domingo, 16 de maio de 2010

Livro - Til - Capítulos XXVIII, XXIX, XXX e XXXI (Final)

XXVIII
O CONGO

A cidade da Constituição, outrora vila da Piracicaba, assenta nas rampas de uma colina que se enleva à margem do rio.
No centro, e sobre a esplanada, fica a praça da matriz, cercada por bons edifícios, entre os quais a veneração do povo aponta, como relíquia histórica, a vasta casa que foi de Costa Carvalho, o ilustre marquês de Monte-Alegre.
Fronteira à matriz, modesta igreja de uma torre, está a casa da câmara, construída ao uso antigo, com seu campanário no meio e as enxovias ao rés do chão, inteiramente isolada dos outros edifícios.
Era domingo; e havia na vila reboliço de festa.
Pelas ruas, de ordinário soturnas e ermas, passavam ranchos de gente a pé e grupos de cavaleiros que acudiam à função. Às vezes era algum carro de bois, coberto com esteiras e atopetado de moças, crias e mucamas, que atroava os ares com o chio estridente.
Pouco mais de nove horas havia de ser. Uma canoa acabava de abicar à ribeira junto à ponte, e dela saltavam nhá Tudinha, Berta e Miguel, que também vinham atraídos pela festa.
O rancho subiu ladeira que vai ter ao largo da matriz. Miguel, triste e abatido, investigava com um olhar de desânimo as janelas das casas. Berta a furto observava-o com uma expressão de terno ressentimento.
No trato dos dois moços entre si havia agora um certo constrangimento. Miguel acusado severamente pela própria consciência de ter mentido a seu primeiro amor e talvez que ligado ainda por esse elo que de todo não se rompera, fugia de conversar com Berta.
Na melancolia da menina e nos quebros de seus olhos negros, parecia-lhe sentir um ressumbro de meiga exprobração, que infiltrava-se dentro d’alma e somente exalava nalgum momento de cisma ou descuido.
Por isso, Berta evitava também a companhia do moço, receosa de trair a mágoa de seu coração. Bem desejava ela consolar Miguel, a quem D. Ermelinda cortara em flor a esperança de sua vida; mas temia que lhe escapasse nessa efusão o segredo de sua melancolia.
Nhá Tudinha, sempre contente e prazenteira, não desmentia a sua habitual agilidade. Caminhava adiante, garrulando sem cessar e voltando-se a cada instante para chamar a atenção dos dois moços a propósito de suas observações.
Atravessando o largo da matriz, os olhos de Berta, volvendo a esmo, caíram sobre a fisionomia de Jão Fera. Sobressaltou-se a menina, e seu primeiro movimento foi acenar ligeiramente com a mão, chamando o capanga.
Depois do castigo que em um ímpeto de indignação lhe infligira, nunca mais Berta vira o Bugre, que desaparecera de Santa Bárbara. Passados alguns dias e desvanecida a impressão da cena medonha a que assistira, sua alma embebeu-se dos eflúvios da piedade; e ela tinha dó quando lembrava-se da humildade com que Jão Fera sofrera uma punição tão cruel para seus brios.
Vendo ao capanga depois de tantos dias, cedeu, no primeiro assomo, a um impulso de bondade chamou-o. Porém logo apercebeu-se de seu equívoco. O rosto de Jão Fera lhe aparecera, mas por entre os varões de ferro da enxovia, em que a princípio não reparou.
Acabrunhado pelo desprezo da menina, sentindo que se tornara para ela objeto de asco e horror, o facínora veio a Piracicaba e entregou-se à prisão. Desde o dia da morte do Ribeiro, estava ele encarcerado na cadeia da vila.
Compenetrando-se da realidade e reconhecendo a impossibilidade em que estava Jão Fera de acudir a seu chamado, e o perigo que o ameaçava, curvou a menina a fronte com um gesto de mágoa e resignação.
Foi rápido este incidente e ocorreu durante o trajeto da família pela face lateral da cadeia até a próxima rua cuja esquina dobrou.
Nas horas mais quentes do dia amainou o rumor da festa para recrudescer ao cair da tarde, quando todas as janelas se atufaram de moças e a massa do povo se apinhou pelos cantos das ruas.
Ao repique de sinos e estrondo dos rojões, desfilava pelo largo da matriz a luzida cavalgada do Congo, precedida por um terno de rabecas e flautas, que compunham a banda de música.
