sábado, 19 de dezembro de 2009

Livro - TIL - Capítulos XI, XII e XIII

XI

NO TANQUINHO

Depois da pequena pausa que tinham feito, apressaram os dois irmãos o passo, a fim de ressarcir a perda do tempo, que pouco tinham para o passeio até a hora habitual do almoço.

Assim atravessaram os canaviais, divididos em alqueires por largas alamedas e carreadores mais estreitos.

Nessa ocasião, não repararam como de costume no verde-gaio e risonho daquelas ondas de folhas que flutuavam graciosamente ao sopro da brisa; nem ouviram os brandos cicios, tão doces ao ouvido, como é ao paladar a polpa deliciosa dos gomos.

Continue lendo clicando aqui!

Entraram em seguida na roça, onde o feijão estava em flor e o milho espigava, agitando os seus louros pendões. Logo adiante ficavam os vastos cafezais, recentemente carpados e já frondosos para mais tarde se cobrirem de bagas escarlates, como fios de corais, entrelaçados pela folhagem de brilhante esmeralda.

Aí à sombra dos renques de cafezeiros, descansavam os pretos recebendo a ração do almoço, que as rancheiras de cada turma dividiam pelas gamelas e palanganas que lhes apresentavam.

Passaram os dois irmãos apressadamente e sem dar-lhes mostra de atenção, para não perturbar-lhes o descanso e a refeição.

Além, na assomada de uma colina frondava um vistoso ramalhete de palmeiras de diversas espécies, entre as quais avultava o jeribá com seus lindos penachos. Chamavam a este lugar o Palmar e dele proviera o nome à fazenda.

Pela encosta da colina estendia-se o pasto; e na base estava uma capuava onde já se começara o trabalho da derrubada, e se afolhavam as terras destinadas à lavoura de mantimentos, dividindo-a em quartéis, como os partidos de canas.

Fronteiro ao Palmar, ficava um grande feital que prolongava-se até a orla da mata. Essa terra descansada desde muitos anos já estava convertida em capoeira, que invadindo os carreadores deixava a descoberto apenas o trilho batido pela constante passagem.

Por essa vereda meteram-se os dois irmãos, Afonso adiante, malhando com o bastão os tufos de capim e relva para espantar as cobras; Linda no encalço, rocegando a fímbria da saia de musselina para guardá-la dos orvalhos. Foram sair em pequeno gramado, de um pitoresco encantador.

Parecia esmero de arte o sítio aprazível; não que possa o gênio do homem jamais atingir os primores da criação; ordenara, porém, muitas vezes e resume em breve quadro cenas que a natureza só desdobra em larga tela; e colige em uma só paisagem cópia de belezas que andam esparsas por vários sítios.

Desenhava-se o pequeno e mimoso prado em oval alcatifado e com a alfombra de relva e cingido quase em volta pela floresta emaranhada, que a fechava como panos de muralha, cobertos de verdes tapeçarias e vistosas colgaduras, apanhadas em sanefas e bambolins de flores. À face oposta assomava a soberba colunata do Palmar que estendia-se até ali, formando arcarias góticas, fustes elegantes em estilo dórico e arabescos rendados de maravilhoso efeito.

À margem do Tanquinho, bonito lago formado pela represa de um ribeirão, que saía gorgolando do mais embrenhado da floresta e traçava meandros entre as palmeiras para perder-se no pasto, uma figueira brava esfraldava os ramos, em esparavel, ensombrando a pelúcia de relva.

Aí próximo contornava-se um outeirinho coroado de uma grinalda de juncos floridos, donde borbulhava também um fio d’água que alimentava o lago. De seu tope descortinava-se a casa das Palmas e toda a várzea até a margem do Piracicaba.

Ao entrar no descampado, ca[iram os olhos de Afonso direto sobre o tronco da figueira e voltaram-se logo desconsolados para Linda. Os dois irmãos trocaram um sorriso displicente.

