domingo, 22 de novembro de 2009

Livro - Memórias da Rua do Ouvidor - Capítulo XI

CAPÍTULO 11

Como empreendo viagem pela Rua do Ouvidor com os meus leitores por companheiros obrigados e começo a viajar pelo primeiro quarteirão, onde se verifica que a rua vaidosa é coxa; lamentam-se a Praia e a Praça do Mercado e louvam-se as Igrejas da Santa Cruz dos Militares e da Lapa dos Mascates. Como além da Rua de Primeiro de Março (ex-Direita) entra-se na Rua do Ouvidor legítima e fidalga, a qual tem ar perfeitamente emblemáticas ao lado direito casa de modista, e ao esquerdo charutaria. Faz-se menção à confeitaria do Carceller, onde se encontra, ceando, o célebre Chalaça, e conta-se como ali (lá no tempo do Sr. Guimarães) se organizou na sala de cima um ministério, comendo-se empadinhas e croquets. Finalmente contempla-se a atual Loja da América e da China, casa n.º 40, onde Evaristo Ferreira da Veiga (o grande patriota) aprendeu a ler, e onde anos depois floresceram ou dulcificaram-se as senhoras Paracatus, que foram no seu tempo as mais famosas doceiras da cidade do Rio de Janeiro.

Deixei no capítulo antecedente a Rua do Ouvidor entrada em sua nova era, a do reinado da Moda de Paris, e agora, pois que seria tão enfadonho para os meus leitores, como dificílimo para mim acompanhar par e passo o desenvolvimento e riqueza, que ela foi tendo, prefiro fazer com os meus leitores uma viagem do princípio ao fim da mesma rua com o propósito de considerar e lembrar seus edifícios notáveis e suas casas dignas de distinção por interessantes recordações.

Natural e forçosamente hei de ser cicerone amolador e muito deficiente; amolador por gênio, deficiente por ignorância de muitas coisas que mereciam ser mencionadas e que a nossa geral incúria vai deixando cair no esquecimento.

Entretanto, as tradições, as anedotas, os fatos curiosos, ainda sem importância na história política da nação, a lembrança de antigos costumes dão vida local, interesse, enfeites e graça às Memórias das cidades, de seus palácios, de suas ruas, etc.

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Eia, pois, a viajar! não temos necessidade de levar malas, nem capas, nem provisões de boca, nem prevenção alguma: acharemos em caminho, e à mão todos os recursos imagináveis e a viagem é segura, agradável, riquíssima de variados panoramas, e apenas sujeita a freqüentes ventos contrários no encontro de importunos amoladores ainda mais teimosos do que eu.

Encetemos a viagem.

Em que pese à Rua do Ouvidor; fidalga nova, começaremos a viajar pelo seu primeiro quarteirão, que principia - à direita da Praia do Mercado, e à esquerda na quina com a Rua do Mercado, e acaba abrindo-se na Rua Primeiro de Março (antiga Direita).

A fidalga tem em pouco esse quarteirão, onde em vez de brilhantes, ouro, sedas, flores, bonecas, tetéias, perfumarias, etc., etc., há somente armarinhos vulgares, carne-seca, lombo de porco e toucinho, tudo enfim plebeu, e além disso a vaidosa se revolta com o conhecimento público de sua perna direita mais comprida do que a esquerda, sendo ela por conseqüência coxa.

Embora, porém, a Rua do Ouvidor repute o seu primeiro quarteirão simples e desestimado anexo, espécie de parente bastardo que a família fidalga repugna, embora tenha pretensões a começar legítima Rua do Ouvidor donde primitiva e predestinadamente nascera, sendo Desvio, nós que não temos que respeitar essas vaidades viajaremos pelo quarteirão plebeu.

A Rua do Ouvidor; se desama tanto o seu anexo, deveria ter há mais tempo requerido à ilustríssima câmara que lhe desse nome especial, tornando-o rua independente: eu creio que seria fácil obter providência tão transcendente; porque não tenho notícia de bispo que crismasse tantos católicos, como a ilustríssima tem crismado ruas da cidade do Rio de Janeiro. A ilustríssima como que fundou direito à herança de ruas em favor de defuntos; morrendo algum cidadão ilustre e portanto seu parente em tratamento, dá logo cevada ao finado em crisma de rua.

