domingo, 6 de dezembro de 2009

Livro - Memórias da Rua do Ouvidor - Capítulo XIII

CAPÍTULO 13

Como em continuação da viagem pela Rua do Ouvidor, mostra-se a casa que foi - loja de perfumarias de Mr. Desmarais, lembram-se muitas das suas maravilhas e modas de penteados - trepa-moleque, a romântica estrada da liberdade, etc., e diz-se como o sobrevivente dos dois velhos Desmarias, retirado dos negócios, se conserva ainda robusto e sempre simpático e alegre, e é hoje o mais hábil dos amadores de pescaria de caniços nos mares de Niterói, o que faz suspeitar benigno influxo dos espíritos das belas pescarias da Rua de Aleixo Manoel. Cumprimenta-se de passagem ao Sr. Bernardo Ribeiro da Cunha. Como a propósito das perfumarias da Rua do Ouvidor incorre-se no despropósito de falar dos antigos tigres que a freqüentavam de noite; referem-se aos infortúnios ridículos de um inglês e de um estudante de Medicina; mencionam-se algumas reformas que houve em matéria de despejo até a inexcedível perfeição da City Improvements. O autor arrepende-se do assunto de que por último tratou, e, desapontado, fica no canto.

Um caminhante, homem de experiência, dizia aos companheiros de jornada: "devagar; que eu tenho pressa". Eu não digo o mesmo aos meus leitores, porque em viagem pela Rua do Ouvidor não há meio de andar depressa.

Uma dúzia de passos além da casa do Grão-Turco já é força parar em frente da de n.º 84, onde ainda no ano passado (1877) se achou instalado nada menos que o Globo, e agora se acha o Economista.

outrora, isto é, há mais de meio século, floresceu, ou rescendeu, a primeira loja de perfumarias de que tenho notícia na Rua do Ouvidor.

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Contemporânea da casa de modas do Saisset, ainda hoje é lembrada por celebridade cheirosa e simpática a de perfumarias do Desmarais.

Eram dois irmãos os Desmarais, um, o mais velho, e primeiro chefe da casa, deixou no Rio de Janeiro prole de esmerada educação, mas pouco afortunada; o outro, sucessor do primeiro, vive ainda sem prole e sem fortuna, e Deus lhe prolongue a vida, porque mesmo sem ter loja de perfumarias, como dantes, conserva tanto cheiro de bondade que é realmente um velho atrativo.

A loja de perfumarias Desmarais teve no seu gênero a glória e a primazia de que gozou a do Wallerstein; exerceu o governo e fez o encanto do nariz, dos cabelos, e das barbas da cidade do Rio de Janeiro; introduziu os preciosos segredos que carbonizam a neve que a idade derrama sem piedade sobre as mais graciosas cabeças; acabou com as últimas e mais pertinazes cabeleiras apolvilhadas e de rabicho, substituindo-as por melhores e dissimuladas cabeleiras em favor dos calvos, e em socorro de belezas descabeladas; por força de lógica reformadora, abolindo o polvilho, não ousou ou não soube então explorar o pó-de-arroz simples ou composto, mas em compensação brilhou em apuros do nacar; e até ganhou não pouco dinheiro em moscas.

Loja prodígio!... tornou como redivivos em moças vivas cabelos de moças defuntas, e deu às moças já velhas o condão de deixar em sua passagem e em seus vestígios suaves odores de juventude.

Essências, sabonetes, escovas, suavíssimas esponjas, adornos de toucador, vidrinhos de cheiro, espelhos, bonecas, cabelos anelados, etc., só as do Desmarais, a que, eu o creio, chegavam encomendas até de Goiás e de Mato Grosso.

O que a loja Desmarais ganhou em pentes durante algum tempo depois de 1830 só o podem calcular aqueles que se lembram das cabeças, não me atreverei a chamar monstruosas, mas chamarei monumentais das senhoras do melhor tom.

Eram penteados enormes em torno de pentes que os excediam, e tanto, e tanto que o povo eloqüente nas denominações que inventa e impõe, fê-lo chamar pentes e penteados de - trepa-moleque - para indicar a sua altura.

A loja Desmarais fartou-se de vender os seus - trepa-moleques! - de palmo e meio de altos.

