sábado, 30 de abril de 2011

Luto - Ernesto Sabato morre aos 99 anos


Morre aos 99 anos o escritor argentino Ernesto Sabato
Romancista presidiu comissão que investigou desaparecidos políticos.
Vencedor do Prêmio Cervantes, morreu após bronquite, disse a mulher.
O escritor Ernesto Sabato, vencedor do Prêmio Cervantes de Literatura e um dos maiores autores argentinos do século XX, morreu aos 99 anos em sua residência de Santos Lugares, na província de Buenos Aires. A informação foi divulgada neste sábado (30) pela mulher de Sabato, Elvira González Fraga.
"Há 15 dias teve uma bronquite e na idade dele isto é terrível", declarou Elvira à rádio Mitre, ao confirmar o falecimento do escritor.

 Escritor argentino Ernesto Sabato morreu em sua residência em província de Buenos Aires (Foto: Victor Rojas/AFP)
Sábato seria homenageado no domingo (1) na Feira do Livro pelo Instituto Cultural da província de Buenos Aires.
Segundo o jornal argentino "Clarín", Elvira disse que o escritor estava sofrendo havia algum tempo, "mas tinha momentos bons, principalmente quando escutava música". Romancista, ensaísta e artista plástico, Sabato é autor de obras como "O Túnel" (1948) e "Sobre Heróis e Tumbas" (1961).
A pedido do então presidente argentino Raúl Alfonsín, dirigiu entre 1983 e 1984 a Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep), cuja investigação, publicada no relatório "Nunca Mais", considerado o estopim para o julgamento de militares por crimes cometidos durante o regime militar argentino (1976-1983). O jornal "Clarín" o definiu como "um dos rostos emblemáticos do regresso democrático" no país e um dos "ícones mais populares" da literatura argentina.
Parentes informaram que o velório será realizado a partir das 17h deste sábado (30) no Clube dos Defensores de Santos Lugares, local onde o escritor passava as manhãs em partidas de dominó com amigos.

O escritor, que nasceu na cidade de Rojas em 24 de junho de 1911, obteve o título de doutor em Física em 1938 pela Universidade Nacional de La Plata, mas deixou a carreira científica nos anos 40 para se voltar à literatura com a publicação da compilação de ensaios "Alguém e o Universo".
O reconhecimento internacional veio em 1961 com "Sobre Heróis e Tumbas", e a consagração definitiva ocorreu em 1974 com "Abadon, o Exterminador", que completam a trilogia iniciada com "O Túnel" (1948), adaptada ao cinema em 2006. Após ser agraciado com o Prêmio Cervantes em 1984, foi proposto como candidato ao Nobel de Literatura de 2007.
A última obra publicada por Sábato, que também recebeu os prêmios Gabriela Mistral (1983) e Menéndez Pelayo (1997), foi "Espanha nos Diários da Minha Velhice", fruto de suas viagens ao país em 2002, enquanto a Argentina submergia na mais feroz crise econômica de sua história. Seus últimos livros, conforme o Clarín, incluem memórias e crônicas que se constituem como uma despedida da literatura. Ele completaria 100 anos em 2011 e vivia com sua colaboradora no trabalho, Elvira, que dirige uma fundação que leva o nome do escritor.
Segundo contou seu filho Mario Sábato, autor de um documentário sobre a vida de seu pai, o escritor já não saía de casa, estava sob cuidado de enfermeiras e quase não falava, embora ocasionalmente rompesse seu silêncio para ter algum breve diálogo com a família.
O escritor escreveu três romances que estão entre as obras fundamentais da literatura da Argentina, além de vários ensaios.
Os três romances são "O Túnel" (1948), no qual o autor submerge na alma humana com uma história de amor e morte; "Sobre heróis e tumbas" (1961), no qual mostra os últimos personagens de uma família da oligarquia e as obsessões do homem contemporâneo; e "Abaddón o exterminador" (1974), mais autobiográfico.
A obra completa de Sábato, um dos principais expoentes da intelectualidade argentina do século XX, inclui ainda ensaios, sobre temas filosóficos, científicos, culturais e políticos, além de sua constante preocupação com os direitos humanos.
O primeiro ensaio foi "Nós e o universo" (1945), seguido por "Homens e Engrenagens" (1951), "Heterodoxia" (1953) e "O caso Sabato. Torturas e liberdade de imprensa. Carta aberta ao general Aramburu" (1956).
Também escreveu "O outro rosto do peronismo (1956), "O escritor e seus fantasmas" (1963), "Tango, discussão e chave" (1963), "Romance da morte de Juan Lavalle" (1966), "Significado de Pedro Henríquez Ureña" (1967) e "Aproximação à literatura de nosso tempo: Robbe-Grillet, Borges, Sartre" (1968).
Sua obra se completa com os ensaios "A cultura na encruzilhada nacional" (1973), "Diálogos com Jorge Luis Borges (1976), "Defesas e Recusas" (1979), "Os livros e sua missão na liberação e integração da América Latina" (1979), "Entre a letra e o sangue" (1988), "Antes do Fim" (1998), "A Resistência" (2000) e "Espanha nos diários de minha velhice" (2004).
Além disso, convocado pelo então presidente Raúl Alfonsín (1983-89), o governante da transição democrática, encabeçou a comissão de notáveis que compilou centenas de depoimentos de familiares e vítimas da ditadura (1976/83) que figuraram no célebre "Nunca Mais. Relatório da Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas" (Conadep), editado em 1985.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...