quarta-feira, 21 de abril de 2010

Livro - Memórias da Rua do Ouvidor - Capítulo XVII

CAPÍTULO 17

Como depois de saudar de antemão o termo da nossa viagem pela Rua do Ouvidor, paramos em frente da imensa loja de modas Notre Dame de Paris, encontramos nela compreendida a antiga e pequena casa célebre que foi loja de papel e de objetos de escritório do Passos, republicano inofensivo, mas inabalável, de cuja velha mesa de pinho na saleta do fundo ainda muita gente há de lembrar-se: como em seguida as recordações do Passos, trata-se por exceção da grande loja de modas composta de lojas confederadas com sala central, armazém no fundo, sobrado por cima, portas de entrada e de saída, aqui, ali, e acolá, e tudo de modo a tornar indispensável uma cana topográfica para uso dos fregueses, e a propósito conta-se a história ingênua de Alexandre e de Elvira, dois noivos namorados que andaram mais de uma hora perdidos um do outro na loja de modas Notre Dame de Paris. E com essa história põe-se o suspirado ponto final nas Memórias da Rua do Ouvidor.

Haja alegria!...

Hoje, sim, chega definitivamente a seu termo a nossa viagem pela Rua do Ouvidor.

Ainda em frente da casa do Visconde da Cachoeira e do atual Hotel Ravot ostenta-se conquistador de antigos humildes tetos o - armazém - ou bazar - ou loja lojíssima de modas denominada - Notre Dame de Paris.

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Por exceção nas minhas abstenções de coisas e casas da atualidade, terei de contar uma história ingênua, de que foi teatro inocente essa loja lojíssima, que ainda ninguém calcula onde irá parar em suas conquistas ao norte, a sul, a leste e a oeste.

Agora lembrarei que a segunda porta e nos limites do segundo departament atual, e pouco mais de 20 anos assento ali inicial daquela Notre Dame de Paris, pouco antes era célebre pequena casa térrea de duas portas para a Rua do Ouvidor e de fundo muito limitado.

Desde anos antes de 1840 até depois de 1853, com certeza, essa casa térrea apresentava simples muito simples loja de papel e de objetos de escritório, e onde também se vendiam, com regular porcentagem, periódicos políticos, somente, porém, os do partido liberal.

Não sei bem donde provinha esse exclusivismo, se da intolerância do proprietário da loja, se da antipatia ou também da intolerância dos conservadores. É provável ou quase certo que as duas intolerâncias contribuíssem para o fato.

Era essa a célebre loja do Passos.

Homem cuja instrução se limitava à primária, mas de idéias claras e de caráter muito firme, o Passos era em política inofensiva republicano, mas ligado ao partido liberal que fez decretar a maioridade do Imperador.

Já avelhantado e sujeito a ataques erisipelatosos nas pernas e ainda assim de atividade e diligência notáveis, e de economia que levava à exageração o Passos, que morava no bairro da Glória, vinha todos os dias de manhã a pé para sua loja, da qual só se retirava à noite.

Havia quem se queixasse do Passos pelo zeloso cuidado com que ele guardava o que era seu, e pelas conseqüências da exageração da economia em transações, à que dificilmente se prestava, mas nunca houve pessoa alguma que pusesse em dúvida a fidelidade de suas contas.

Fora dos negócios, em que se impunha positivo e frio como a aritmética, o Passos era outro homem.

De mediana estatura, de cor morena, casca grossa, de olhos pequenos, de músculos faciais quase inertes e todavia de expressão fisionômica agradável, atrativa para os amigos, e em geral para os liberais conhecidos e pronunciados, o Passos teve sem o pensar nomeada que lhe ia custando cara.

Em política era de tolerância absolutamente ilimitada, mas só com os liberais: recebia, agradava, atraía os liberais de todos os matizes... somente porém os liberais.

Em frente da sua loja estava o balcão, até o qual eram admitidos todos os compradores de papel, de objetos de escritório e de periódicos liberais, todos, ainda mesmos os mais ardentes conservadores (dos quais aliás nenhum entrava na loja), mas do balcão para dentro o caso era muito diferente.

