sábado, 16 de janeiro de 2010

Livro - Til - Capítulos XIV, XV e XVI

XIV

A VESPA

Onde sumira-se Berta, que não a descobria Miguel já cansado e aborrecido de a procurar por quanta moita e sebe ali havia?

Ouvindo Linda falar dos sustos de D. Ermelinda a propósito da viagem de Luís Galvão, sofrera a menina um choque violento, que redobrou quando foi proferido o nome de Jão Fera, o terrível capanga, a quem poucos momentos antes encontrara, e do qual se contavam coisas inauditas.

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No olhar que relanceou-lhe Miguel, avivaram-se as palavras que recentemente haviam escapado ao moço, quando falava das desgraças que sempre acompanhavam o aparecimento daquele homem sinistro em qualquer lugar.

É verdade que muitas vezes, como confessara a Miguel dissuadindo-o de tais idéias, costumava ela encontrá-lo naquelas mesmas paragens, durante as longas excursões que fazia pelos campos. Mas, recordando-se do aspecto e modo com que nessas ocasiões lhe aparecia Jão, reconheceu que nessa manhã trazia o capanga no vulto e no semblante o que quer que fosse de soturno e ameaçador.

- Nos outros dias, parecia-me tão bom e humilde. Custava-me a crer todo o mal que dizem dele; e até as vezes dava-me na vontade perguntar-lhe se era verdade. Mas tinha pena dele. Havia de afligi-lo muito. São coisas ruins as que por aí contam. Meu Deus! É possível que se mate gente assim com tamanha barbaridade?... Aquela cara amarrada que ele tinha hoje; e os olhos fundos, e os modos arrebatados... Bem se via que levava uma maldade no pensamento. E para que nos veio seguindo por dentro do mato até junto da tronqueira, e depois sumiu-se para a banda da Ave-Maria, de que Linda falou há pouco, e por onde o sr. Galvão não tarda a passar?... Ah! o coração me diz: Ele está na tocaia, e é para o sr. Galvão mesmo!

Estas reflexões tumultuavam no espírito de Berta, que rompia o mato, fustigando o rosto pelos ramos das árvores e magoadas as mãos em partir as enrediças.

Ao recobrar-se do soçobro que tivera, escutando as palavras de Linda, ela afastara-se a pretexto de subir de novo o outeiro, e certificar-se da altura em que iam os viajantes. Descendo porém rapidamente a outra encosta, penetrou na floresta e desapareceu, antes que pudesse o Afonso já à cata, seguir-lhe a pista.

Valia a Berta conhecer perfeitamente o sítio, que muitas vezes antes percorrera com Miguel. A Ave-Maria ficava muito perto dali, para quem atalhava o caminho, levando rumo direto por entre a brenha e ao longo do costão que alombava o penhasco até a azinhaga. Uma vereda havia que serpejava pelo dorso do espigão e saía no tope da garganta.

A estrada principal da fazenda, por onde seguira Galvão, descrevia uma larga curva contornando as terras a que servia de extrema, e vinha passar em pequena distância à direita do Tanquinho, cerca de uma milha da casa das Palmas, situada no recosto da esplanada.

Calculou Berta portanto que tinha sobre o viajante um grande avanço e podia alcançar antes dele a azinhaga, para certificar-se de que a passara incólume, ou para salvá-lo de qualquer modo, que a menina não podia imaginar.

Para isso, porém, era indispensável que o mato não lhe tolhesse o passo nem embaraçasse a carreira; e pois buscava ela descobrir o trilho no alto do espigão.

Não pode achá-lo. A perturbação em que a deixara em choque, aumentada com a convicção de estar Jão na tocaia, lhe roubara a calma necessária para orientar-se no meio daquele dédalo inextricável, tecido pelas guitas dos cipós e vergônteas das árvores.

De súbito estremeceu ela, ouvindo estalar os ramos com violência despedaçados, farfalhar a folhagem rudemente agitada e reboar nas abóbadas da floresta o estrupido de um passo duro e pesado.