- Não vieram, disse Afonso.

- Já foram.

- Não há tal.

Levou o moço as mãos à boca e apitou. Não teve resposta.

- Então?

- É que já estão longe!

- Não tinham tempo.

- A culpa é sua.

- Quem primeiro buliu com o outro?

- Eu hei de contar à Berta.

Depois de uma pequena volta pelo prado, os dois irmãos cuidaram de voltar do insípido passeio que tão malogrado fora.

Entretanto não estavam longe aqueles que se supunham encontrar, conforme o costume, à sombra da figueira; e eram, como já se adivinhou, Miguel e Inhá a quem Linda tratava pelo nome.

Afastando-se de Miguel para passar a tronqueira, dera a menina ao talhe uma inflexão sedutora. Daquela travessa rapariga, com ares de diabrete, surgira de repente a mulher em toda a brilhante fascinação, na plenitude da graça irresistível que rapta a alma, e a arrasta após si cativa como um despojo, de rojo pelo chão e feliz de rojar-se-lhe aos pés.

Miguel levou as mãos aos olhos julgando-se ludíbrio de uma visão, e deslumbrado foi seguindo a menina sem consciência do que fazia.

Não voltou Inhá a cabeça, mas tinha ela a certeza de que o moço a acompanhava enlevado pelo garbo de seu passo, como pelo flexuoso requebro de seu talhe donoso.

Dirigiu-se a menina a uma aberta, que havia entre o palmar e a mata e dava caminho para o prado. Também ela ia pressurosa ao encontro da amiga e camarada de infância, cuidando já encontrá-la no lugar emprazado, à sombra da figueira.

Ouvindo o apito de Afonso, deitou a correr; e Miguel despeitado com a sofreguidão que ela mostrara, deixou de responder ao camarada como costumava.

Chegou Berta à precinta do prado, justamente quando os dois irmãos iam desaparecer na vereda por onde tinham vindo.

- Linda!

- Ah! Berta! Eu não disse que ela vinha!

- Chegou agora, acudiu Afonso. Que dorminhoca!

- Hoje não quero graças com o senhor! replicou Berta comum sério petulante.

- Deveras! Pois estamos mal.

- Veio sozinha?

- Miguel aí vem; está se fazendo de rogado. Olhe!

Com efeito, Miguel apareceu da outra banda da esplanada.

- Quer campar de sério; mas aquilo é um maganão! Sonso como ele só; parece com certa pessoazinha que cá sei.

- Está bom, mano, eu lhe peço! balbuciou Linda acesa em rubores.

- Então Miguel, chegas ou não chegas? Queres um cavalo para a viagem. Aqui tens.

E o faceto rapaz apanhando um ramo seco, fez dele um cavalo de pau, e lá se foi galopando oferecer a montaria ao camarada.

- Sai! Não estou para brincadeiras, disse Miguel.

- Que têm você hoje? Chegam aqui ambos de nariz torcido... Acaso viram borboleta preta no caminho?

- Assim, Afonso, brigue com ele! exclamou Berta batendo com a mão direita fechada na palma da mão esquerda. Eu cá já estou contente; vi um passarinho verde!

- Mas vamos a saber, Miguel! Se é comigo que você está zangado, diga a razão. Que lhe fiz eu?

Tão franca era a fisionomia de Afonso ao proferir estas palavras, e tão cordial afeto ressumbrava de sua voz, que Miguel correu-se de seu injusto ressentimento contra o amigo, e de todo lhe desvaneceram no coração os ressaibos de ciúme, que o pungiam.

- Engano seu, Afonso. Não estou zangado com você. Vinha pensando em uma coisa desagradável, mas já se foi, respondeu Miguel com um sorriso de efusão, apertando comovido a mão do camarada.

- Ai! Ai! Cuido que houve sua briga entre os dois! Não lhe parece, Linda?

- Não sei; por que haviam de brigar?