O fundo da loja era uma saleta modestíssima, pobre; no meio da saleta havia rude e velha mesa de pinho, mas em torno dessa mesa sentavam-se freqüentemente quase todos os dias, honrando a sociedade do Passos, muitos liberais pronunciados na imprensa e no parlamento, e alguns dos chefes do partido liberal.

Eu por mim dou testemunho de que no meu tempo ainda lá encontrei muitas vezes o atual Sr. Visconde de Abaeté, o velho Costa Ferreira, Barão de Pindaré (assíduo e espirituosíssimo conversador), o Senador Alencar, Sales Torres Homem, depois Visconde de Inhomirim, o Dr. José de Assis, o Padre José Antônio de Caídas, que com o Ractikliff e outros fora condenado à morte em 1824, Teófilo Otoni e muitos outros.

Mas a data de 1848, em que ainda florescia no fundo de sua loja o Passos, prova que ele por firmeza de caráter e de idéias políticas não quebrara nem torcera com a experiência da adversidade; porque em 1842, tendo rebentado as revoltas liberais das províncias de São Paulo e de Minas Gerais, e sabendo o governo com reais e bons fundamentos que o principal foco da conspiração revolucionária estava no Rio de Janeiro, fez prender ao atual Sr. Visconde de Abaeté, a Sales Torres Homem, Dr. Meireles e outros, entre os quais o depois meu amigo Passos, que era em verdade incorrigível republicano de aspirações, ardentemente desejoso do triunfo daquelas revoltas; incapaz, porém, de fazer por elas sacrifícios que aproveitassem a causa que fora levada ao campo da ilegalidade e dos combates.

Ainda bem que por exceção individual um pouco menos violento e opressor o governo limitou-se a pôr o inofensivo Passos debaixo das vistas da política e o excluiu do número dos nobres proscritos de então.

Mas o Passos não se corrigiu!... em 1848 e ainda anos depois conheci-o, freqüentei-o, e sempre o apreciei inabalável em suas opiniões, com as quais morreu.

Como todos os homens, ele tinha predileção firmada em confiança. O varão predileto do Passos era o célebre e estimadíssimo estadista Limpo de Abreu, o atual Sr. Visconde de Abaeté.

Quando morreu, o Passos deixou em verba testamentária pequeno legado, mas grande prova de amizade antiga e profunda ao Sr. Visconde de Abaeté, o qual, aliás (sempre é bom dizê-lo), nem soubera, nem procurara saber se o seu amigo tinha feito ou não testamento.

O Passos foi verdadeiro exemplo de lealdade e de firmeza inabalável em suas idéias políticas, era rude e pertinaz republicano, que todavia fraternizava com os monarquistas liberais, sendo-lhe só impossível entender-se com os conservadores.

Se a sua agreste e velha mesa de pinho do fundo da loja falasse, diria coisas capazes de apagar crenças no ânimo do povo, e de confundir e de envergonhar não poucos varões ilustres.

Felizmente ninguém sabe onde pára a tradicional velha mesa de pinho, e que o soubesse alguém, a pobre mesa não poderia repetir os cantos de palinódia, e as escandalosas metamorfoses políticas que contrastaram com as protestações e juramentos de propaganda de constituinte e de republicanismo, que junto dela o Passos ouviu entusiasmado de 1849 em diante para morrer poucos anos depois ainda republicano, mas descrente e maldizendo dos seus republicanos mais ardentes, que se transformaram em dedicações sem limites da monarquia.

O Passos ganhava muito pouco na sua loja, e creio que só a mantinha como centro de reunião diária de amigos políticos, e porque não pagava aluguel da casa, que era de sua propriedade.

As desilusões políticas, o desgosto profundo que lhe causou o ver que alguns dos liberais e republicanos, em quem muito confiara, tinham quase de súbito desertado para os arraiais conservadores, levaram o Passos a pensar mais seriamente nos cuidados que exigiam as suas erisipelas, a fechar a loja e a vender a casa a M. Décap.

E ainda bem que ninguém pôde dizer ao velho Passos:

- Faites des perruques.

Quando M. Décap comprou a casa do nosso amigo Passos, já se achava estabelecido com a sua loja de modas, creio que no pavimento térreo da casa onde floresceu o Hotel Damiani; de modo que não foi preciso senão atravessar a rua, indo quase de um salto ocupar o seu teto próprio.

