sábado, 1 de maio de 2010

Livro - Memórias da Rua do Ouvidor - Capítulo XIX (Final)

CAPÍTULO 19

Anexos

Como falhando-me o assunto com que contava para o terceiro anexo, acho excelente recurso nas célebres casas de modas de madame gorda, e das três judias, e finalmente completo este capítulo, que é agora e decididamente o último, contando uma historieta, que as senhoras casadas não devem ler.

Vá a quem toca, e que eu não sei quem seja, mas a quem aliás agradeço a obsequiosa suavidade da carta anônima que me dirigiu.

Procurei zelosamente informações da casa célebre loja de brinquedos, à Rua do Ouvidor quina da de Gonçalves Dias, e fiquei in albis. Apenas me falaram de loja desse gênero próxima à Rua do Ouvidor, mas na de Gonçalves Dias, e bem que este nome esteja gravado profundamente no meu coração, denomina rua cujas casas não podem entrar nas Memórias da Rua do Ouvidor.

O meu leitor anônimo, que tanto me honrou, é quem pode melhor orientar-me, porque, lho digo, consultei a dois velhos respeitáveis dos que me assinalou, outrora jovens estudantes e freqüentadores da loja de brinquedos da Rua do Ouvidor, quina da de Gonçalves Dias, e ambos me responderam pela negativa, e tão decididamente, que me desanimaram o empenho de outras informações.

Ora, o caso é que me achei em apuros de comprometimento. A tal loja de brinquedos devia ser o meu terceiro anexo, e por força maior reconheci-me desanexado!

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Mas (vaidade de autor que é tão estulta como todas as outras vaidades deste nosso mundo, planeta de doidos) eu faço, ou fiz de conta que os meus numerosíssimos e enlevadíssimos leitores e principalmente leitoras (ainda mais vaidade no caso) esperavam com interesse e ardor o terceiro anexo, e agora positivamente último capítulo das Memórias da Rua do Ouvidor, obra dantênica, buenarótica, homérica e destinada a atravessar os séculos.

Em tão grande aperto, não quis dar o meu braço a torcer, e viajando eu só de cima para baixo, e de baixo para cima a procurar matéria nova para encher o terceiro anexo, descobri notabilidades que me dariam assunto para escrever ainda uns vinte capítulos.

Mas eu já declarei que a minha obra monumental estava acabada e não quero ir além do terceiro anexo para não comprometer as condições arquitetônicas do edifício que levantei.

Entre dezenas de recordações algumas, cabeludas e outras descabeladas, desta mina inesgotável da Rua do Ouvidor desde meio século e alguns anos tomarei de preferência duas lojas célebres e uma historieta, conto imaginário, ou verdade verdadeira.

Anexo III

Lembrarei em primeiro lugar a mais moderna das duas lojas célebres, aquela que ainda há menos de doze anos ocupava a casa do atual n.º 108, contígua à da Estrela.

Anos depois de 1840 tiveram nessa casa loja de modas duas francesas de meia-idade, irmãs, das quais uma alta e quase magra e a outra notavelmente gorda.

Ou porque fosse a principal sécia da casa ou por aquela distinção física a irmã gorda deu não o nome, mas a alcunha à loja.

Como as duas irmãs se chamavam nem eu sei, nem creio que alguém cuidasse em sabê-lo; o nome da loja era o da família de ambas, estava escrito no portal; mas ninguém o lia.

Loja de madame gorda era a denominação conhecida.

As duas irmãs não podiam agradar por bonitas; eram porém francesas que sabiam atrair fregueses por seus modos afáveis, e que gozavam crédito de modistas de bom-gosto.

A loja de madame gorda foi muito concorrida, e portanto a própria irmã que era magra ia engordando financeiramente.

Estabelecido o Alcazar Lírico depois Teatro Lírico Francês na Rua da Vala (da Uruguaiana atualmente), as principais ninfas alcazarinas foram aos poucos tomando madame gorda por modista, e enfim a célebre Mlle Aimée firmou o reinado da tesoura de madame gorda nas toilettes das alcazarinas florescentes.

Até aí não havia que dizer; as novas freguesas pagavam caro, e gastavam como se fossem pescadoras do Pactolo. Eram poucas, somente as mais famosas, as alcazarinas a quem madame gorda servia, mas cada uma delas valia por dez a despender na loja.

Isso não espantou a antiga e séria freguesia de madame gorda.