- Pois eu lhe digo o que foi, acudiu Inhá. Miguel quis deixar-me no caminho e ir caçar!

- Ah! exclamou Linda, com um trêmulo na voz maviosa. Não queria vir!

- Mas era só para me fazer pirraça! tornou Inhá. E senão veja, Linda; como eu lhe disse que não me importava com isso e vinha mesmo, logo ele não falou mais em caça, e veio pescar seu peixãozinho!...

- Berta!... murmurou Linda puxando a manga do corpinho da amiga.

- Uma piabinha do rio, não é, Inhá? dissera Afonso de envolta com uma gargalhada gostosa, que Inhá acompanhava com os trilos argentinos de seu riso fresco e puro.

- Não sei de que estão a rir com tanto gosto, observou Miguel enleado, sem ânimo de erguer os olhos para Linda.

- Acham graça em uma coisa à toa.

Súbito no mato soou um grito bravio, e logo após a voz estranha, ao mesmo tempo saturada de dor e impregnada de sarcasmo, lançou em uma gama estridente este clamor incompreensível:

- Til!... Til!... Til!... Oh! Til!...

XII

IDÍLIOS

Eram freqüentes os encontros dos dois lindos pares de passeadores no Tanquinho.

Vinham semanas em que se repetiam todas as manhãs, a menos que as chuvas não permitissem, ou que Berta e Miguel fossem à casa das Palmas, o que sucedia regularmente aos domingos e dias de festa.

Continue lendo clicando aqui!

O amor, tão bonina dos prados, quanto rosa dos salões, quando o orvalham risos da mocidade; o amor puro e suave, como a cecém daquele prado, tinha já florido os corações que lhe respiravam pela manhã os agrestes perfumes.

Nem isto é mais segredo; e, pois, não se comete uma indiscrição em contar o que só não sabiam D. Ermelinda e seu marido.

Afonso, este namorava Berta às escâncaras, com o recacho e brinco próprios de seu gênio. Essa mesma sinceridade e desplante de seu afeto eram véu para ocultá-lo a olhos suspicazes. Quem o via sempre a gracejar com a menina, acreditava que isso não passava de travessura de moço folgazão sem tinta de malícia.

Linda, quando os olhos de Miguel pousavam-lhe na face, corava e sentia o tímido coração bater apressado. Não raro, o instinto de delicadeza que recebera de sua mãe, advertia-lhe da distância que separava dela o moço pobre e de mesquinha condição.

O amor, porém, é contagioso, com especialidade na solidão, onde a alma tem necessidade de uma companheira, e quando de todo não a encontra, divide-se ela própria para ser duas: uma, esperança; outra, saudade.

As confidências do irmão; as longas e constantes conversas a propósito do mesmo tema, sempre novo; os episódios singelos do idílio, arrufos ou encantadores segredos; essas asas fagueiras do amor roçavam a todo o instante o coração da moça e deixavam-no impregnado de ternura afetuosa. Entretanto Miguel não se apercebia disso. Acreditava sim, que Linda o tinha em estima por causa de Berta, e dispensava com ele o trato ameno e gentil, inspirado pela bondade d’alma e fina educação.

Assim, voltava ele à menina um respeitoso afeto, ungido pela gratidão que nele acendia as maneiras singelas e benévolas da moça; e também repassado da serena admiração de artista que sentia ao contemplar-lhe a peregrina beleza. Mas não lhe pulsava o coração com os ímpetos da paixão; nem a imagem graciosa de Linda flutuava nas cismas de sua fantasia.

A presença da moça produzia-lhe na alma certo refrangimento, embora de grata deferência; era como a palma do jeribá que fecha com os relentos da noite, e somente se engrinalda e brilha aos raios do sol.

Para Miguel os momentos de expansão e doce contentamento não eram tanto esses passados aí no Tanquinho, como os outros mais festivos e mais lembrados em que sós, Inhá e ele, atravessavam a várzea na ida e na volta.

