domingo, 29 de novembro de 2009

Livro - TIL - Capítulo IX

IX

AS AMOSTRAS

Advertido pela pêndula, Luís Galvão consultou seu relógio de algibeira e ergueu-se:

- São horas!

Até aquele momento nutrira D. Ermelinda uma vaga esperança, que ela mesma não podia explicar. Lembrava-se que um pequeno acidente qualquer podia estorvar ou pelo menos adiar a viagem. Vendo chegar a despedida, empalideceu:

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- Se você aflige-se dessa maneira, Ermelinda, não vou. Faz-me grande desarranjo, como sabe; mas não tenho ânimo de deixá-la tão sobressaltada.

- Confesso que esta emoção faz-me mal; já não me sinto boa.

- Então fico: está decidido.

Uma sombra de tristeza perpassou rapidamente pelo semblante de Linda; todavia não escapou ao olhar da mãe, que adivinhou a causa dessa mágoa da moça.

- Mas, Luís, esta viagem é necessária, e, no fim de contas, meus sustos não têm razão de ser. Você precisa concluir esse negócio; e Linda ficará queixosa se não tiver os presentes prometidos.

- Eu, mamãe? exclamou a menina com terna exprobração. O que eu desejo é vê-la sempre contente.

- E não é um contentamento fazer-te feliz? Já fui moça como tu; nessa idade a ventura é uma flor, uma fita. Só depois se compreende o que ela vale e o que ela custa, minha filha. Não te envergonhes dessa faceirice. Quem há de tê-la senão tu? Deus fez as estrelas para brilharem.

- Então o que decidem? perguntou Luís Galvão.

- Vá; eu lhe peço.

- Por minha causa, não! contestou Linda.

- Pela minha, disse D. Ermelinda.

Calçadas as luvas e feitos os últimos aprestos, despediu-se o viajante da família e montou a cavalo.

No momento de abraçar o marido, D. Ermelinda com disfarce apalpou-lhe o peito, e ficou mais tranqüila percebendo o revólver no bolso do casaco. Não obstante, custou-lhe muito essa despedida; seus vagos terrores se alvoroçaram de novo, e foi preciso grande esforço para dominar-se.

Entretanto Luís Galvão, esporeando a rosilha, depois que disse o último adeus com a palavra e o gesto, passou a cancela do terreiro. Acompanhava-o de perto, a meio-corpo da cavalgadura, o camarada Mandu; adiante ia o pajem para abrir as tronqueiras; e entre ele e o viajante trotava o baio, solto, mas de todo arreado e pronto para o revezo.

- Logo hoje é que seu pai leva um camarada só.

- Por que, mamãe? perguntou Linda.

- O Pereira adoeceu, o outro, ninguém sabe onde anda.

- Se mamãe quer, eu acompanho meu pai, disse Afonso fazendo menção de dirigir-se à cavalariça. Em um instante o alcançarei.

- Não, não Afonso! acudiu vivamente a senhora, já se não viam os viajantes, ocultos pelo arvoredo. D. Ermelinda, antes de entrar, voltou-se para os filhos:

- Vão passear!

- E mamãe fica só?

- Preciso descansar um pouco até a hora do almoço.

- Sente alguma coisa, minha mamãe?

- Nada, fadiga apenas. Até logo.

- Quer ir, Afonso?

- Se você quiser, Linda!

- Vão; a manhã está bonita, insistiu a mãe.

D. Ermelinda por este meio tratava de afastar os filhos, cuja solicitude dispensava nesse momento, pela razão de os não afligir comunicando-lhes a tristeza e inquietação que a assaltava com dobrada força.

Apenas eles a deixaram, subiu apressadamente ao mirante para acompanhar com os olhos ao marido, até a volta que fazia o caminho no canto da tigüera e onde se perdia de todo a vista da casa.

Os viajantes, que já estavam a poucas braças dali, pararam de repente, e depois de pequena demora retrocederam apressados. Surpresa com o incidente, D. Ermelinda deu graças a Deus daquela volta inesperada, que lhe restituía o marido, a quem por coisa alguma deixaria mais partir.

A angústia que sofrera naqueles poucos instantes, os pensamentos cruéis que lhe crivavam a alma nesse breve trato, não os sentira ela talvez em anos de sua vida. Suplicaria a seu marido que desistisse da viagem; e ele havia de atendê-la, ou então de arrastá-la abraçada a seus joelhos.

Aproximavam-se os viajantes; repassaram a cancela e afinal pararam em frente à casa onde Luís Galvão apeou rijo.

- Que foi? Perguntou D. Ermelinda que descera do sótão a encontrá-lo.

- Ora, respondeu o fazendeiro a rir, não sei onde pus as amostrar da Linda com a lista das encomendas.

Outra vez D. Ermelinda achou em si a força para reagir contra seus imaginários terrores. Esse coração de mãe sacrificava às inocentes alegrias da filha o seu sossego; é uma banalidade sublime, que se encontra por aí, a cada canto, e de que já ninguém se ocupa.

Correu Luís Galvão ao gabinete à busca dos objetos esquecidos; e enquanto a mulher ajudava-o de seu lado na pesquisa, abriu ele a medo o segredo da secretária e tirou um papel, que rápida e furtivamente escondeu no bolso.

Era este o motivo real da sua volta; o outro não passava de pretexto. Apenas teve Galvão seguro o papel em um bolso, que tirando à sorrelfa um pequeno embrulho do outro, exclamou:

- Aqui está!

- Aonde achou?

- Dentro desta caixa de charutos. Só eu era capaz de achá-lo. Foi quando enchi a carteira.

Abraçando a mulher e beijando-a na face, de novo pôs-se o fazendeiro a caminho; e desta vez ia pensativo, quase triste. Murchara a flor da jovialidade, que se expandia momentos antes tão fresca em seu nobre semblante, e a alma franca e generosa sempre a espelhar-se em seu olhar, dir-se-ia que se acanhava.

O pequeno incidente da volta viera a toldar aquele sentimento que mais ou menos é infalível em todo o coração por magnânimo que seja, como da ânfora onde por muito tempo se guardou o vinho puro e generoso, há sempre lia no fundo.

Luis Galvão tinha um segredo em sua vida, talvez uma falta; e o ocultava de todos, mas especialmente da mulher. Ver-se humilhado perante aqueles a quem se ama, e cuja estima se alcançou, não pode haver maior suplício para o homem de brios.

O esquecimento do papel, que sem dúvida continha revelação ou referência do segredo, e a necessidade de recorrer a uma simulação para ocultar o verdadeiro motivo de sua volta; esses pequenos embustes sem conseqüências, e que talvez a outros nem mais lhe roçassem na memória, o estavam remordendo interiormente.

Chegaram afinal os viajantes ao canto da tigüera. Havia junto a um copado guarantã, que lhe dava sombra, uma ponte de madeira, lançada sobre as altas ribanceiras de um córrego, que regava parte das terras lavradas.

Aí estava a última tronqueira da fazenda.

Voltou-se Luís Galvão para enviar um adeus à mulher, que lhe acenava com o lenço, e desapareceu.

*****

Autor: José de Alencar

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Capítulos 28, 29, 30 e 31 (Final)
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