Mas em breve Mlle Aimée, e logo a imitá-la as celebridades alcazarinas não se contentaram com a sua exposição às vezes em seminudez na cena escandalosa do Alcazar, que determinou a decadência e a corrupção da arte dramática na capital do Império; elas quiseram ainda pôr-se em exibição repreensível de dia, e madame gorda prestou-se a essa exploração do vício.

As tais alcazarinas, tomando como em prova seus novos e riquíssimos vestidos, fugiam do interior da loja; e era junto às portas desta e em face do público a passar pela rua que madame gorda e madame magra as cercavam, simulando marcar supostos defeitos em sua obra, ora alisando com os dedos os talhes do corpinho, ora fazendo aquelas freguesas de colo nu e nuas espáduas executar longo e moroso movimento de rotação, como bonecas-figurinos de vidraça de cabeleireiro, enquanto elas, as duas irmãs, em fingido e ativo exame indicavam aos observadores curiosos as formas e os contornos dos corpos assim expostos, e o inconfessável prestigio de tanta riqueza de vestidos.

Ora, é claríssimo que não se provam inocentemente vestidos às portas da rua. As pessoas gordas não se abaixam com facilidade; mas madame gorda rebaixou-se muito.

Era demais. A freguesia antiga e séria abandonou a loja de madame gorda. Em breve (para alguns sem dúvida em longo) Mlle Aimée como andorinha que era bateu a linda plumagem (verso de modinha antiga) e foi fazer verão em outras cidades, as suas companheiras, de mim nomeada, caíram aqui no inverno do desprezo merecido, ou fizeram à cidade do Rio de Janeiro o grande favor de ir arranjar primavera e outono, onde melhor lhes pareceu.

História de ciganas nômades.

E madame gorda sempre a engordar cada vez mais fisicamente, sentindo-se, por justa punição de pecado, emagrecer economicamente, trancou as portas de sua loja de modas, e foi longe do Brasil maldizer da vil condescendência com que se prestara a servir ao impudor das alcazarinas.

É caso de dizer - bem-feito.

A outra loja, também célebre, menos moderna, porém, ocupou a casa quase fronteira da de madame gorda, e que hoje é muito conhecida pela sua denominação de Dois Oceanos, como se não fosse bastante um oceano só para afogar os fregueses.

Desde perto de quarenta anos floresceu nessa casa a loja das judias; a denominação escrita na tabuleta não era essa; o público, porém, não conhecia nem admitia outra.

A loja era de modas, nela, além de se fazerem vestidos, vendiam-se chapéus e diversidade de enfeites para senhoras.

O chefe e dono do estabelecimento era um francês (alsaciano) judeu, cujo nome não sei, mas notabilíssimo por ser pai de três bonitas filhas, três judias jovens, solteiras e espertas, que eram as principais recomendações da loja.

Declaro que vi muitas vezes e sem o menor perigo para a minha virtude madame gorda e sua irmã quase magra, mas não tenho idéia, ou não conservo lembrança, das três judias, que representavam o contraste daquelas duas irmãs.

Informam-me que a loja das judias foi muito afreguesada, teve fama e crédito e que as três jovens bonitas, faceiras e de afabilíssimo trato, judias que eram, judiaram o mais que é possível com dezenas de elegantes mancebos, e com alguns ridículos velhos, que se enamoraram delas.

As judias deixavam-se namorar, sorriam-se aos namorados, faziam vestidos e vendiam chapéus e enfeites às esposas, às filhas e às irmãs dos seus apaixonados, judiavam com estes, e se conservavam honestas.

Dizem-me que das três irmãs a segunda na conta dos anos, e eram vinte neste tempo, a segunda que, apesar do - in medio posita do virtus, foi a menos contida, ou a mais ousada, muito urgida por um seu ardente apaixonado, que era então membro da Câmara dos Deputados, dera-lhe, o mil vezes pedido, longo anel de seus cabelos louros a troco de um colar de finas pérolas.

O ilustre parlamentar, que foi realmente ilustre e depois senador, etc., pensou que podia tecer com os cabelos do áureo anel lisonjeira corda para prender a judia, mas que havia de acontecer?... a Câmara foi dissolvida, e o deputado dissoluto, voltando à loja das judias, e ali fazendo à namorada proposições terníssimas, recebeu em resposta a mais cruel judiação:

- Ah, doutor!... palavra de honra, depois da dissolução da Câmara o seu amor não pode mais entrar na ordem do dia.

O ex-deputado teve o bom-gosto de rir-se, mas saiu da loja desapontado; mais tarde, quando era senador, e foi mais alguma coisa, já as judias tinham-se retirado da cidade do Rio de Janeiro e recolhido à França.