A moda dos trepa-moleques coincidiu com a dos vestidos chamados de mangas de presunto pela semelhança da forma, aliás exagerada, com a dos presuntos de Lamego, de modo que as senhoras ostentavam então pequenos e irregulares balões aerostáticos por mangas de vestido, e o mundo da lua por toucado.

Sou de opinião que as mimosas jovens elegantes da atualidade não seriam dos trepa-moleques e das mangas de presunto daquele tempo, para não dar direito às suas herdeiras de elegância a rirem-se dos vestidos ultranesgados e dos puffs ocidentais das penúltimas e últimas modas.

Dos irmãos Desmarais o mais velho retirou-se do comércio, preferindo ocupar-se da educação dos filhos a continuar na exploração das perfumarias.

O Desmarais, irmão mais moço, ficou dirigindo a casa com inteligência e natural amabilidade.

No tempo do seu florescimento houve revolução nos bigodes e nos cabelos dos homens; porque logo depois de 7 de abril de 1831 foram banidos os bigodes dos militares, o que deu por certo mais trabalho aos barbeiros, não porém aos cabeleireiros do Desmarais.

Cerca de quatro anos depois introduziu-se vinda de França a moda dos cabelos longos e penteados em torno da cabeça; não à Voltaire, como alguns chamavam, mas precisamente à romântica.

Em França tinha essa moda certo interesse, pois que era usada pelos cultivadores e apaixonados da escola romântica no teatro e no romance. No Rio de Janeiro não se observou semelhante significação literária; mas os cabeleireiros do Desmarais tiveram de pentear diariamente cabelos à romântica em dezenas de cabeças, porque a moda fez furor entre os estudantes, os moços, e até entre alguns velhos, muitos dos quais se entregavam pacientes à longa aplicação do ferro quente para se encresparem os cabelos.

E não se admirem de semelhante paciência em homens, pois que havia jovens vaidosos, afeminados tafuis, que dormiam com os cabelos em papelotes, como as senhoras às vezes praticam!...

O Desmarais achava tudo isso muito ajuizado, porque vendia óleos, banhas e cosméticos a fartar; e, ainda mais, quando a moda foi modificada pela estrada da liberdade, que separava os cabelos até o alto da cabeça em duas partes principais, sendo a do lado esquerdo desproporcionalmente menor, exceto nos tafuis afeminados e de pior gosto, que usavam a divisão dos cabelos em duas partes iguais, como as senhoras em alguns penteados.

E fiquem sabendo os mancebos de hoje, a estrada da liberdade exigia perfeição matemática em sua linha reta, e bem visível a largura relativa da estrada, de modo que esta era em muitas cabeças não só aberta pelo pente, como ainda construída pela navalha do cabeleireiro.

Os cabelos à mal-content ou à escovinha começaram a usar-se naquele mesmo tempo; mas tiveram pouca voga.

Depois de 1850, cansado de trabalhar, e já então com a antiga preferência conferida à sua loja de perfumarias e de cabeleireiros habilmente disputada por competidoras iguais e com o prestigio da novidade, o Desmarais não querendo ser João Fernandes onde fora César, também deixou o comércio; mas recolhendo-se à vida privada, não quis deixar o Rio de Janeiro.

Em regra geral os negociantes franceses, estabelecidos no Brasil, ou pelo menos no Rio de Janeiro, mais conhecido nosso, têm aqui as cabeças que calculam, os braços que trabalham, infatigável atividade que duplica o tempo, e zelosa economia que multiplica o capital, mas não arredam da França a alma que lembra, o coração que ama e a esperança de gozos de futuro no seio da pátria. Não lhes quero mal por isso. Preferem a todos os países o seu país. Se isso é pecado, eu por mim sou pecador como eles.

Mas sempre é doce e grato à terra hospitaleira ver prender-se a ela o estrangeiro que a achou donosa e como boa amiga, ou amorosa mãe adotiva.

Simpática exceção (e nem é a única) daquela regra francesa, a família Desmarais ficou, ou toda ou quase toda, no Brasil, e é digna dele.

E o velho, que foi o Desmarais irmão mais moço, lá está hoje infelizmente menos afortunado, mas sempre ativo, suave, agradável e brincador em doce ninho no bairro de S. Domingos, cidade de Niterói.