Que mudanças e que conquistas efetuadas em menos de um quarto de século!...

A loja de modas Notre Dame de Paris, que começou com uma porta e duas vidraças na antiga casa do Passos, tem hoje doze (contadas as portas e as vidraças) abrindo-se para a Rua do Ouvidor; as casinhas térreas transformaram-se em vistoso sobrado, cuja frontaria é iluminada na linha superior por numerosa série de bicos de gás.

E não pára aia história.

Não podendo (por ora) levar além suas conquistas à direita e à esquerda na Rua do Ouvidor, M.Décap avançou pelo fundo em direção à Sé Velha ou à Igreja do Rosário, e diante dela abriu saída de importância estratégica com uma fortaleza de portão de ferro. Finalmente (por ora), o insaciável conquistador acaba de realizar, com hábil marcha de flanco, novo aumento de domínios laterais, que abrem atrativa comunicação com a Praça de S. Francisco de Paula, para a qual apresenta gracioso chalet.

Em falta de espaço para jardins, o vasto sobrado da loja é um tecido de labirintos, onde os estranhos e curiosos importunos perder-se-ão sem achar fio da Ariadne.

A loja Notre Dame de Paris, bem que não seja exclusivamente de fazendas e de modas francesas para senhoras, é, contudo, principalmente atraidora do belo sexo, e representa no seu imenso mundo capital avultadíssimo, que deve vencer juros pagos pelos consumidores e consumidoras; além disso, a loja contém e alimenta numerosa população de empregados de escritório, de caixeiros às dezenas, de modistas e costureiras em número elevado, de serventes e criados todos vencendo honorários e aluguéis.

Calculem a despesa do estabelecimento que aliás floresce e se agiganta!... que soma de contos de réis gastos anualmente com essa população!...

Calculem o que ganham em seu comércio as muitas outras, embora menos gigantescas, lojas de modas da Rua do Ouvidor, e hoje de outras ruas.

Calculem e façam idéia do que custam a moda e a elegância da cidade do Rio de Janeiro!...

Porque em cada corte de seda, em cada toilette, em cada xale, chapéu, gravatinha, etc., a compradora paga e deve pagar no seu tanto proporcional, além do valor e lucro do objeto que adquire, o aluguel da casa, e os honorários dos empregados de escritório, dos caixeiros, das modistas, das costureiras, dos serventes e dos criados, e antes de tudo isso os tributos da alfândega, que na verdade são de arrasar!...

Minhas belas e excelentíssimas leitoras, que devo confessar a mais incontestável verdade: as modas, o luxo, a chamada elegância das senhoras custam muito caro!... mas também juro e sustento que as senhoras merecem isso e muito mais; têm direito de educação maldirigida, imposta, porém, pela sociedade despótica e opressora do sexo feminino e esses sacrifícios materiais, que são em geral enfeites, flores e fantásticos artifícios, adornadores fictícios, efêmeros, pobres compensações da escravidão da mulher em nossa vida e em nossos costumes sociais.

Portanto bem podia haver ainda mais duas dúzias de lojas de modas como a de Notre Dame de Paris na cidade do Rio de Janeiro sem que o sexo feio tivesse o direito de queixar-se dos tributos que paga à vaidade do belo sexo.

Quanto a mim, a loja de modas Notre Dame de Paris só apresenta possíveis inconvenientes na grande extensão dos seus domínios que acabaram por tornar indispensável aos seus fregueses conhecimento exato de sua carta topográfica.

E vem aqui a propósito a história ingênua que prometi contar.

D. Elvira tem apenas 16 anos de idade e está casada há quatro meses. Alexandre de Menezes, o escolhido do seu coração, jovem bonito e rico que ainda vai completar os seus 22 anos.

Duas crianças, noivos, que passam a lua-de-mel a brincar, dois namorados que vivem em doces enlevos a acariciar-se mutuamente. Elvira e Alexandre ainda não podem separar-se durante uma hora sem saudades.

O mais ligeiro incidente, um espinho de roseira que no jardim prenda passageiramente o vestido de Elvira, sobressalta Alexandre, temeroso de algum arranhão no pé ou no braço da esposa: esta, se uma abelha morde a bela fronte do noivo, se aflige, e maldiz das flores que atraem as abelhas.