Adiante vinham o rei e a rainha do Congo, montando soberbos cavalos ricamente ajaezados e trajando custosas roupas de veludos e sedas. Seguiam-se os cavaleiros e damas da corte, que não ficavam somenos aos soberanos do imaginário reino africano.
Fazia de rainha Florência, que nesse dia triunfava sobre a rival, a mucama Rosa. O rei era o pajem de um ricaço da vizinhança; e todos os outros personagens, cativos das fazendas próximas.
O luxo que ostentavam fora pago, parte com as suas economias, e parte com dádivas dos senhores, cuja vaidade se personificava nos próprios escravos. Cada um desses ricos fazendeiros se desvanecia da admiração que sentia o povo pelas roupas vistosas que traziam galhardamente seus pajens, e pelos soberbos cavalos fogosos que eles meneavam com certo donaire.
No meio das figuras, vestidas à antiga e de fantasia, saltavam outras, cobertas ou antes eriçadas da cabeça aos pés com os molhos de um capim duro e híspido. Agitado pelo contínuo movimento, produzia essa croça verde um vivo sussurro, ao qual respondiam os chocalhos de latas e as cabaças, que tangiam os pretos assim mascarados.
Esse resquício dos folgares e danças dos índios caiapós dava à festa africana uns ressaibos americanos, que faziam inteiro contraste com as galas e louçanias emprestadas pela moda européia, ou pelos usos do Oriente.
De ordinário costumam as pretas fazer a sua folgança do Congo nas proximidades do Natal; mas nesse ano não a tinha podido aprontar para aquele tempo.
Quando passava a cavalgada pela casa onde estava a família de Luís Galvão, Rosa mordeu-se de inveja ao avistar Florência, repimpada no melhor cavalo de D. Ermelinda, com a trunfa riçada, um diadema na testa, e o régio manto escarlate roçagante pela anca do lindo ginete.
Nesse instante lamentou ser mucama, condição que a sujeitava a certo recato, e a privava, portanto, de tomar parte no folguedo. Como preta da roça teria outra liberdade; e ninguém lhe disputaria por seguro o título de rainha.
Linda, que via distraidamente passar a cavalgada, de repente estremeceu. Descobrira defronte, na calçada, Miguel ao lado de Berta; e o ciúme lhe mordeu o coração. A amiga, apesar do afastamento a que a obrigava a severidade de D. Ermelinda, lhe fizera um gesto de adeus; mas ela voltou o rosto para não corresponder àquela mostra de amizade.
Compreendeu Berta o que sentia Linda; e insensivelmente arredou-se do moço.




XXIX
CONFISSÃO

Afonso, apenas avistou Berta, afastou-se da janela onde estava com a família, esgueirou-se por entre a multidão.
- Berta!... psiu!... disse ele chegando-se à menina.
- Olha D. Ermelinda!
- Ela não me enxerga, retorquiu o rapaz escondendo-se atrás de uma pinha de gente.
- Não tem medo?... E se ela ralhar com você? acudiu Berta atirando-lhe um remoque.
- Então sou alguma criança! disse o rapaz ferido nos brios, e realçando a estatura para afirmar sua hombridade.
- Mas não é capaz de fazer uma coisa contra a vontade de sua mãe! redargüiu Berta com o mesmo chasco, para excitar o amor próprio do camarada.
- Pois eu lhe mostro! respondeu Afonso com ar decidido, e adiantou-se para afrontar as vistas de D. Ermelinda.
Sorriu Inhá, que voltando-se para o moço, ocupou-se em travessear com ele, como outrora costumava.
Não tinha outro modo senão este de apagar no espírito de Linda o ciúme que a traspassara.
- Como está Linda? perguntou a menina depois de algum tempo consumindo em gracejos. Ainda se lembra de Miguel?
- Não sei!... respondeu Afonso constrangido.
- Teve ordem!... acudiu Inhá assistindo no remoque anterior.
- Não vê como anda triste!
- Então ela sempre quer bem a Miguel?
- Sempre!
- Preciso falar com ela! Como há de ser?
Nesse instante um caiapó de alto porte e compleição robusta, separado do bando que já ia longe de envolta com a cavalgata, atravessando a rua, parou defronte dos dois moços e afincou-se a observa-los.