Uma delas casou-se aqui, creio que com um judeu a quem. amava; das outras não sei; deixaram fama de judiação namoradeira, mas sem descrédito aviltador.

Ganharam bom dinheiro na loja e zombaram dos namorados intencionais-sedutores.

Direito perfeito: eram judias, e como tais judiaram.

Madame gorda e madame quase magra, sua irmã, multiplicadas por si mesmas, não valiam o próprio colar de pérolas que a troco do anel de seus cabelos louros recebeu menos dignamente de seu apaixonado a segunda das três judias.

Acabam aqui os anexos; segue porém como apêndice a historieta que prometi, e que vai sem declaração da loja e do ano em que se passou para que não me acusem de leviandade.

Mr. Tal estava de mau humor e com alguma razão, tendo encontrado entre outras sedas e fazendas em remessa chegada de Paris dez cortes de seda para vestidos, todos de padrão igual e horrivelmente espantador com extravagante mistura de cores vivíssimas, e de ramagens grandes e pequenas amarelas, vermelhas, negras, etc.

Mr. Tal não quis expor semelhante espanta-freguesas. Mr. Qual, porém, que era desde algum tempo sócio em parte dos lucros da loja, jurou que venderia todos os dez cortes, e pôs um deles suficientemente desenrolado na vidraça.

Mr. Tal disse ao sócio:

- Venda-os a todo preço, a quarenta mil réis ou menos cada um, se aparecerem gostos estragados a comprá-los.

No primeiro dia não houve homem ou senhora que, passando por defronte da loja, não indicasse como que admiração e repugnância, vendo tão espantadora e medonha seda.

Mas no dia seguinte a uma hora da tarde parou de repente à porta da loja bonito faetonte tirado por cavalos negros, trazendo dentro (não dos cavalos, mas dele faetonte) recostada em entorso Mlle Bibi (nome que lhe dou) com os cabelos à Madalena, et coetera.

Mademoiselle saltou do faetonte, entrou na loja e pediu para examinar a seda, que Mr. Qual, acudindo logo, apresentou-lhe dizendo:

- Última e delirante moda de Paris! recebemos vinte cortes desta seda, e só nos resta este que é o último: vestido a - je ne veux pas qu'on m'aime! - Mme Mac Mahon há pouco mais de um mês fez com um destes vestidos verdadeiro furor no baile do Eliseu.

- Sim, respondeu Mlle Bibi a rir: é mais do que feia, é tão horripilante esta seda, que por força obriga a atenção, por conseqüência convém-me. O preço?

- Por ser o último corte... e porque Mlle o distinguiu... duzentos mil réis...

- Que diabo! mas que me importa o diabo do preço?... quero esse corte de horrorosa seda... ponha-o de lado que é meu, daqui a meia hora há de vir quem lho pague.

E Mlle Bibi voltou-se com artificioso movimento, e a olhar para a direita, para a esquerda e para a frente lançou-se dentro do faetonte, e outra vez reclinada de estorso, e pondo à mostra uma das altas botinas toda cheia de laços e fivelas, tendo dado ordens ao cocheiro, foi levada à trote largo pela Rua do Ouvidor acima.

Menos de meia hora depois, e sem vergonha nenhuma, o Comendador Crispim (eu vou crismando os verdadeiros personagens da história), homem de quarenta anos e casado com senhora ainda moça, bonita e virtuosa, entrou na loja, viu e pagou o corte de vestido de seda, pediu papel e tinta e (mal inspirado poeta) escreveu a seguinte quadra:

Aí tens a mais feia seda,
Que se fará bela em ti,
Pois tudo é belo em teu corpo,
Meu anjo, minha Bibi.

E logo colocou o seu verso entre as dobras da seda, fez acondicionar esta em cartão bem arranjado e escreveu sobre o cartão a necessária indicação da rua e do número da casa da Bibi e deu ordem para ser imediatamente levada a encomenda ao seu destino.

Um caixeiro saiu logo com o corte de seda.

O Comendador Crispim que, embora fosse rico, era muito econômico, e freqüentemente queixava-se à esposa das despesas que ela fazia com suas toilettes de modo a vexá-la não pouco, acabava de pagar duzentos mil réis corte de abominável seda coagido por exigência do vício que o escravizava.

Raras vezes a esposa tinha merecido seda de tanto preço ao marido sovina. É verdade que Crispim pagara os duzentos mil réis, lamentando semelhante capricho, mas somas muito mais avultadas já por castigo lhe tinha custado a sua fraqueza.

