domingo, 6 de dezembro de 2009

Livro - TIL - Capítulo X

X

OS GÊMEOS

Deixando a mãe, separaram-se os dois irmãos para se encontrarem no pátio interior, donde também havia passagem para as jeiras da fazenda.

Linda fora tomar a capelina de fustão branco, e Afonso o boné e o bastão de passeio. Assim preparados, puseram-se a caminho par a par, garrulando como um casal de coleiros que deixam a asa materna para folgarem pela grama ensaiando os primeiros vôos.

- Que fingido é você, mano! dizia Linda. Quando eu lhe perguntei se vinha passear, respondeu-me "se quiser" e estava morrendo!

- Com pena de uma certa pessoa, que não fazia senão olhar lá para a figueira.

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- Que história! disse Linda corando.

- Eu respondi "se quiser" mesmo de propósito; para ver sua tenção. Você não disse ontem que sou eu quem vai todos os dias para aquele lado?

- E é, sim.

- Deveras! Sustente outra vez, e verá se não volto.

- Não, meu maninho do coração, não se zangue. Eu prometi a Berta que hoje havia de ir sem falta. Ela está nos esperando. Vamos; sim?

- Primeiro há de por as mãos e dizer comigo: - "Meu Afonsinho..."

- "Do meu coração..."

- "Eu lhe peço e rogo... que me leve... onde está..."

- Onde está Berta! disse rapidamente a menina que ia repetindo a palavra do irmão.

- "Onde está" insistiu o rapaz uma e duas vezes.

Afinal Linda cedeu:

- Onde está...

- "Meu benzinho!" concluiu o rapaz.

Banhou-se a menina em ondas de púrpura.

- Ah! Mano! disse Linda com um melodioso queixume.

- Assim é que se ensina uma sonsinha! replicou o moço a rir.

- Você me paga! tornou a irmã com um pequeno assomo de revolta. Tenho um certo segredo a para contar a Berta...

- Segredo de mulher! galhofou o irmão.

- Vou dizer-lhe que não se importe com gente ingrata; e como só eu é que me lembro dela, não tome o trabalho de vir cá para ver-me, porque eu não tenho mais com quem passear.

- Você é capaz?

- Sou.

- Uma aposta?

- Não quero; você logra-me sempre.

- Também tenho uma coisa para dizer.

- A quem?

- Não sabe? Faça-se desentendida. A Miguel.

- O que é?

- Que uma certa pessoinha, a qual eu não descobrirei... que essa pessoinha me pediu para... para dar um... a ele já se sabe... um...

- Mano! Não gosto destas graças!

- Um beliscão, menina!

- Você ia dizer outra coisa.

- Ou é você que queria ouvir outra coisa?

- Está bom; me deixe.

Desta vez agastada, Linda afastou-se, voltando as costas ao irmão.

Acompanhou-lhe Afonso o movimento com um ar galhofeiro; e aproximando-se devagarinho, nas pontas dos pés, enlaçou de repente em um abraço o corpo gentil da moça.

- Ai da pombinha! Como está tão jururu! Quem foi que arripiou sua pena, minha rola? Prrru!... Coitadinha! Deixe ver o biquinho!

Estas palavras eram o mote das carícias que fazia o Afonso à irmã, alisando-lhe os cabelos castanhos que a brisa espalhara, amaciando-lhe a mimosa cútis da face, e por fim puxando-lhe o botão de rosa dos lábios, que faziam um delicioso biquinho vermelho, apinhados como estavam com o gracioso amuo.

Não se podia, com efeito, achar mais justa imagem da formosa menina, do que essa que espontaneamente acudira ao espírito poético do rapaz. Naquele momento com a fronte reclinada, as espáduas ligeiramente curvas, pelo recato, as mão recolhidas ao seio, parecia-se com a juruti quando arrufa a doce e macia penugem.

À medida porém que a envolvia a carícia do irmão, ia ela outra vez acetinando-se; o talhe delicado esbeltava-se ao natural; as longas pálpebras franjadas erguiam-se desvendando os grandes olhos pardos cheios de uma ternura ebriante; e finalmente o botão de rosa da boca gentil enflorava-se com sorriso encantador, que derramava sobre o formoso semblante da menina uma luz de leite.

Só não sabe o que isto é, quem não admirou a espécie de cútis mais delicada, tez suave de bonina bebendo os orvalhos da manhã.

Tinha a beleza de Linda um doce alumbre de melancolia, que não era tristeza, pois coavam-se através dos inefáveis contentamentos de sua alma; era sim matiz, que lhe aveludava a graça e influía-lhe um mavioso enlevo. Irmã das flores que vivem nos recessos da floresta, onde se coalham em sombra luminosa os raios filtrados pelo crivo das folhas, respira essa beleza o perfume casto da violeta e da baunilha.

Não se admira a mulher que a possui, porque não exerce a fascinação esplêndida das formosuras que cintilam; mas adora-se de joelhos, porque ela tem a santidade do amor.

Afonso era o retrato da irmã. Pareciam-se como gêmeos e gêmeos tinham nascido. Mas nele a gentileza era um fogo de artifício; a índole jovial, que herdara do pai, lhe estava constantemente a brincar no gesto prazenteiro e nas cascatas do riso cordial e folgazão.

Era tal a parecença dos dois irmãos, que um dia, havia tempos, Afonso lembrou-se de fazer uma travessura. Vestiu-se com roupas da irmã, e tomando uns ares hipócritas, saiu ao encontro de Berta que vinha visitar Linda, como de costume. A moça, cuidando ver a amiga, correu abraçá-la, e cobriu-a de uma chuva de beijos, que lhe foram pontualmente retribuídos.

Foi depois de ter a seu gosto recebido as carícias da moça, e comido-lhe a beijos o saboroso encarnado das faces, que o brejeiro tirando a capelina da irmã, apresentou a sua cabeça de rapaz, desordenada da basta madeixa, que ondulava pelas espáduas de Linda, quando ela a trazia solta no passeio da manhã.

Descobrindo o engano, Berta não se agastou e riu-se gostosamente com o rapaz, da peça que lhe pregara ele; mas desde aí, não beijou mais a Linda sem primeiro olhar-lhe no rosto e os cabelos, para certificar-se que era ela mesma, e não o brejeiro Afonso.

Depois tornou-se impossível a confusão, porque não só o talhe do moço hasteou-se com a têmpera viril, como o fino buço começou a assombrear-lhe o lábio superior e as faces.


*****

Autor: José de Alencar

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Capítulos 20, 21, 22 e 23
Capítulos 24, 25, 26 e 27
Capítulos 28, 29, 30 e 31 (Final)
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