sábado, 7 de novembro de 2009

Livro - TIL - Capítulo VI

VI

O EMPENHO

O capanga abatera um olhar de nojo para o cavaleiro que lhe veio rolar aos pés.

A faca brandida com força vibrava ainda no tronco do jequitibá, onde cravara a cabeça de um urutu, que estorcia-se de fúria e dor.

Fora a negra serpente que espantara o animal, quando enristou-se como uma lança, fincando a cauda e chofrando o bote. Advertido pelo faro, antes de ver altear-se o negro colo, o cavalo rodara sobre os pés; e a cobra ameaçada pelos cascos elou-se ao tronco, onde a alcançara a mão certeira de Jão Fera, que já tinha apunhado a faca.

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Recobrando-se do atordoamento da queda, ergueu-se o desconhecido, a apalpar o corpo um tanto pisado e a sacudir a roupa.

- Apre! resmungou ele. Escapei de boa.

O capanga lançou-lhe um sorriso esguardo:

- Desta vez escapou, disse ele com surda entonação.

Dirigiu-se ao tronco e arrancou a faca, depois de esmagar a cabeça da urutu.

- Que diabo é isso? perguntou o embuçado.

- Não vê? retorquiu Jão limpando nas ramas a folha da faca.

- Agora penetro porque o diabo do ruço pinchou-me!

Cuidando então do cavalo que podia fugir-lhe, o desconhecido pôs-lhe cerco, e com algum trabalho conseguiu colher as rédeas; feito o que tornou ao lugar, onde havia deixado o capanga.

Este o esperava impassível, mas um tanto absorto.

- Como se chama o senhor? perguntou bruscamente ao cavaleiro.

- Oh, homem, lembrou-se disso agora! tornou o outro um tanto ressabiado.

- Quando o senhor me procurou há tempos para seu negócio, não me disse como se chamava.

- Porque não era preciso.

- Nem ontem quando me avisou para estar aqui; prosseguiu o capanga sem interromper-se. Mas agora há de dizer: quero saber com quem trato.

- Para que? Desde que a gente paga... Ou desconfia o senhor de mim?

- Ninguém me logra, disse Jão com um sorriso mostrando a faca. Tenho este fiador. O ponto é outro; só avanço com quem conheço.

- Pois não seja essa a dúvida. Com os diabos; chamo-me Barroso!

- Nunca morou aqui em Santa Bárbara?

Com essa interrogação ferrou o capanga olhar perscrutador no semblante do cavalheiro.

- Eu?... Que esperança!... De Sorocaba todo inteiro! É a primeira vez que botei-me cá para estas bandas.

Isto, disse-o Barroso com segurança e desplante.

- E por que tem gana ao homem?

- Ora essa! Fez-me uma; e jurei que havia de pagar com usura.

- História de mulher? perguntou o capanga vibrando-lhe um olhar ardente.

- Quem se embaça agora com saias? Não sou nenhum balão! Quer saber o que me fez o diabo? Teve o atrevimento de dizer em certa parte que, se lhe passasse a tronqueira da fazenda, mandava-me amarrar ao mourão por seus negros e surrar-me com um calabrote!

- Ah! Ele disse isto?

- Com certeza; mas daqui há pouco vamos saldar as contas. Ele vem aí; não tarda.

- Mas que escândalo teve o homem do senhor, para dizer isso!

- Essa maldita política! Se eu guerreei a chapa dele; eu cá sou do governo!... Mas escute. Arranjou-me tudo; o patife só traz um capanga e o pajem; por conseguinte desta vez não tem desculpa.

O capanga levantou os ombros com ar de indiferença.

- Já sei; vá andando.

- Posso ficar aqui mesmo.

- Fique, mas já lhe aviso. Quando eu vejo vermelho, não conheço quem está perto de mim.

- Safa!... Neste caso vou por aí afora, até a venda do Chico Tinguá. Lá o espero, homem; e com o resto da chelpa. Duas onças, das suçuaranas, bem amarelinhas, ou três canários, à vontade do amigo, contanto que desta feita acabe-se o negócio. Já o diabo podia Ter comido muita terra, se cá o camarada fosse mais decidido.

Às últimas palavras de Barroso o capanga abaixou o olhar, e um repentino enleio atou aquela organização robusta e audaz, que difundia em torno de si a plenitude da sua pujança. Alguma fibra vital fora dolorosamente pungida, que o confrangia, amortecendo o natural orgulho e arrojo do caráter.

- Só tenho uma palavra, sr. Barroso! disse afinal com a voz firme e grave.

- Mas está custando a cumpri-la; confesse-se!...

Franziu ainda mais o sobrolho a Jão Fera, que mordeu os beiços a tirar sangue. Acabava de estrangular a jura, que a destra já se preparava para cravar no corpo de quem ousava duvidar de sua palavra.

- Se da primeira vez em que o senhor me falou na venda do Chico, tivesse logo dito quem era o homem; eu certo que não aceitava o ajuste, nem recebia os seus vinte patacões para tomar o empenho que tomei.

- Por que então?

- Basta que eu saiba. Só depois é que me disse, quando eu já tinha gasto seu dinheiro. Esperava ganhar para lhe restituir; e por isso ia deixando a coisa para mais tarde, pois o senhor há de lembrar-se, que minha promessa foi dar conta do homem até São João que vem cair lá para a outra semana. Sou senhor de minha vontade, fazer hoje ou amanhã, quando me parecer, desde que naquele dia minha palavra estiver cumprida. Aí está a razão...

- Quem duvida que o camarada é um homem honrado? Então eu não sei com quem lido?

- Deixe-me acabar. Aí está a razão de não ter eu dado conta ainda da sua obra. Queria ver se me vinha alguma prata para livrar-me deste empenho. O senhor não vê diferença em mim?

- Alguma, para falar a verdade.

- Pareço um tocador de tropa. Vendi o que tinha, e pouco era; mas não ajuntei senão estes magros cobres, que trago aqui na burjaca, veja. Quer recebê-los, e soltar a minha palavra, empenhando eu a minha vida para pagamento do resto?

- Isso nunca! O trato está em pé!

- Fechou-se o capanga, assumindo outra vez a calma e possança de si mesmo:

- Estou ciente. O senhor cobra a sua dívida; eu pago-lhe na moeda que tenho, nesta, disse batendo na bainha da faca. Vá descansado; hoje ficamos quites.

- Esse falar agora me agrada mais; e até, olhe lá, por cima do prometido, sempre a gente há de escorregar uma molhadura, se a obra for bem feita.

- Dispenso, retorquiu-lhe com uma desdenhosa concisão.

- Ande lá. Então na venda do Chico? perguntou Barroso com o pé no estribo.

- Já disse.

- E logo que despachar o diabo?

- Sim!

- Boa mão, camarada.

Ganhando a sela, seguiu Barroso o trilho escarvado da azinhaga, e alcançada a planície, afastou-se a galope do sítio mal-assombrado.

Entretanto, o capanga ouvindo o tropel do animal a perder-se na distância, murmurava consigo:

- Aquela cisma que eu tive há pouco!... Se não fosse o urutu!... No cabo não era ele, sem falar que estou lhe devendo...

E acrescentou:

- É preciso acabar com isto! Há de ser o que Deus quiser.

Suspendendo o corpo do urutu à ponta de um galho, ia tirar-lhe a pele, para gastar o tempo da espera, quando alguma coisa suspeita fê-lo erguer de pronto a cabeça e aplicar as ouças.

Ressoava ainda muito longe o oco estrupido de animais passando uma ponte de madeira.


*****

Autor: José de Alencar

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