Ainda nessa prática ao menos se manifesta - gratidão nacional -; mas além dos defuntos, não o tributo de cevada, doce amor porém aos vivos multiplica de tal modo a crisma das ruas, a dá e muitos novos nomes tão desconhecidos, que tenho para mim que o primeiro e longo estudo dos novos vereadores será aprender as denominações das ruas, e inteirar-se dos pontos e dos bairros, onde elas se estendem ou se encurtam.

Mas a ilustríssima ainda não tornou em rua nova o anexo da Rua do Ouvidor; e portanto viajemos por ele.

Da ponta do pé da perna mais comprida da vaidosa fidalga, vemos parte da Praia do Mercado, e pelo portão fronteiro penetram nossos olhos um pouco no interior da Praça do Mercado.

Nem a praia nem a praça pertencem à Rua do Ouvidor; mas é impossível deixar de considerá-las de passagem.

A Praça do Mercado está longe de ser condigna da capital do Império: acanhadíssima, úmida, malpoliciada, às vezes toda cheiro de maresia, de aves amontoadas e de hortaliças já deterioradas, é lugar desagradável em vez de ser atrativo. O peixe expõe-se em tabuleiros sobre ruazinha sempre alagada, e pequenos tanques de peixes vivos faltam absolutamente.

A Praia do Mercado é ainda pior, e penso que faço grande favor em não demonstrar o meu juízo.

Ao menos, porém, há ali, na praça e na praia, fiscais agentes e guardas-fiscais, que uma de duas, ou não a fiscalizam, ou a praça e a praia seriam infiscalizáveis focos de peste do Rio de Janeiro.

E no entanto, além de utilíssima e imprescindível instituição, como é, a Praça do Mercado aumentada, desenvolvida, aprimorada, igual a de outras grandes capitais do mundo civilizado, podia ser no Rio de Janeiro lugar atrativo, e até ornamentador da cidade.

Mas... viajemos enfim pelo primeiro quarteirão... ou anexo da Rua do Ouvidor.

Paciência, bela fidalga!

Aqui, nem ao menos posso indicar qual foi a casa tradicional donde saiu a maçã mandada ao inconfidente Coronel Freire de Andrade por sua dedicada irmã.

Aqui predominam os armazéns de carne-seca e toucinho; a Rua do Ouvidor; porém, que é filosofia, deve lembrar que a carne-seca é no Brasil a primeira representante da filosofia positiva, porque é a principal alimentadora do povo, e eu posso em consciência afirmar que uma manta de carne é muito mais útil do que a manta mais rica de lã de camelo.

E, paciência outra vez, fidalga vaidosa!

É no desestimado anexo que se acham os dois edifícios mais notáveis da Rua do Ouvidor; a Igreja da Lapa dos Mascates, e por sua parte lateral a Igreja da Santa Cruz dos Militares.

Não quero prolongar este capítulo, ou demorar a viagem, copiando a descrição arquitetônica das duas igrejas, que me foi oferecida por autoridade competente; mas é certo que a da Santa Cruz dos Militares não tem ainda superior no Rio de Janeiro sob o ponto de vista da arquitetura; e a da Lapa dos Mascates, embora pequena e encantadora em estreitas ruas, merece a atenção dos homens da arte.

Esta última igreja depois dos consideráveis melhoramentos, que ultimamente recebeu de piedosos e dignos benfeitores, teve novos sinos vindos de Portugal (creio eu) que repicam a preceito, executando alegros de óperas de Offenback.

A escolha dos tais alegros não foi feliz; aqueles, porém, que tanto badalaram contra essa irreligiosidade, posto que tenham razão, esquecem que nas grandes e solenes festas das nossas igrejas até se anunciavam os nomes das cantarinas do teatro, que iam cantar este e aquele solo de música absoluta e exclusivamente do gênero das óperas italianas.

E eis-nos chegados à Rua Primeiro de Março, com a qual nada temos que ver, e, portanto, atravessemo-la, mas com todo o cuidado, meus leitores e companheiros de viagem, porque os bondes e carros, carrinhos e carroças nem permitem que pestaneje o cidadão pedestre, que nesse ponto tem de atravessar a rua ex-Direita.