Já é septuagenário o simpático Desmarais, robusto, porém ativo, diligente, alegre e espirituoso conversador; se fosse mulher, estaria em seu direito dissimulando quinze anos.

Os únicos entes que com justíssima razão poderiam, se não fossem mudos, dizer mal e muito mal dele, seriam os peixes daquele mar que banha o bairro de S. Domingos e de cara.

Lá, em horas oportunas, que magistralmente conhece e determina, o velho Desmarais, de caniço ou de linha em punho, e com o saco ou embrulho de estudadas iscas ao lado, vai à ponte das barcas, às pedras do Gragoatá, ou a outros sítios de sua escolha, e anzóis ao mar, espera com verdadeira paciência de pescador, e como o devoto mais fiel de S. Pedro o fruto das iscas que lança na água.

O mais famoso entre os amadores da pesca em Niterói, ele ainda nos dias menos felizes tem o segredo de recolher boas corocorocas; mas é curioso vê-lo jubiloso, quando lhe traz o anzol alguma garoupinha, e entusiasmado ao pescar um robalo.

Este amor de pescaria deliciando em sua velhice o Desmarais, célebre iniciador das lojas de perfumarias na Rua do Ouvidor, quem sabe, se não é mágico e benéfico influxo dos espíritos das primitivas e belas pescadoras do mar, defronte do qual começava a Rua de Aleixo Manoel?...

Ainda uma última recordação da casa de Mr. Desmarais: foi dela, onde era caixeiro, que saiu doutor de borla e capelo em perfumarias o Sr. Bernardo Ribeiro da Cunha, para estabelecer loja própria, que todos conhecem e que ficava do mesmo lado e muito vizinha daquela.

Que de tal pai tal filho se esperava.

Não quero ocupar-me das perfumarias, dos cabeleireiros e dos mil artefatos e artifícios da loja do Bernardo, porque ou por incontestável direito de idade, ou por magicaturas da casa, ele ainda não se dignou envelhecer, e, continuando a florescer, não entra no número dos representantes do passado.

Mas a loja do Bernardo tem uma condição especial que devo mencionar, como informação deixada a futuros indagadores de costumes e de curiosidades do nosso tempo.

A loja consta de sala de perfumarias, sala de cabeleireiros e de cortar cabelos, e sala instituição extracomercial, discretamente recolhida no fundo da casa.

Na primeira sempre e às vezes na segunda é constante e livre e como que pública a freguesia de conversadores políticos, economistas, diplomatas, etc., e o Bernardo não precisa dizer quem nelas está, porque todos vêem.

Na última, na discreta, se alguns pedem para conferenciar particularmente nela, o Bernardo os introduz, retira-se, e com a maior inocência deste mundo, se é interrogado, ignora sempre que haja alguém lá dentro.

E pelos diários e sucessivos conversadores não-dissimulados, e pelos conferenciadores da sala extramuros comerciais a loja do Bernardo é uma caverna acústica, onde se ouvem os ecos de todas as notícias políticas, industriais, bancárias, científicas, literárias, teatrais, et coetra, quer verdadeiras, quer falsas; é o prodigioso óculo de alcance pelo qual se vê tudo, e ainda mesmo o que não existe.

Na loja do Bernardo ouve-se de véspera o que no dia seguinte se lê na Gazetilha do Jornal do Commercio, e nos noticiários das outras folhas diárias, e o muito mais inexato, que a imaginação inventa, e a credulidade espalha.

Em regra o Bernardo deixa falar, e não escuta; e ainda que ouça, não fala, e sou capaz de jurar que ele faria entrar na mesma manhã um depois do outro na sua sala discreta o Ganganelli para conferenciar com alguns dos seus excomungados, e o redator do Apóstolo para explicar a política do Vaticano aos cônegos da capela imperial.

Mas em relação à filosofia positiva das lojas de perfumarias o Bernardo começou a florescer em época de competência e de concurso de êmulas.

As lojas de perfumarias e de cabeleireiros a elas anexos aumentaram em número na Rua do Ouvidor.

O Bernardo teve ao lado direito, e quase defronte, lojas rivais, e além abaixo e acima outras competidoras.

A Rua do Ouvidor contou diversas lojas de perfumarias, e, por conseqüência, devia ser a rua mais cheirosa, mais perfumada entre todas as da cidade do Rio de Janeiro.