Gente ou bruto, o que era, rompia pela mata abrindo passagem a rápida carreira, que não encontrava obstáculo para detê-lo.

Dir-se-ia a disparada de uma anta, se não fosse uma certa ondulação do rumor que indicava não levar a corrido alvo certo, mas desviar-se para um e outro lado, fazendo voltas, como se a dirigisse uma vontade, perplexa no rumo, embora impetuosa na investida.

Parando para concentrar um momento a atenção convenceu-se a menina que a seguiam; e sua fronte decidida vibrou um gesto de soberba contrariedade. Chamando a si toda a energia de seu caráter e todas as forças de sua fina têmpera, Berta de novo arremessou-se, e rompeu o mato com o desespero de escapar à perseguição.

Infelizmente, quando ela supunha ter ganho vantagem, caiu em uma sebe emaranhada; e aí ficou enleada pelas meadas de enrediças que fazia entre os galhos das árvores um tecido de folhagem. Debalde tentou a menina desvencilhar-se; cada vez mais se prendia.

Entretanto se aproximava dela rapidamente o som da outra corrida, e não tardaria muito que chegasse ali.

Ocorreu então a Berta uma idéia, encolhendo-se dentro do esconderijo, que lhe deparara tão propício acaso, quedou-se à espera, sem rumor, cortando sutil com os dentes as cordas dos cipós que a enleavam.

Chegou enfim a corrida e passou como um turbilhão cerca de duas braças do lugar onde ela estava sem que se pudesse distinguir mais do que um vulto pardo, que bruxuleou entre o maciço da folhagem. Algum tempo aquele tropel serpejou cerca, até que perdeu-se na distância.

Surdiu Berta do esconderijo, onde aproveitara o tempo, não só a destrinçar a teia que a envolvia, como a coligir as vagas lembranças daqueles sítios. Lá não muito longe, vira ela sob as crastas de verdura descarnar-se o rochedo; a vereda passava por cima.

Caindo em fim no treito, precipitou a corrida, e de um fôlego chegou à brenha da azinhaga. Aí hesitou um instante. Em que ponto do despenhadeiro estaria de emboscada o capanga? Onde e como descobri-lo? Chegaria a tempo? Não seria frustrada a louca esperança que a trouxera?

A cada momento parecia-lhe que estourava o bacamarte, ali talvez bem perto dela; e que todo seu impetuoso afã não lhe servira senão para ser testemunha de uma atrocidade infame: o assistir aos últimos arrancos do fazendeiro, a quem viera salvar.

Nisto soou rumor do lado das Palmas. Já o estrupido reboava nas lôbregas socavas, sinal de que os animais pisavam a chapada que servia de respaldo à entrada do despenhadeiro. Era Luís Galvão, não podia ser outro.

Cega, desvairada, a menina quis arrojar-se naquela direção para fazer parar o viajante e impedir-lhe que passasse. Mas diante dela abria-se um barranco profundo. Lançando olhos ansiados em torno, lobrigou entre a folhagem um vulto negro; e ficou hirta. Reconhecera a camisa de baetão preto que trazia naquela manhã Jão Fera; e a um movimento de cabeça vira o colo musculoso distender-se como serpente.

Era, com efeito, o capanga, que, advertido pelo tropel dos animais, espreitava, com a faca apunhada, o momento de arrojar-se à frente.

Como dissera Luís Galvão ao almoço, o bugre não feria de emboscada; lutava de rosto, e corpo a corpo, barateando a vida. O bacamarte descansava encostado ao tronco; e o chapéu caído ao chão, deixava em pleno ar a cabeça revolta, que fervia-lhe com o jorro de sangue arremessado pela sanha a subverter-lhe o coração.

Aproximava-se Luís Galvão; e Berta presa de um espasmo de horror, que lhe sufocara a voz e crispara o corpo, não podia soltar um grito, nem dar um passo para preveni-lo.