De repente saltou em frente de Afonso e ouviram-se estas palavras, que rompiam da croça espessa, como da brenha escapa o rugido da fera:
- Teu pai matou a mãe dela; tu queres matar a filha; é duas vezes!
Desde alguns momentos o olhar de Luís Galvão descobrira da janela fronteira o filho a falar com Berta, e não se arredara mais do grupo. Aquele quadro brilhante da juventude, borrifado com os sorrisos de alegria e perfumado com as fagueiras primícias do coração, despertavam nele reminiscências tão suaves, dormidas no fundo da lama!
Lembrava-se das festas de outrora, quando era moço como o filho, e ali, na mesma vila de Piracicaba, tantas vezes escapulia da família para seguir o rancho de moças onde ia Besita, e à surrelfa apertar-lhe a mão, ou trocar uma palavra balbuciada a medo.
Para mais avivar as cores a essa tela da mocidade, que os anos tinham desbotado, ressurgiam aí diante de seus olhos as próprias figuras do gracioso painel; ele retratado na pessoa de Afonso; ela, revivendo na gentileza de Berta.
A D. Ermelinda não escapara essa distração; acompanhando a direção do olhar e reparando na expressão de ternura e enlevo que se derramava na fisionomia do marido, sobressaltou-a nova e mais cruel suspeita. À infidelidade do passado acrescentaria Luís Galvão a perfídia no presente?
Não teve tempo a desolada senhora de sondar esse novo abismo de dor que se rasgava em sua alma, já tão atribulada.
Mal lançara a Afonso o dito misterioso que lhe prorrompeu dos lábios, o caiapó travando com irresistível impulso do braço do moço, arrancou-o do lugar onde estava e trouxe-o até junto da janela de D. Ermelinda.
Aí, afrontando-se com Luís Galvão, apontou para o filho, e proferiu estas palavras, obscuras como as outras:
- Teu sangue mau quer matar teu sangue bom! Toma cautela!...
Com pasmosa rapidez passara essa cena estranha. Ainda não se desvanecera o espanto por ela causado nos assistentes, que já o caiapó havia desaparecido entre a multidão, sem que fosse possível indicar por onde se fora.
Ao mesmo tempo soava grande rumor na praça da matriz; e magotes de povo a correr pelas ruas deixavam entre o vozeio soturno da turba estas vozes repassadas de pânico terror, que retalhavam o borborinho como correntes vivas a sulcarem um brejo:
- Arrombada a cadeia!...
- Assalto na vila!
No meio do susto produzido por este boato, o povo se dispersou, pondo termo à festa.
Entretanto, o subdelegado em companhia de alguns cidadãos mais animosos dirigia-se à cadeia para verificar o fato, divulgado pela voz pública.
Havia exageração na notícia: dera-se apenas a fuga de um preso, que arrancara por um esforço desesperado um varão da enxovia; e aproveitando-se da distração da sentinela no momento de passar a cavalgata, saltara na rua, arrebatara a um caiapó a croça de capim, e perdera-se na turbamulta.
Meia hora depois, Luís Galvão com a família voltava a Santa Bárbara.
D. Ermelinda que insistira em ver a festa, na vaga esperança de quebrar o enleio no qual viviam ela e o marido desde a noite de São João, se obstinara em voltar para as Palmas naquela mesma tarde.
A cena da janela e o dito misterioso do caiapó tinham produzido nela tão profundo abalo, que já não podia conter as sublevações da sua dignidade de esposa, indignamente ultrajada por quem mais a devia zelar.
Era urgente e indeclinável a explicação, que retardara por melindre de sua alma e pela natural esquivança que sente-se em dissipar por todo o sempre a doce ilusão da felicidade.
Apressando o cavalo, D. Ermelinda transpunha a distância que ainda a separava da casa. Afonso galopava ao lado de sua mãe, enquanto Luís Galvão e Linda vinham após largo intervalo, ao passo moderado dos animais.
Terminava o crepúsculo; mas a lua assomando no horizonte coava o seu lívido clarão através da morte-côr, que o dia expirante ia deixando pelos ermos.
Emudecera o hino da tarde, repassado de ternas melodias, e a natureza, a máxima e sublime orquestra, preludiava a elegia da noite. O primeiro grilo soltava o estrídulo; e o seio da floresta agitada pela viração da noite, arfava ao ofego de um gemido plangente.