De Berta, que direi? Com todos brincava; a todos queria bem, e sabia repartir-se de modo que dava a cada um seu quinhão de agrado. Em roda ferviam os ciúmes de muitos que a ansiavam só para si, e penavam-se de vê-la desejada e querida de tantos. Mas como um sorriso ela trocava tais zelos em extremos de dedicação, e o pleito já não era de quem mais recebesse carinho, e sim de quem mais daria em sacrifício.

O gracioso e ingênuo sorriso de seus lábios, era o mesmo, desfolhando beijocas na face de Linda, como zombando de Afonso ou ralhando com Miguel. Não fora o recato da educação, que ela seria muito capaz de fechar os olhos e à sorte lançar o beijo, como um pombinho, para qual dos três mais ligeiros o apanhasse.

Se D. Ermelinda soubesse das freqüentes entrevistas no Tanquinho e suspeitasse dos tácitos emprazamentos que se davam os camaradas, por certo já teriam eles cessado; pois não escaparia à inteligente senhora o perigo de expor o tenro coração de sua filha a uma paixão, bem possível senão provável de gerar-se dessa íntima convivência, que não perturbavam outras diversões próprias para ocupar o espírito de uma menina.

Na casa das Palmas, porém, ignorava-se o habitual encontro; não que o negassem Linda ou Afonso, ambos incapazes de uma mentira. Calavam-se; eis todo seu pecado. De volta do passeio, em família, falavam várias coisas que tinham feito ou observado; mas não tocavam em Berta e Miguel, ou faziam-no de longe.

Em Linda era pudor: quando o nome de Miguel lhe pruria o lábio, ainda não o tinha pronunciado, que sentia arderem-lhe as faces; e por isso o murmurava baixinho dentro do coração. Daí provinha que vendo Afonso o vexame da irmã, por sua parte sofreava nesse particular o seu gênio zombeteiro, e não tugia sobre as entrevistas no Tanquinho.

Quando D. Ermelinda e Galvão tomavam parte no passeio dos filhos, estes por um natural acanhamento não dirigiam a excursão para o sítio favorito; no que os ajudava o fazendeiro, mais solícito em mostrar à mulher a medra viçosa de sua lavoura, que lhe estava prometendo abundantes messes.

Caso alguma vez tomassem para aquele lado, Berta e Miguel pressentindo que os donos da fazenda haviam de reparar se os encontrassem ali, e avisados de longe pelas vozes, que repercutiam com sonoridade que lhe davam as abóbadas de verdura e os acidentes do terreno, retiravam-se antes que chegassem.

Eis como ignorava D. Ermelinda os idílios, que estavam compondo seus filhos, naquele sítio pitoresco, onde bebia-se o amor como um doce efúlvio da natureza. Tudo ali penetrava o coração de emoções deliciosas. Pelo aveludado daquela relva cintilante espreguiçava-se a imaginação, a sonhar o dossel de um divã. Os sussurros da brisa nos palmares segredavam os ruge-ruges das sedas; e o borborinho do arroio imitava o trilo de um riso fresco e argentino.

Quem estivesse nesse lugar a sós cuidaria que aproximava-se uma virgem mimosa, de fronte serena, olhar inspirado e fagueiro sorriso, perfumado de suave fragrância. Quem ali fosse com uma gentil companheira, acreditaria por certo que ela se transfundira nesse sítio nemoroso, como em um grêmio do amor; e nas auras embalsamadas sentira-lhe o mago sorriso a bafejar-lhe as faces; no lago dormente seus olhos límpidos a refletirem-lhe o céu de sua alma; nas hastes das palmeiras, seu talhe mil vezes esboçado com a mesma inata elegância; nas laçarias e festões de trepadeiras floridas, os folhos do amplo vestido; e na pelúcia da grama cambiante às depressões do terreno, a voluptuosa flexão das formas debuxadas pelo corpinho de verde cetim. Como era possível não amara naquela mansão, onde tudo cantava, sorria, palpitava e respirava amor?