Não é fraqueza que se diz?...

Mas Crispim ia sair da loja, quando parou à porta, vendo aproximar-se outro comendador (no Brasil os doutores e os comendadores são como as folhas do bosque e as areias do mar), o seu concunhado Teotônio, e ambos ficaram a conversar.

A conversação foi confidencial e versou sobre as impertinências das esposas e sobre os expedientes com que eles as mistificavam.

Os dois comendadores casados com duas senhoras irmãs e honestíssimas eram maridos como há por aí outros que, ainda mesmo sem comenda, são maridos de encomenda.

Crispim, depois de ouvir o que Teotônio lhe dizia da sua Luizinha, que às vezes ciumenta o massava, chorando, mas sempre acabava por acreditar na sua inocência, tomou a palavra por sua vez.

- Olha, Teotônio, a minha Clotilde só me atrapalha, vindo alguns dias encontrar-me na Rua do Ouvidor; hoje, porém, como eu podia correr certo perigo, livrei-me absolutamente da Clotilde. Foi uma dos diabos... estou quase arrependido.

- Que foi?

- De um retalho de seda azul que lhe ficara de um vestido ela arranjou uma gravata para o nosso sobrinho Quincas, e esta manhã fingi por isso tal acesso de ciúmes, que a deixei chorosa, desgrenhada..,

- Mas que loucura cruel! Quincas tem apenas dezesseis anos de idade, e desde os cinco em que perdeu seus pais é nosso filho de adoção...

- Chegando à casa eu pedirei perdão à Clotilde; era-me porém necessário livrar-me hoje dela na Rua do Ouvidor.

Os dois foram interrompidos pelo caixeiro que tinha ido levar o corte de seda à casa de Mlle Bibi.

Crispim chamou a um lado o pequeno e interrogou-o sobre o desempenho da comissão, mas quase logo levou as mãos à cabeça e recuou exclamando:

- Oh, diabo! que foi fazer este pastrana!...

O desazado caixeiro, que costumava levar às vezes fazendas à casa do comendador, não julgara preciso ler as indicações escritas sobre o cartão e fora entregar o corte de seda à esposa de Crispim.

Mr. Tal e Mr. Qual acudiram à exclamação, e sabendo do qui pro quo, enquanto o primeiro repreendia o caixeiro e jurava ir despedi-lo; o segundo, abusando da perturbação e do desespero de Crispim, disse-lhe:

- Talvez que V. Ex.ª esteja aflito, além do outro motivo, também pela falha do... da encomenda, por ter sido aquele corte de seda o último... mas acabamos de descobrir outro corte, e, se quer que o mande levar... eu sei onde é... não haverá engano... V. Ex.ª quer que o mande levar?... quer?...

- Mande... mande, respondeu sem pensar no que dizia o Comendador Crispim em apuros.

Teotônio ouviu-lhe a história do fatal qui pro quo com a circunstância agravante da quadra, prova evidente da culpa.

Ficaram os dois a olhar um para o outro e junto de um penedo outro penedo.

- Que entrosga! murmurou Crispim finalmente.

- E o meio de sair dela?... disse Teotônio.

Ambos por mais de uma hora ali se deixaram a imaginar explicações impossíveis, até que de súbito parou à porta da loja um carro (da praça) e dele se apeiou Clotilde;

Façam idéia da cara e da compostura de Crispim. Isto se passava em fins de junho, e o pobre homem suava a causar pena.

Clotilde vinha pálida, levemente trêmula, mas senhora.

Ela deu a mão ao marido e ao cunhado e disse com brandura àquele:

- Crispim, fizeste hoje um despesão comigo! o caixeiro me informou do preço da seda; agradeço-te muito o belo presente e a graça dos versos.

O marido respondeu estupidamente, fingindo rir e falando ao ouvido da esposa:

- Ah! causei-te ciúmes? era o que eu queria para vingar-me.

Clotilde tornou dizendo-lhe docemente:

- Bem sei, e podias tê-lo dito em voz alta; bem sei que a minha vontade e até os meus caprichos são a tua lei, e vou prová-lo.

Avançando então para dentro da loja, ela disse a Mr. Qual que se apresentara:

- Quero um outro corte daquela seda.

- Pois o que foi, é pequeno?...

- Não, Crispim, a seda porém é lindíssima, e eu desejo outro corte para aumentar a cauda do vestido, e para fazer algumas gravatas que destino ao nosso Quincas.