À beira da estrada via-se um vulto negro, que de longe afigurava-se urna de algum bugre, esquecida à flor da terra. Ao tropel dos animais o vulto ergueu a cabeça. Era Zana. Soltando um grito de espanto, arrojou-se à frente do cavalo de Afonso, e estendeu as mãos súplices:
- Pelo amor de Deus, nhô Luís!... Não faça mal a Nhazinha!... Da outra vez ela chorou tanto! E depois veio o marido e matou Nhazinha!... Por vida de seu pai, nhô Luís!... Eu lhe peço de joelhos!
A mísera negra, na sua alucinação, remontava o curso da existência, e revivia o tempo já passado, quando Luís fora mancebo que representava agora seu filho Afonso.
Ao aproximar-se da cena, ainda ouviu o fazendeiro as últimas palavras de Zana, e estremeceu; mas revoltando-se afinal contra essa fatal obsessão que depois de quinze dias o arrastava de humilhação em humilhação, decidiu romper de uma vez o segredo que o acabrunhava.
Ao olhar cheio de ânsia da mulher, respondeu indicando os filhos com um olhar expressivo.
- Vão seguindo! disse para Afonso e Linda.
Fez um gesto à mulher, e tomou para a tapera que ficava a algumas braças da estrada. D. Ermelinda o seguiu transida de emoção até a frente da casa em ruínas.
- Foi aqui!... balbuciou a voz trêmula de Luís.




XXX
A ENJEITADA

Dois dias decorreram depois da festa do Congo.
Jão Fera derreado a um tronco de árvore, no mato que cerca a tapera, espreita a chegada de Berta. A menina o tinha chamado, quando o avistara na enxovia; e ele que se fora entregar para fugir ao seu desprezo acudiu prontamente. Desde a véspera a esperava naquele sítio.
Não deixava, porém, o capanga de nutrir receios a respeito do modo por que Berta o acolheria. Talvez aquele gesto lhe escapasse sem ela o sentir; e agora tornando a vê-lo crescesse o horror que lhe inspirava depois das mortes por ele perpetradas. Nesse caso voltaria para a prisão.
Acabava de fazer ainda uma vez esta reflexão quando ouviu crepitarem as folhas sob o passo ligeiro de Berta, que atravessou o terreiro com alvoroto, e correu para Zana acocorada junto à parede.
A louca recebeu a menina com viva efusão de contentamento, que se manifestava em gritos inarticulados e gaifonas de toda a sorte. Sôfrega, não esperou Berta que passasse aquela expansão; travando das mãos da preta e cravando nela os olhos como se pudesse perscrutar-lhe a consciência, exclamou com ansiedade:
- Minha mãe, Zana!... Você não se lembra dela?... De minha mãe!...
Tartamudeou a louca sons incompreensíveis, e sua fisionomia embotou-se, tomando a expressão pasma e fixa, que lhe imprimia uma imobilidade quase marmórea.
Acaso já conhecia Berta o segredo de seu nascimento? Ou aquilo era apenas uma suspeita, inspirada pelas palavras misteriosas do caiapó?
Eis o que havia ocorrido:
Aí em frente da tapera, ao morno clarão da lua, começara Luís Galvão na noite da festa a fazer a sua mulher a confissão plena da aventura de que fora teatro aquele sítio, e ele o triste herói.
Não ocultou a mínima circunstância; referiu tudo: a sua repugnância de casar com Besita por ela ser pobre; a intenção pérfida com que a requestara; a cilada de que serviu-se para surpreender a fidelidade de esposa; e ultimamente o abandono e esquecimento em que a deixou.
Que esforço não foi preciso para sobrepujar o vexame dessa revelação? Queimava-lhe as faces o rubor; a voz estrangulava-se; mas consumou esse grande ato de contrição que devia remir sua alma.
Quando chegaram à casa, D. Ermelinda sabia tudo. As lágrimas e soluços que tragou em silêncio; as ânsias e desesperos que recalcou no peito, ninguém os viu. Mas a manga de seu roupão que ela mordia para não deixar escapar o grito, ficou despedaçada.