E todavia não o era!...

Com efeito não havia nem há rua mais opulenta de aromas, de perfumes, de pastilhas odoríferas, de banhas e de pomadas de ótimo cheiro; mas tudo isso encerrado em vidrinhos, em frascos e em pequenas caixas bonitas que mantinham e mantêm a Rua do Ouvidor tão inodora como as outras de dia.

Atualmente de noite observa-se o mesmo fato.

Naquele tempo, porém, isto é, nos tempos do Desmarais, e ainda depois, a Rua do Ouvidor era de noite e principalmente das oito horas em diante horrivelmente mal cheirosa.

Época dos tigres.

Então o mais fétido e nauseabundo despejo das casas se fazia em barris não tampados que escravos e negros africanos do ganho levavam ao mar, e a Rua do Ouvidor; de fácil e reta comunicação com a praia, era uma das mais freqüentadas pelos condutores dos repugnantes barris, das oito horas da noite até às dez.

A esses barris asquerosos o povo deu a denominação geralmente adotada de - tigres - pelo medo explicável com que todos fugiam deles.

Esse ruim costume do passado me traz à memória informação falsa e ridícula que li, e caso infeliz e igualmente ridículo, de que fui testemunha ocular e nasal em 1839, no meu saudoso tempo de estudante.

A informação é a seguinte:

Um francês (viajante charlatão) passou pela cidade do Rio de Janeiro, e demorando-se nela alguns dias, ouviu dos patrícios da Rua do Ouvidor queixas dos incômodos tigres que freqüentes passavam ali de noite. Sábio e consciencioso observador que era, o viajante tomou nota do fato, e poucos anos depois publicou, no seu livro de viagens, esta famosa notícia:

"Na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império do Brasil, feras terríveis, os trigraves, vagam, durante a noite, pelas ruas, etc., etc.!!!"

E é assim que se escreve a história!

O caso que observei foi desastroso, mas de natureza que fez rir a todos.

Pouco depois das oito horas da noite, um inglês, trajando casaca preta e gravata branca...

Entre parênteses.

Em 1839 ainda era de uso ordinário e comum a casaca; o reinado de paletó começou depois; muitos estudantes iam às aulas de casaca, e não havia senador nem deputado que se apresentasse desacasacado nas respectivas Câmaras: o paletó tornou-se eminentemente parlamentar de 1845 em diante.

Fechou-se o parênteses.

O inglês de chapéu de patente, casaca preta e gravata branca subia pela Rua do Ouvidor; quando encontrou um negro que a descia, levando à cabeça um tigre para despejá-lo no mar.

O pobre africano ainda a tempo recuou um passo, mas o inglês que não sabia recuar avançou outro; o condutor do tigre encostou-se à parede que lhe ficava à mão direita, e o inglês supondo-se desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda pronunciou a ameaçadora palavra goodemi, e sem mais tir-te nem guar-te honrou com um soco britânico a face do africano, que, perdendo o equilíbrio pelo ataque e pela dor, deixou cair o tigre para diante e naturalmente de boca para baixo.

Ah! que não sei de nojo como o conte!

O tigre ou o barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com o seu conteúdo a casaca preta, o colete e as calças do inglês.

O negro fugiu acelerado, e a vítima de sua própria imprudência, conseguindo livrar-se do barril, que o encapelara, lançou-se a correr atrás do africano, sacudindo o chapéu em estado indizível, e bradando furioso:

Pegue ladron! pegue ladron!...

Mas qual - pega ladrão! -: todos se arredavam de inocente e malcheiroso negro que fugia, e ainda muito mais do inglês, tornado tigre pela inundação que recebera.

Era geral o coro de risadas na Rua do Ouvidor.

O inglês, perdendo enfim de vista o africano, completou o caso com um remate pelo menos tão ridículo como o seu desastre. Voltando rua acima, parou em frente de numeroso grupo de gente que testemunhara a cena, e ria-se dela.

Ainda hoje o estou vendo; o inglês parou, e sempre a sacudir o chapéu olhou iroso para o grupo e disse, mas disse com orgulhosa gravidade britânica:

- Amanhã faz queixa a ministro de Inglaterra, e há de ter indenização de chapéu e de casaca perdidas.