São dois esposos que, se viverem vinte e cinco anos, hão de celebrar o casamento de prata, e se chegarem aos cinqüenta celebrarão o de ouro.

Agora suponham que o que vou referir se passou há dois meses, ou há um mês, ou há quinze dias, pouco importa quando.

Um dia, Alexandre levou Alvira a passear pela Rua do Ouvidor; um criado os acompanhava, porque naturalmente o jovem esposo contava que a menina esposa, comprando cortes de sedas e enfeites, quereria fazê-los conduzir logo para casa.

Esta explicação seria de todo vã, se ela não servisse para indicar que os dois noivos preferiam sempre passear, estar, viver a sós.

Era uma hora da tarde, os esposos namorados tinham já tomado sorvetes, falado para Petrópolis pelo telefone, admirado tranças e crescentes para penteados, que Elvira não comprou, lastimando-se de não poder usá-los, porque os seus cabelos negros e ondeados que soltos lhe caíam até um palmo acima dos pés, e para a frente levados a esconderiam toda em densa nuvem de enchentes de anéis, não lhe permitiam sem hipérbole monstruosa crescente suplementar.

O criado já levava em cartões, caixas e embrulhos duas ricas toilettes, um chapéu maravilhosamente extravagante, três cortes de seda para vestidos, duas estupendas saias de cauda, um delicadíssimo guarda-jóias e não sei que mais...

Era uma boa carga de objetos de luxo conduzida um pouco fora de vila e termo, atrás daquele casal de pombinhos que não davam satisfações ao mundo, porque na perfeita felicidade do seu amor só se ocupavam de si mesmos.

Oh! egoísmo abençoado!...

Era, porém, uma hora da tarde, quando Alexandre e Elvira, já de volta de seu passeio, entraram na loja Notre Dame de Paris pela segunda porta, segunda para quem sobe a rua.

É indispensável breve indicação topográfica para que possam entender a história aqueles que não conhecem a casa de modas Notre Dame de Paris.

Abre ela para Rua do Ouvidor quatro lojas como independentes, e cada uma com duas vidraças de exposição e sua porta de entrada; todas quatro se comunicam, porque cada qual tem sua porta, ou antes, passagem lateral, e todas quatro acabam no fundo completamente abertas para a galeria central de exposição de vestidos, de toilettes, etc.

A galeria central comunica-se pelo lado direito com um vestíbulo que tem porta para a Praça de S. Francisco de Paula, e pelo fundo um pouco à esquerda com a porta da escada para o sobrado, e bem no meio lança corredor que termina no armazém, que mostra o seu portão de ferro diante da Igreja do Rosário, ou da Sé Velha.

Ora bem: os dois esposos namorados entraram na segunda das quatro lojas confederadas, isto é, na loja das sedas.

Elvira ficou embevecida examinando belíssímas sedas que lhe apresentavam, e Alexandre vendo lindos vestidos expostos na galeria central subiu a esta para escolher algum e preparar com ele surpresa agradável à esposa.

Enquanto Alexandre escolhia o vestido, Elvira deu por falta do marido, e foi procurá-lo na terceira loja, e em seguida na quarta.

Mas o esposo estremecido, tendo feito a escolha de que se ocupara, e dado as suas ordens, desceu da galeria central e pôs-se a viajar pelas quatro lojas confederadas em busca de Elvira, que aliás acabava de subir para a mesma sala donde ele tinha saído.

Por explicável vexame, nem Alexandre perguntava aos caixeiros por Elvira, nem esta pelo marido, e um e outro andavam a fazer voltas pelas lojas e pela galeria central, não lembrando a nenhum dos dois que o mais acertado era ficar esperando.

Essa idéia veio enfim, mas infelizmente ao mesmo tempo a ambos: Alexandre na primeira loja e Elvira na quarta esperaram debalde um pelo outro dois ou três minutos.

Perturbaram-se os dois esposos namorados sem saber o que pensassem e foram de mal a pior.

Alexandre pôs-se de novo a procurar Elvira e foi dar consigo o armazém de fundo da casa, e somente parou esbarrando no portão de ferro, e vendo defronte a Sé Velha.