Chegara o fatal momento.

Colhendo o lombo como o tigre para distender o salto, Jão Fera arrancou. A nuca, porém, lhe vergara contra os ombros, ao impulso de mão invisível que lhe travara os cabelos. Ao mesmo tempo soava-lhe ao ouvido uma palavra soturna, mas carregada de cólera e desprezo:

- Malvado!...

O capanga voltou-se rápido e feroz como o tigre picado pela vespa. Estava em face de Berta.


XV

O RELICÁRIO

Era medonha a catadura de Jão Fera quando voltou-se.

A fauce hiante do tigre, sedento de sangue, ou a língua bífida da cascavel, a silvar, não respirava a sanha e ferocidade que desprendia-se daquela fisionomia intumescida pela fúria.

Berta, ao primeiro relance, sentiu-se transida de horror; e o impulso foi precipitar-se, fugir, escapar a essa visão que a espavoria. Reagiu, porém, a altivez de sua alma e a fé que a inspirava.

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Travando as mãos ambas um galho que encontraram acaso atrás da cintura, e crispados os braços como duas molas de aço brandidas, conseguiu manter-se com o talhe ereto e a fronte sobranceira, arrostando em face aquela rábia formidável, que terrificaria ao mais bravo.

Jão Fera, reconhecendo a menina através da nuvem de sangue que lhe inflamava o olhar, e vendo-a afrontar-lhe os ímpetos, não abateu logo de todo o fero senho, mas foi-se aplacando a pouco e pouco. A ira que se arrojava do seu aspecto, retraiu-se e de novo afundou pelas rugas do semblante, como a pantera que recolhe à jaula, rangendo os dentes.

Sua alma se impregnava do fluido luminoso dos olhos de Berta, e ele sentia-se trespassado pelo desprezo que vertia no sorriso acerbo esse coração nobre e puro, sublevado pela indignação. De repente começaram a tremer-lhe os músculos da face, como os ramos do pinheiro percutidos pela borrasca; e as pálpebras caíram-lhe, vendando-lhe a pupila ardente e rúbida.

- Estavas aqui para matar alguém? perguntou a menina com um timbre de voz, semelhante ao ringir do vidro.

Respondeu o capanga com uma palavra, que em vez de sair-lhe dos lábios, aprofundou-se pelo vasto peito a rugir como se penetrasse em um antro.

- Estava.

- Que mal te fez essa pessoa?

- Nenhum.

- E ias assassiná-la?

- Pagaram-me.

- Então, matas por dinheiro? perguntou Berta com a veêmencia do horror, que lhe causava essa torpe exploração do crime.

- É meu ofício! disse Jão Fera com uma voz calma, ainda que grave e triste.

- E não te envergonhas?

Com um assomo de soberba indignação foram proferidas estas palavras pela menina cujo olhar vibrante flagelava as faces do sicário. Este erguera a fronte num ímpeto de revolta, pungidos os brios pela humilhação:

- Envergonhar-me de que? Não feri, nunca feri homem algum de emboscada, às ocultas, a meu salvo. Ataco de frente, a peito descoberto. Se mato é porque sou mais valente e mais forte; mas arrisco minha vida, e umas quantas vezes, bem mais do que esses a quem despacho, pois sou um só contra muitos.

- Que importa isso? A miséria está em venderes a vida de teu semelhante, se acaso és tu homem e não fera como te chamam.

Um riso de ironia feroz arregaçou o lábio do capanga.

- E a vida é coisa que não se venda? Aí estão comprando-a todos os dias e até roubando. A minha, não a queriam, quando me recrutaram? Foi preciso barganhar por outra, senão lá ia acabar em alguma enxovia.

- Assim não te causa a menor repugnância derramar o sangue de teus semelhantes em troca de alguns vinténs?

- Sangue de gente, ou sangue de onça, todo é um; tem a mesma cor, e a mesma maldade. Já estou acostumado com ele. Sente-se a fumaça do churrasco. Eu gosto! Disse o sicário dilatando as narinas, como se esquisito aroma lhe prurisse o olfato.