Apeando-se, correu a seu quarto e trancou-se. Luís Galvão compreendeu que ela devia sofrer, e respeitou aquela dor santa, não a importunando com banais consolações. Acendeu um cigarro; e velou o resto da noite fumando.
Na manhã seguinte cada um dos dois consortes, pálido, como espectro que abandona o túmulo, viu refletir-se no outro a desolação que em si produzira aquela noite fatal.
D. Ermelinda chegou-se com um triste, porém meigo sorriso, e apertando a mão do marido, murmurou-lhe ao ouvido:
- Meu amigo, é preciso reconhecer a sua... a nossa filha!...
Arrasaram-se de lágrimas os olhos de Luís, que apertou estremecidamente a mulher ao coração, erguendo os olhos ao céu.
- Que santa me deste tu, meu Deus, a mim que não mereço!
Logo depois do almoço, D. Ermelinda foi à casa de nhá Tudinha e pediu-lhe que preparasse Berta para a revelação que o pai ia fazer-lhe de seu nascimento. Com o tato de mulher e mãe quis a boa senhora poupar à enjeitada a dor que havia de curtir se viesse a conhecer a desgraça de Besita.
Imaginou pois um meio delicado de revelar a lúgubre história. Besita casara com Luís às ocultas, por causa da oposição do velho Galvão. Morrendo a moça, e casando Luís pela segunda vez, acanhou-se de confessar a D. Ermelinda que era viúvo e tinha uma filha. Por esse motivo fora Berta criada como uma estranha em casa alheia.
Eis o que ideara D. Ermelinda, e o que nhá Tudinha, contente pela ventura da menina, mas desconsolada de perder aquela filha, repetiu nessa mesma tarde. As perguntas e instâncias que sucederam à surpresa de Berta, apenas arrancaram da viúva a declaração de que Besita morava outrora na tapera com Zana, sua escrava.
Uma voz íntima dizia a Berta que muita coisa lhe ocultavam da história de sua mãe; e era este segredo que ela buscava escrutar no cérebro enfermo da negra, onde sabia, que estava sepultado.
Desde muito tempo tinha ela o pressentimento, de que o terrível drama representado pela estranha mímica da louca, se prendia à existência dela, Berta, por um fio misterioso. Agora tinha a certeza.
Cheia de ânsia, em face da negra esfinge que emudecia, lançou a menina em trono um olhar de desespero, e avistou Jão Fera a alguns passos.
Teve um assomo de alegria e correu para o capanga; mas recuou horrorizada, e balbuciou apontando para as mãos suplicantes que lhe estendia o Bugre:
- Não me toques. Tuas mãos têm sangue!...
Caiu de joelhos o facínora, e assim, arrastando-se até os pés de Berta, murmurava:
- Por piedade, Nhazinha!... Nunca mais!...
Ergueu a menina a fronte resplandecente, como se a cingisse a auréola da caridade.
- Tu juras?... Tu juras nunca mais fazer mal a ninguém?
- Juro.
Tirou Berta do seio a cruz presa com o bentinho ao cordão de ouro; e o Bugre a beijou repetindo o juramento. Depois sacou as armas da cinta, e arremessou-as longe de si.
Nesse instante Zana que descobrira Jão atirou-se para beijar-lhe as mãos com fervor; e apanhando a faca, procurou prende-la entre os dedos do Bugre.
- Não careço mais, Zana!... Ela está vingada. Posso morrer!
Esta cena despertou no espírito de Berta uma recordação. Acudiram-lhe as palavras do caiapó na festa da vila:
- Jão, tu conheceste minha mãe!
- Quem lhe disse, Nhazinha?
- Conta-me como ela morreu!
- Não...
- Conta! Eu quero!
Referiu o Bugre com a voz trêmula e o seio opresso a história de Besita desde que a conhecera até o momento em que a tinha perdido para sempre. Não disse ele se tinha amado a moça; mas na palavra balbuciante Berta lhe sentia palpitar o coração aos ímpetos da paixão imensa.
Quando terminou essa dolorosa narração, Berta que a ouvira com um respeitoso silêncio, apenas cortado pelo contínuo soluço que fazia arfar-lhe o seio, alçou ao céu os olhos cheios de lágrimas.
- E ele é meu pai!...
