia sempre carregada do diretor, eu próprio não o tive maior, com o abalo que sofri. Ele não se pôde conter e abraçou-me diante da classe.
Naturalmente a questão proposta e cuja solução deu-me a vitória, era difícil; e pôr isso atribuía-me ele o mérito, que não provinha talvez senão da sorte, para não dizer do acaso.
Momentos depois entrava eu pelo salão à frente da classe, onde me conservei até o exame.

Fonte: Wikisource




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