- Tu és um monstro! disse Berta afinal com uma explosão de horror. Quando te pintavam como um assassino, autor dos maiores crimes e capaz de cometer toda a espécie de atrocidade, eu não queria crer; porque duvidava que um homem pudesse transformar-se em um tigre carniceiro; e também porque tantas vezes te vi tão sossegado e cuidados comigo, e eu não podia imaginar que se pudesse ter esse rosto bom e tranqüilo, tendo-se dentro do coração uma caninana.

A estas últimas palavras, em que a voz da menina sombreara-se com uma entonação afetuosa, o corpo robusto do capanga oscilou com íntima e rija vibração, como o prócero ibiratã quando a seiva exuberante irrompe lascando-lhe o tronco. Na expansão violenta de sua alma, arrojava-se ele aos pés de Berta e ia cair-lhe de joelhos, quando um olhar embaciado e glacial o reteve ofegante e esmagado:

- Agora creio em tudo no que me disseram, e no que se pode imaginar de mais horrível. Que assassines por paga a quem não te fez mal, que por vingança pratiques crueldades que espantam, eu concebo; és como a suçuarana, que às vezes mata para estancar a sede, e outras por desfastio entra na mangueira e estraçalha tudo. Mas que te vendas para assassinar o filho de teu benfeitor, daquele em cuja casa foste criado, o homem de quem recebeste o sustento; eis o que não se compreende; porque até as feras lembram-se do benefício que se lhes fez, e tem um faro para conhecerem o amigo que as salvou.

- Também eu tenho, pois aprendi com elas; respondeu o bugre; e sei me sacrificar por aqueles que me querem. Não me torno, porém, escravo de um homem, que nasceu rico, por causa das sobras que me atirava, como atiraria a qualquer outro, ou a seu negro. Não foi por mim que ele fez isso; mas para mostrar ou por vergonha de enxotar de sua casa a um pobre diabo. A terra nos dá de comer a todos e ninguém se morre por ela.

- Para ti, portanto, não há gratidão?

- Não sei o que é; demais, Galvão já pôs-me quites dessa dívida da farinha que lhe comi. Estamos de contas justas! Acrescentou Jão Fera com um suspiro profundo. Assim não era por ele que eu o queria poupar; mas por outra pessoa.

O capanga quis fitar na menina a pupila ardente; mas não teve forças de erguer o olhar, que pesava-lhe como uma trave e abatia-se no chão:

- Foi por mecê, disse a voz submissa.

- Por mim? Por mim; e entretanto estavas aqui; e ias matá-lo?

- Quando ajustei, não sabia e gastei o dinheiro. Agora não tenho para restituir...

- Pois eu não quero, ouves, não quero que lhe toques!

Jão Fera estremeceu:

- Empenhei minha palavra! disse o capanga inflexível como a fatalidade.

- Desempenha!

- Se pudesse! exclamou Jão com o acento do desespero, e concluiu sucumbido:

- Não tenho quarenta mil réis!

Um riso estridente de cólera escarninha agitou o lábio de Berta.

- Dinheiro? Por que não o roubas? Tens vexame? Um assassino que farta-se de sangue, com o escrúpulo de meter a mão na bolsa alheia. Ah! Ah! Ah!...

A tortura que sofria Jão Fera não se descreve. Foi com a voz estrangulada por dores cruentas que ele balbuciou:

- Jão Bugre é um homem de honra!

- Ah! és um homem de honra! Pois então vai, corre! Aquele que escapaste de assassinar te dará de esmola o preço por que ajustaste sua morte, como te deu outrora o pão com que matavas a fome!

Ante este último e pungente sarcasmo o capanga sucumbiu, desfigurando-se horrivelmente. Nas crispações do rosto, como nos espasmos das pupilas, sentiam-se as vascas da convulsão que laborava aquela alma.