A quem era dado abjurar nesse templo nupcial, onde celebrava-se o consórcio entre o vigor e a graça, o perfume e a harmonia, o majestoso e o esplêndido?

Himeneu eterno do vento com a floresta, do rio com a campina, do orvalho com a flor, do sol com a sombra, do céu com a terra.

XIII

SUSTO

Na primeira surpresa do grito inesperado, tiveram os companheiros de passeio um ligeiro sobressalto; mas rápido se desvaneceu.

Tornaram, pois, à conversa, indiferentes ao que passava daí distante; apenas Berta, separando-se do grupo, subiu a correr a assomada da colina, curiosa que estava de saber donde partira o clamor.

Continue lendo clicando aqui!

- Gosta muito de caçar? perguntou Linda com certo enleio a Miguel como se não o conhecesse de muito tempo a seus hábitos.

Mas quem não sabe que ternos segredos e confidências recônditas se insinuam muitas vezes em uma pergunta banal, feita por lábios amantes? Não estava porventura transpirando das palavras da moça um queixume pela preferência dada a uma distração que ela não partilhava?

- É um meio de passar o tempo, respondeu Miguel.

- Não lhe diverte mais ler? Mamãe deu-me um livro mui lindo, que eu acabei ontem. É a Cabana Indiana. Eu lhe... Mano podia emprestar-lhe.

- Já li; disse simplesmente Miguel.

- Não é tão bonito?

- Muito.

- Eu queria ter uma cabana assim, continuou Linda.

Miguel sorriu-se da inocente fantasia da moça, e ela, rasteando-se em seu espírito o fio daquele pensamento, sem aperceber-se de que podiam perscrutar-lhe o resto, voltou-se de novo para o moço.

- O senhor não deseja formar-se?

- Era o meu sonho! replicou Miguel vivamente; e logo retraindo-se ao habitual sossego:

- Mas para que pensar nisto?

- Mano vai no fim deste ano. Podiam ir juntos; seriam dois camaradas para se ajudarem.

- Para viver lá em São Paulo e lá estudar, é preciso ter dinheiro; e esse me falta, disse Miguel em tom de gracejo.

- Papai lhe empresta.

- Não duvido; mas o difícil é pedir-lhe eu.

- Por que razão?

De boa vontade, riu-se Miguel da insistência da menina:

- Quem nada tem de seu, não pede emprestado; salvo quando não pretende pagar.

- É verdade!

Miguel recobrara o bom humor que perdera um instante com os motejos de Berta; e divertia-se com os projetos que Linda formava a seu respeito. Não era ele desses que lançavam à conta dos ricos e fartos a culpa de sua pobreza, e se despeitam contra o mundo da ingratidão da fortuna. Aceitava sua condição como um fato natural e com certa filosofia prática, rara em mancebos.

- Pensando bem, é melhor assim, disse ele a Linda; se eu me formasse, teria ambições que não são para mim, e viria talvez a sofrer grandes dissabores; enquanto que ficando no meu canto, viverei tranqüilo junto daqueles a quem amo. Para que há de a gente afligir-se por coisas que não valem senão dissabores, como vejo tantos fazerem por aí?

Afonso tinha-se apartado, e dando volta ao outeiro preparava-se para pregar em Berta uma das peças costumadas. Já ele se esgueirava sorrateiramente entre a folhagem para tomar de surpresa a menina, quando esta que estivera a olhar na esplanada alguma coisa que lhe chamava a atenção, desceu a correr para a figueira e veio interromper o colóquio.

- Onde vai o sr. Galvão?

- Papai foi a Campinas, onde pretende se demorar alguns dias, respondeu Linda.

- Você não me disse nada.