O marido sovina sentiu o golpe, e chegando-se para Teotônio disse-lhe baixinho:

- Ainda bem que o derradeiro depois do último...

Mas não acabou, porque Mr. Qual acudiu, dizendo:

- Pensávamos ter esgotado os cortes da delirante je ne veux pas qu'on m'aime, mas de mistura com outras sedas novíssimas um caixeiro achou mais um... ei-lo, é de V. Ex.ª!

- Mande-o pôr no carro.

E voltando-se para o marido Clotilde acrescentou:

- Mais duzentos mil réis para aumento da cauda do meu vestido e para gravatas do nosso Quincas, por certo que te não causam pena...

- Oh!... não... não!... balbuciou Crispim, que suava cada vez mais.

- Aquele corte de seda é o ultíssimo, disse Teotônio em tom muito baixo a Crispim.

- Que está dizendo a meu marido?... perguntou Clotilde sorrindo:

- Dizia-lhe que a delirante seda é feia como o inferno...

- Isso é inveja, mano, e o que eu sinto é que não haja ainda um corte, porque em lembrança da ótima companhia que o senhor faz a Crispim eu levaria de presente à Luizinha...

- Oh, minha senhora!... parece milagre de V.Ex.ª... exclamou Mr. Qual; encontraram-se mais dois cortes da je ne veux pas qu'on m'aime no último caixão que acaba de se abrir neste momento.

- Dois! meu Crispim, sê condescendente... tu és tão bom para mim!... eu quero os dois... um para Luizinha e outro que mandarei à prima Antonica que faz anos amanhã.

- Mas repara... balbuciou todo banhado em suor e concentrando a fúria o marido sovina.

- Os dois cortes de seda no carro! disse Clotilde a Mr. Qual, que logo obedeceu à ordem.

E quase terna ela continuou falando ao marido:

- Quero-os, e tu escreverás uns versinhos, como aqueles, para que eu os mande pregados na seda à prima Antonica.

Teotônio mal continha o ímpeto de desatar a rir da vingança da ciumenta cunhada.

Crispim alagado em suor e obrigado a submeter-se, embora furioso pela despesa de quatro cortes de seda além do reservado para a Bibi, temendo que aparecessem inesperados ainda outros que a vingativa esposa abrasava em ciúme quisesse tomar, disse a esta:

- Agora vamos para casa, dar-me-ás um lugar no carro.

- Não posso, só há lugar para dois, e o nosso Quincas me espera na Praça de S. Francisco de Paula.

E Clotilde, aceitando graciosa e risonha a mão que o marido lhe ofereceu, entrou no carro, que imediatamente partiu.

- Melhor do que eu esperava e temia! disse Teotônio ao concunhado.

E o sovina Crispim respondeu:

- Mas quatro cortes... afora o outro!... um conto de réis!... um conto de réis!...

-E a tua quadra à Bibi?

- O diabo leve a poesia!...

E o miserável vicioso deu dois passos para o interior da loja, e disse a Mr. Qual:

- Não esqueça a... encomenda!

E saiu com o concunhado, que era tão bom marido como ele.

Clotilde nem recebeu o Quincas na Praça de S. Francisco de Paula, nem fez vestido, nem gravatas, nem presentes da seda maldita.

Melancólica, mas plácida, recebeu em casa o marido sem atormentar-se, nem atormentá-lo com increpações e cenas tristes de ciúmes.

Mas vingou-se deveras!...

Dos quatro cortes de seda - je ne veux pas qu'on m'aime - fez uma dúzia de robes de chambre para o seu Crispim, e dai em diante não poupou mais despesas com as suas toilettes.

O melhor desta história é que hoje, sendo lido o folhetim, um dos meus leitores da Rua do Ouvidor dirá aos seus fregueses de confeitaria:

O caso foi falsificado; o qui pro quo verdadeiro aconteceu com uma rica bandeja de doces...

Outro dirá na sua loja de ourivesaria:

- Que peta! não houve história de corte de vestidos; o que houve foi... quase o mesmo... o engano na entrega de rico relogiozinho de ouro...

Três edições afora as que ignoro de história que é a mesma no fundo.

Eu por mim não rejeito, e, ao contrário, aceito as diversas edições ou corrigendas da minha - historieta -, mas dou vista da causa aos maridos moços e principalmente aos velhos para que cada um diga o que for de seu direito à sua respectiva esposa.

FIM



*****

Memórias da Rua do Ouvidor
Autor: Joaquim Manoel de Macedo

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII
Capítulo XIX (Final)
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