- Jura que o respeitarás!

- Não posso! murmurou o capanga com um arranco.

- Jura!

- Minha palavra!...

Era tal a angústia dessa voz soluçante, arquejada por uma ânsia do coração, e tamanha desolação cobria aquela organização possante e indômita, agora esmagada sob a mão frágil de uma criança, que Berta comoveu-se profundamente.

- Toma, vende e desempenha a tua palavra!

E estendeu-lhe a mão com o cordão de outro que tirara do pescoço e ao qual estava preso o amuleto e a cruz.

- O que! disse Jão abaixando a cabeça para distinguir o objeto, tão cedo estava da agonia daquele transe.

- O relicário de minha mãe!

Estalou com um grito horrível e bravio o peito de Jão Fera, que arremessando-se longe, desapareceu nas brenhas.

Foi o tempo em que pela rampa do barranco despenhava-se um corpo humano, que veio cair estrebuchando aos pés da menina, com a gorja a estertorar e os dentes a ranger.

Berta o reconheceu.

Era Brás, o idiota.

XVI

A SURA

Na entrada do vale, onde assenta a freguesia de Santa Bárbara, via-se outrora à margem do Piracicaba, encontra o rio, um velho casebre.

Era uma antiga construção de taipa; e mostrava com pouca diferença o aspecto comum às habitações medianas que, naquela parte da província de São Paulo, se encontram de espaço em espaço pela beira do caminho e à distância dos arraiais e povoados.

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A porta de entrada ficava no meio entre duas janelas estreitas em vez de vidro. Tanto as portadas, como as folhas, estavam cobertas de uma pintura cor de ferrugem, que destacava na parede da frente, branquejada com tabatinga.

A um lado da casa cresciam umas encarquilhadas laranjeiras da China e um pessegueiro; no outro havia canteiros, onde espigavam no meio da ervagem couves gigantes, já com pretensões a arbustos, de tão velhas que eram.

Mais longe, no gramado se erguia um frondoso pau-ferro, a cuja sombra costumavam se abrigar da calma, durante a sesta, um cavalo magro, uma vaca e alguns bacorinhos, que levavam o resto do dia a roer o capim já tosado até a raiz.

Mediavam três dias depois que Berta salvara a vida a Luís Galvão, retendo o ímpeto de Jão Fera.

Amanhecera de pouco. Estava um dia de inverno frio e brumoso. Forte cerração cobria o vale, condensando-se ao longo do rio. A trechos, grossos borbotões de neblina mais espessa desdobravam-se do viso dos montes ao sopro da viração, e rolavam como vagas por esse mar de névoas.

Vistas através do véu, as árvores tomavam um aspecto pavoroso e fantástico, e às vezes figuravam os espectros, de que a abusão povoa os ermos, a fugirem espancados com os primeiros albores do dia.

Abriu-se a porta que dava para a varanda, corrida nos fundos da casa, e assomou o vulto gentil e esbelto de uma moçoila que trazia ao braço um saco de chita. Apesar da cerração, era fácil de conhecer Berta, pela garridice petulante dos gestos e meneios.

Aos saltinhos, ganhou a menina o quintal onde havia um pequeno jardim, se tal nome cabe a moitas de roseiras, manjericão e malmequeres plantados de mistura e sem arte dentro de um cercado de varas, entre as quais estavam suspensos alguns cacos de barro com pés de craveiros.

Apenas afastou Berta a faxina que servia de porta ao cercado, saiu debaixo de sua palhoça uma galinha sura e muito arrepiada. Não tinha pés a pobre, que lhos havia roído à noite os ratos; andavam aos trancos, sobre os cotos que mal a ajudavam a saltar, e incapazes de sustê-la, a deixavam cair a cada passo, cobrindo-a de terra, o que a fazia mais feia ainda.