Ah! eu creio que então a melhor das risadas que romperam foi a minha gostosa, longa e repetida risada de estudante feliz e alegrão.

É inútil dizer que não houve questão diplomática. A Inglaterra ainda não se tinha feito representar no Brasil por Mr. Christie, o único capaz (depois do jantar) de exigir indenizações do chapéu e da casaca que o patrício perdera.

Não foi este único desastre que os tigres ocasionaram, foram muitos e todos mais ou menos grotescos, e sei de um outro (além do da encapelação do inglês) ocorrido na Rua do Cano hoje Sete de Setembro, que de súbito desfez as mais doces esperanças do casamento inspirado e desejado por mútuo amor.

O namorado era estudante, meu colega e amigo; estava perdidamente apaixonado por uma viúva, viuvinha de dezoito anos, e linda como os amores.

Uma noite, a bela senhora estava à janela, e à luz de fronteiro lampião viu o namorado que, aproveitando o ponto do mais vivo clarão iluminador, lhe mostrava, levando-o ao nariz, um raminho de lindas flores, que ia enviar-lhe, quando nesse momento o cego apaixonado esbarrou com um condutor de tigre, e, embora não encapelado, foi quase tão infeliz como o inglês.

O pior do caso foi que a jovem adorada incorreu no erro quase inevitável de desatar a rir, e logo depois de fugir da janela por causa do mau cheiro de que se encheu a rua.

O namorado ressentiu-se do rir impiedoso da sua esperançosa e querida noiva; amoroso, porém, como estava, dois dias depois tornou a passar diante das queridas janelas.

Novo erro: a formosa viúva, ao ver o estudante, saudou-o doce, ternamente, mas levou o lenço à boca para dissimular o riso lembrador de ridículo infortúnio.

O estudante deu então solene cavaco, e não apareceu mais à bela viuvinha.

Um tigre matou aquele amor.

Com efeito, amor todo cheio de poéticos sonhos não podia resistir à realidade fatal da materialíssima influência ridícula do tigre.

O estudante, noivo já infeliz antes de casado, não quis expor-se aos risos da noiva ainda depois do casamento.

E o tigre foi causa de morrer viúva, e de morrer solteiro, ambos precocemente, aquele par de ternos namorados.

A edilidade do Rio de Janeiro lembrou-se enfim de banir os tigres.

Mas não pensem que lembrar, querer e conseguir fosse obra de poucos dias, ou fiat de enérgica vontade.

Primeiro houve horas marcadas para o saimento e despejo dos tigres, e praias determinadas e exclusivamente concedidas para o despejo deles.

Depois usaram para os despejos barris que pelo menos se proclamavam hermeticamente fechados, e depois carroças conduzindo em grandes caixas tampadas aqueles mesmos barris.

Finalmente veio como último e inexcedível melhoramento o City lmprovements com os seus esgotos subterrâneos; não ponho em dúvida a excelência do sistema, nego, porém, que tenha sido preceituosamente executado no Rio de Janeiro. Com certeza a City lmprovements não é hermeticamente fechada; freqüentemente respira malefícios nas casas, e nas ruas da cidade, faz então lembrar o tempo dos tigres, e, honra lhe seja feita, em tais casos a City lmprovements é tigre colossal.

Os tifos e as febres perniciosas têm muito que agradecer aos evidentes defeitos do tal sistema subterrâneo que espalha miasmas subterrâneos.

Até onde me levou a história dos tigres! e que contraste, quando eu tratava das perfumarias da Rua do Ouvidor!...

Pois não vou adiante.

Eu tinha ainda muito que referir da história antiga deste quarteirão da Rua do Ouvidor; tinha mesmo um pequeno romance de outro estudante que andava diariamente e sempre com o relógio atrasado para ter o gosto de acertá-lo por pêndula que não claudicava; até que uma vez, quando o estava acertando, espirrou inesperadamente e quebrou o relógio sem nunca ter podido adiantá-lo.

Mas estou aborrecido do ruim e feio assunto de que acabei de ocupar-me e suspendo ou interrompo a viagem, ficando no canto da Rua dos Ourives.

O meu desapontamento é tal que fico no canto.



*****

Memórias da Rua do Ouvidor
Autor: Joaquim Manoel de Macedo

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII
Capítulo XIX (Final)
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