Elvira agitada e temerosa a buscar o marido subiu pela porta que abre para a Praça de S. Francisco de Paula, e, perdendo a diligência, deu volta pela Rua do Ouvidor, e apenas achou o criado que esperava firme à porta da segunda loja.

Não lhe dando o criado notícias do marido, Elvira pensou nas modistas e nas costureiras, e, ciumenta pela primeira vez, avançou para dentro da loja, atravessou a galeria central e subiu para o sobrado.

Alexandre voltava então do armazém do fundo, e se tivesse levantado os olhos para a escada, diante da qual passava, teria visto a esposa subindo-a; ele, porém, vinha já desapontado, porque um caixeiro que fora em serviço ao armazém acabava de dizer-lhe que sua senhora tinha saído pela porta da Praça de S. Francisco de Paula.

Por essa mesma porta se lançou Alexandre, e depois de gastar brevíssimo tempo a olhar para todos os lados sem avistar a sua Elvira fez o que ela tinha feito, deu volta pela Rua do Ouvidor e foi encontrar o criado imóvel no seu posto de obediência.

Sabendo que Elvira há pouco entrara de novo na loja, o esposo namorado e já senão suspeitoso ao menos apreensivo recomeçou os seus rodeios pelas lojas até que lhe veio à lembrança o sobrado, e partiu para atravessar a galeria central, e subir a ele:

Elvira não se perdeu nos labirintos do sobrado, porque conhecia bem o caminho das salas das modistas e costureiras, e lá chegando, pediu para dissimular loucas suspeitas que trazia, que lhe mostrassem os mais ricos vestidos feitos, enquanto com olhos penetrantes e com instinto feminil estudava fisionomias, e procurava indícios do que em ciúmes imaginara...

No meio da exposição e elogios que lhe faziam de delirantes vestidos, Elvira preocupada e menos circunspecta voltou-se rápida, e sem explicações nem despedida saiu acelerada.

A modista, que acudira ao seu chamado, e que assim ficara sem saber como com um vestido entre as mãos e a freguesa em retirada, disse em francês às companheiras:

- Esta senhora trouxe e leva ou o marido ou o amante em incêndio na cabeça.

Vejam como a senhora mais honesta, e nenhuma podia sê-lo mais do que Elvira, se expõe por imprudentes comoções mal contidas a maus e injustos juízos!...

Mas, feliz coincidência, quando Elvira, tendo descido a escada, voltava pela sala central para a primeira loja, Alexandre vinha da segunda para subir ao sobrado.

Era isso ao mesmo tempo, e ainda assim tão desatinados ambos, que já passavam sem se ver, nem dar um com o outro, quando Elvira que era sempre mulher, ao olhar-se embora sem parar a um espelho, viu nele a imagem de Alexandre em rápido vôo, e gritou-lhe doce e anciosamente.

- Alexandre!...

O final da história adivinha-se.

Os dois noivos namorados quase que se abraçaram ali mesmo, mas ainda bem que apenas risonhos e aditados limitaram-se a apertar as mãos em consideração aos circunstantes.

Ah! e se não fosse o espelho?!!

Eram duas e meia horas da tarde quando Alexandre e Elvira perdidos um do outro desde mais de uma hora conseguiram encontrar-se!...

Que se mirem naquele espelho as minhas exmas. leitores e os meus leitores, para que penetrando naquela imensa república de lojas confederadas, de territórios anexos, de portas de entrada e de saída e de labirintos do sobrado da grande e espaçosíssima loja de modas Notre Dame de Paris não se exponham por leve descuido a perderem-se alguma vez os pais e as filhas, os maridos e as esposas, como aconteceu a Alexandre e a Elvira!

Agora cumpre-me declarar que a história ingênua de Alexandre e de Elvira foi por mim imaginada sem malícia alguma e só no intuito de oferecê-la em despedida às minhas exmas. leitoras, e amolados leitores, pois que recebem aqui o seu ponto final as Memórias da Rua do Ouvidor.



*****

Memórias da Rua do Ouvidor
Autor: Joaquim Manoel de Macedo

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII
Capítulo XIX (Final)
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