Tanto que a avistou, correu a menina a seu encontro e tomando-a ao colo, deu-lhe a comer um punhado de milho que tirou do saco. Farta a galinha da sua pitança, levou-a Berta à bica, para matar-lhe a sede e lavar-lhe as penas sujas de poeira e cisco.

Depois que assim desvelou-se em pensar a pobre ave, dando-lhe nutrição e asseio, a menina deitou numa palhoça, que a seu rogo fizera Miguel num canto do cercado, para abrigo de sua protegida.

Nos gestos de Berta, durante esses cuidados, já não se notava a travessa alacridade que cintilava de ordinário em seus movimentos; e era, pode-se bem dizer, a radiação de seu gênio. Sua graça então era séria; havia em seu lindo semblante uma serena efusão da ternura que fluía-lhe dos olhos meio vendados e dos lábios descerrados por um riso gentil.

Bem se conhecia, ao vê-la embebida naquela ocupação, que não havia aí para ela unicamente o atrativo de uma afeição de criança, como todos na meninice sentimos, uns pelas bonecas, outros pelos cães ou passarinhos. Impulso mais forte era o que movia o coração de Berta para aquele mísero ente, como para todo o infortúnio que encontrava em seu caminho.

Ninguém na casa se importava com essa galinha, a não ser para fazer-lhe mal. Antes de perder os pés, por ser feia e arisca perseguiam-na a pedradas, quando aparecia no quintal. Depois que a roeu a ratazana, esteve ameaçada da panela, donde a salvou Berta, que desde esse dia a tomou a seu cuidado.

Daí em diante, não houve mais quem bolisse com a sura; porque sabiam que não o sofreria sua linda protetora. E como todos queriam a Berta de coração, o ponto era mostrar ela predileção por alguma pessoa, ou mesmo objeto, que porfiavam por lhe adivinharem os pensamentos.

Tendo acomodado a galinha na sua capoeira coberta de palhas e mudado a água do caco, a menina que derramara pelo chão um punhado de milho e couve, entreteve-se alguns instantes a ver suas flores, umas já de véspera abertas, outras botão como ela, esperando o primeiro raio de sol para desabrocham.

Entre eles, colheu um de rosa que entrelaçou nos cabelos; e deixando o quintal, sem demorar-se com as outras galinhas que a cercavam cacarejando, e às quais atirou de passagem o resto do milho, ganhou o campo.

Estendia-se este com pequenas ondulações até a margem do rio, que ficava a umas cem braças da casa. Entre as pitas e crautás, que formavam touças aqui e ali, em torno de algum arvoredo, serpejavam trilhos, cruzando-se em várias direções.

Seguiu Berta por aquele que estendia-se na direção do rio. Não tinha, porém, dado vinte passos, que voltou-se rapidamente, ouvindo rumor da porta da varanda que outra vez se abria.

Por entre a folhagem e através da neblina viu ela o vulto de Miguel, que parara no quintal, volvendo o rosto de um a outro lado, como indeciso no rumo que devia tomar. Adivinhou logo a menina que o rapaz lhe percebera a saída e vinha disposto a acompanhá-la.

Ocultou-se então em uma das touceiras, que embastiam as cortinas de erva-de-passarinho, pendentes das ramas de uma velha laranjeira do mato. Daí observou Miguel, o qual depois de vagar um instante perplexo pelo campo, meteu-se pela vereda paralela ao rio, e pouco depois desapareceu por detrás de uma ponta de capoeira.

Continuou então Berta o seu caminho; mas receosa de que o rapaz a estivesse espreitando ou voltasse de repente, ora avançava trêmula de susto, hesitando a cada passo e de chofre escondendo-se atrás das árvores, ora disparava a correr para encobrir-se no mato que bordava o sopé da colina.


*****

Autor: José de Alencar

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Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulos 11, 12 e 13
Capítulos 14, 15 e 16
Capítulos 17, 18 e 19
Capítulos 20, 21, 22 e 23
Capítulos 24, 25, 26 e 27
Capítulos 28, 29, 30 e 31 (Final)
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