Depois erguendo-se de um ímpeto, e apertando as mãos grosseiras do Bugre:
- Não! Não!... exclamou ela. Meu pai és tu, que me recebeste dos braços de minha pobre mãe, com seu último suspiro. És tu, que a adoravas, como a uma santa; e quando ela deixou este mundo, não tiveste no coração outro sentimento mais, senão ódio a todos, menos a mim, que te lembrava ela. Oh! Eu compreendo agora, Jão, o que te fez mau!... Mas fiquei eu neste mundo, em lugar dela, para fazer-te bom!...
Falando assim, com sublime exaltação Berta abraçou o Bugre, que sentiu-se tomado de uma vertigem, e tropeçando agarrou-se à parede para não cair.




XXXI
ALMA SÓROR

Descamba o sol.
Berta sentada à sombra do oitão da casa de nhá Tudinha, deitou sobre os joelhos a camisa que estava cosendo para Jão, e embebeu no azul diáfano do horizonte um olhar profundo, coalhado de lágrimas.
A seus pés, Zana agachada na esteira, contempla extática o rosto da menina; e de vez em quando o prazer íntimo que ela sente, derrama-se em sua fisionomia, e banha-lhe o rosto de um riso baço.
Ao lado, o Brás contempla Til com surda inquietação, que se trai a espaço pela contração dos músculos faciais e pela extrema mobilidade da pupila espantada.
Algumas braças distante, Jão curvado sobre a enxada, carpa a terra preparando as leiras para a plantação do feijoal. De vez em quando pára um instante, enxuga com a manga da camisa o suor abundante que lhe escorria da testa, e sopra os calos de que o trabalho já lhe encruou as mãos. Nessa ocasião crava com desassossego um olhar em Berta.
Miguel assomou à porta da casa, e desprendendo-se do estreito abraço em que o cingia a mãe lacrimosa, dirige-se para o lugar onde estava a menina.
Importantes acontecimentos tinham passado na última semana decorrida depois da confissão que Luís Galvão fizera à sua mulher.
Berta recusou obstinadamente reconhecer Luís Galvão como seu pai. A todos os rogos e instâncias respondia com um meigo sorriso:
- Não acredito, estão me enganando; meu pai é Jão. Foi ele quem teve dó de minha mãe, e quem me criou!... Não tenho outro senão ele!
Assim em compensação de tantas míseras crianças abandonadas por aqueles que lhes deram o ser, houve então um pai enjeitado.
Muitas vezes Luís Galvão insistia em reconhecer a filha e leva-la para a sua casa, onde acharia em D. Ermelinda uma terna e boa mãe:
- Mãe, dizia Berta, não quero outra senão aquela que me está esperando no céu. Mas há uma coisa que me faria muito feliz. Esse lugar que não pode ser meu, eu dou a Miguel. Ele quer tanto bem à Linda!...
Não teve Luís Galvão coragem para resistir ao pedido de Berta. Parecia-lhe que assim cumpria um voto de Besita. D. Ermelinda condescendeu prontamente com o desejo do marido, ansiosa por vê-lo restituído à sua tranqüilidade e arrependida da confissão que provocara.
Combinou-se que Miguel iria estudar a São Paulo; e dois anos depois se efetuaria o casamento naquela cidade para onde a família devia partir logo.
E quem sabe se voltaria mais às Palmas?
Chegara a véspera da partida. Miguel fora despedir-se da mãe para seguir lá pela madrugada com a família caminho da capital. Luís Galvão lhe pedira ainda uma vez empregasse todos os esforços para resolver Berta a acompanha-los.
O moço ao chegar anunciara sua intenção de levar Berta, e daí o desassossego que transparecia no semblante do Bugre, e no olhar do idiota, confiado à guarda de nhá Tudinha durante ausência do tio.
Dirigiu-se Miguel a Berta e apertou-lhe ambas as mãos.
- Então, Inhá?...
E seu olhar exprimia uma súplice interrogação. A menina moveu lentamente a gentil cabeça.
- Fica?
- É preciso, Miguel. Quem há de consolar sua mãe?
- Coitada! murmurou o moço.
E afastou-se da casa para não ouvir os soluços de nhá Tudinha. Berta o seguiu.
Por algum tempo caminharam os dois em silêncio, par a par escutando as emoções que falavam dentro d’alma opressa. Uma lágrima tremia-lhe nas pálpebras prestes a estalar.