- Só ontem ele resolveu e contra a vontade de mamãe que ficou tão assustada.

- Por que? perguntou Migue.

- Tem-se falado de esperas que andam fazendo aqui perto, e ontem apareceu junto da fazenda um homem muito mau.

- O bugre!

- Jão Fera? exclamou Miguel trocando um olhar com Inhá.

- Isso mesmo.

Berta cobriu-se de uma lividez mortal, e sua mão trêmula constringiu o seio como para reter o coração que lhe fugia.

- Eu também, prosseguiu Linda sem notar a perturbação da amiga, estou bem assustada. Não quis mostrar para não agoniar mamãe ainda mais do que ela estava; porém quando me lembro que papai tem de passar por esse lugar da Ave-Maria fico fria e toda trêmula.

- Ora menina, deixe-se de faniquitos, replicou Afonso a rir. Senão já chamo o tal Jão Fera para tirar-lhe o susto. É como se faz com as crianças, para não terem medo do calhambola.

- Esteja sossegada, que nada há de acontecer; eu lhe prometo! disse Miguel.

- Obrigada! Mas papai demorou-se muito. Para a hora que saiu já devia estar bem longe.

Fazendo este reparo dirigiu-se a Linda ai outeiro para observar o caminho. Miguel foi a seguindo, esforçando por manter-se de ânimo sereno a fim de não redobrar o susto da moça. Entretanto não deixava ele de estar inquieto e impressionado, recordando-se do encontro que tivera há pouco tempo com o feroz capanga, e sobre o qual julgara prudente calar-se.

- Agora é que passou a ponte! acudiu Linda com a satisfação de ver o pai, e a preocupação do motivo daquela demora.

Ela não sabia do incidente da volta por causa das amostras; mas era ele tão natural que ocorreu a Miguel.

- Talvez tivesse esquecido alguma coisa.

- Há de ser isso. Vamos, mano, que são horas.

- Onde está Berta? perguntou Afonso que a procurava desde alguns instantes.

- Escondeu-se conforme o costume para fazer tutu! respondeu Miguel.

- Berta! chamou Linda.

- Aqui não está. Já corri tudo.

- Dê lembranças a ela, Miguel; não posso esperar; já é tarde.

- Aí adiante a encontra de emboscada no caminho, Linda.

- Se eu a pilho! disse o Afonso apertando a mão de Miguel.

Os dois irmãos atravessaram a capoeira, espreitando por entre as folhas, mas não viram sombra de Berta.

Nesse momento soou de novo o mesmo estranho clamor que antes se ouvira; mas desta vez gania a voz com tal ímpeto e frenesi que estrangulava-se.

- Til! Til! Til...

Na roça estavam os pretos no eito, estendidos em duas filas, e no manejo da enxada batiam a cadência de um canto monótono, com que amenizavam o trabalho:

Do pique daquele morro
Vem descendo um cavaleiro
Oh! Gentes, pois não verão
Este sapo num sendeiro?

Adubavam o mote com uma descomposta risada e logo após soltavam um riso gutural:

- Pxu! Pxu!

Tem os pretos o costume de entressacharem nas toadas habituais, seus improvisos, que muitas vezes encerram epigramas e alusões. Bem desconfiavam, pois, o feitor de que a tal cantiga bulia com ele, e o sapo não era outro senão um certo sujeito bojudo e roliço, de seu íntimo conhecimento; mas fingia-se despercebido da coisa.

Quando passaram os dois irmãos, a um sinal da cabeça de eito, os pretos fizeram um floreio de enxadas, suspendendo-as ao ar com a mão esquerda, e com a direita pediram a benção.

*****

Autor: José de Alencar

Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulos 11, 12 e 13
Capítulos 14, 15 e 16
Capítulos 17, 18 e 19
Capítulos 20, 21, 22 e 23
Capítulos 24, 25, 26 e 27
Capítulos 28, 29, 30 e 31 (Final)
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...