- Se você tivesse querido, Inhá, disse timidamente Miguel, poderíamos ser tão felizes!...
- E você não é, Miguel? perguntou Berta fitando nele um olhar melancólico.
- Sou! respondeu o moço com um suspiro.
Houve um novo e longo silêncio. Foi Miguel quem outra vez rompeu:
- Meu sonho era viver aqui nesta casa onde nasci, com minha mãe e você, Inhá. Por muito tempo sorriu-me esta doce esperança; mas você não quis!
- Não diga isto, Miguel! exclamou Berta com a voz afogada em lágrimas.
- Quem me separa destes lugares e talvez para sempre?
Curvou Berta a cabeça e balbuciou:
- Lembre-se de Linda!
- Lembro-me daquela que foi companheira de minha infância, com quem folguei os primeiros anos da vida, e cuidei que havia de repartir minha pobreza e humildade. Quantas vezes supliquei a Deus que nos conservasse unidos sempre, e esquecidos aqui neste canto do mundo. Mas ela tomou para si unicamente a existência tranqüila e feliz que eu pedia para ambas, e aparta-me de si para longe!
- Miguel!...
Olhares ansiosos seguiam Berta, que afastava-se lentamente de Miguel na direção das Palmas.
Jão, vergado sobre o cabo da enxada e agitado por veemente comoção, parecia despedir-se de si, para se precipitar aos pés da menina. Brás, cavado o semblante por violentas contorções, arrancava os cabelos da grenha ruiva, e mordia o beiço para não gritar. Zana estendia os braços hirtos, e no afã de alcançar Berta e aperta-la ao seio, rojava-se pela grama.
Miguel falava com fervor, e a fronte gentil da menina pendia com lânguida e meiga inflexão, como nenúfar que se debruça à beira do regato e não tarda a ser levada pela corrente que o enamora.
Afinal o moço enlaçou com o braço a cintura da menina, e a atraiu sem que ela lhe opusesse a mínima resistência. Pousando a cabeça trêmula no ombro de seu companheiro de infância, deixou-se Berta levar, embalada por um sonho fagueiro.
Cortou os ares um grito de angústia. Brás caíra ao chão como fulminado, e estrebuchava em uma violenta convulsão, soltando uivos estridentes.
Berta desprendeu-se dos braços do moço:
- Não, Miguel. Lá todos são felizes! Meu lugar é aqui, onde todos sofrem.
E rompendo o doce enlevo que a prendia um momento antes, soluçou:
- Adeus!...
Correu então para o mísero idiota e sentando-se na grama para deita-lo ao colo, ocupou-se em afaga-lo.
Quando moderou o acesso e que ele pode ouvi-la, falou-lhe com profunda comoção:
- Eu sou Til!... Til só!...
Compreendeu Brás a significação destas palavras, e adivinhou quanta sublime abnegação exprimiam elas?
Nesse instante Miguel voltou-se além, na extrema do caminho onde ia sumir-se, e a brisa trouxe um eco de sua voz:
- Adeus, Inhá!...
Os lábios de Berta murmuraram frouxamente:
- Para sempre!
Jão de pé em face dela esmagava com os punhos as bagas que lhe saltavam dos olhos; enquanto o peito lhe estertorava com o pranto que tentava sufocar.
Berta pousou nele o seu brando olhar e disse-lhe com um sorriso:
- Vai trabalhar, Jão!...
Entrou em casa para consolar nhá Tudinha; e instantes depois se restabeleceu a cena plácida e melancólica do começo da tarde.
Quando o sol escondeu-se além, na cúpula da floresta, Berta ergueu-se ao doce lume do crepúsculo, e com os olhos engolfados na primeira estrela, rezou a ave-maria, que repetiam, ajoelhados a seus pés, o idiota, a louca e o facínora remido.
Como as flores que nascem nos despenhadeiros e algares, onde não penetram os esplendores da natureza, a alma de Berta fora criada para perfumar os abismos da miséria, que se cavam nas almas, subvertidas pela desgraça. Era a flor da caridade, alma sóror.

*****

Autor: José de Alencar

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulos 11, 12 e 13
Capítulos 14, 15 e 16
Capítulos 17, 18 e 19
Capítulos 20, 21, 22 e 23
Capítulos 24, 25, 26 e 27
Capítulos 28, 29, 30 e 31 (Final)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...