Oh! agora sim, agora começa legítima a Rua do Ouvidor fidalga, vaidosa e começa até simbólica (pelo menos atualmente), porque tem nas suas duas quinas com a Primeiro de Março, do lado direito casa de francesa modista, e do esquerdo casa de charutos, de cigarros e cachimbos, de modo que enquanto dali para gozo e encanto das senhoras range a tesoura, retalhando veludos, cetins e sedas, defronte há para os homens, para os pais e maridos sovinas ou de fracos recursos pecuniários a consolação de ficar fumando.

A charutaria, à que me refiro, acaba até de explorar os desastres do império otomano na guerra com a Rússia, fazendo boa importação de fumo turco, e quem sabe se de cachimbos de ulemás e de bachás.

Mísera Turquia!... em desmesurado infortúnio priva-se até de seu fumo e dos seus cachimbos monumentais. Ai!... que não exporte (ao menos para o Brasil) as odaliscas e as escravas dos seus serralos!...

Até a Rua do Carmo à esquerda, e o beco ou travessa das Cancelas à direita, só conheço duas casas de notabilidades, pois que não me é possível marcar uma terceira, aquela em que morreu ou penou Perpétua Mineira, se realmente houve ali Perpétua Mineira: se houve, a sua casa era do lado esquerdo.

A primeira das duas casas memoráveis e ainda hoje famosa principiou a sê-lo, em 1824, como confeitaria do Carceller.

A glória de iniciador das confeitarias na cidade do Rio de Janeiro pertence ao italiano Francioni que antes de 1824 já tinha estabelecido confeitaria na Rua Direita exatamente onde se acha a dos Srs. Santos & Ferreira; o Carceller; porém, não só anos depois comprou o estabelecimento do Francioni, como já o tinha excedido muito na sua confeitaria da Rua do Ouvidor em variedade e primor de refrescos, de lunch, que então se chamavam petiscos, e sobretudo na excelência de ceias servidas em sala discreta no fundo da casa.

O Carceller foi, pois, não o mais antigo, o mais notável, porém, dos chefes de confeitarias do Rio de Janeiro, e não lhe amesquinha a boa nomeada que deixou a simples precedência do Francioni e menos o fato não averiguado da, ainda mais antiga, saleta de pasto de Perpétua Mineira.

O Carceller floresceu na sua confeitaria da Rua do Ouvidor; refrigerando seus numerosos fregueses com água imperial e outras águas gasosas, com ótimas cajuadas e outros refrescos, e satisfazendo-lhes o apetite com empadas, pastéis, gulodices e doces; mas à noite as ceias do Carceller gozavam notável celebridade, e eram apreciadas na sala discreta por cavaleiros da sociedade distinta e de elevada posição social.

Um dos habituais fregueses das ceias do Carceller era Francisco Gomes da Silva, por alcunha o Chalaça, português de nascimento, gentil-homem da corte imperial, e amigo dedicado de D. Pedro I, que o estimava muito.

O Chalaça, quando não estava de serviço no paço, era certo com escolhida companhia naquelas ceias.

Tão sabido já era esse gozo de folgança, que uma noite, em 1828, o Imperador D. Pedro I, desejando falar ao Chalaça, não fez cerimônia, entrou de improviso na confeitaria e disse ao Carceller; que logo se apresentou:

- O Chalaça está sem dúvida ceando lá dentro; chame-o.

O Chalaça imediatamente veio apresentar-se respeitosamente, mas sorrindo.

O Imperador disse-lhe algumas palavras em voz baixa, e o Chalaça respondeu em tom mais alto e como que brincalhão.

- Senhor, eu perco hoje metade da ceia, mas em compensação Vossa Majestade me fará almoçar duas vezes amanhã.

E saiu, acompanhando o Imperador.

Este fato não teria importância se não desse idéia de certas inadvertências, aliás próprias do caráter franco e expansivo de D. Pedro I, e que mais de uma vez o prejudicaram.

Quem sabe os juízos que naquela noite fizeram sobre o caso o Carceller; seus caixeiros e os sócios de ceia do Chalaça?

Francisco Gomes da Silva, alcunhado Chalaça por muito gracejador, passou por chefe da camarilha secreta que, influindo muito no ânimo do Imperador, fazia e desfazia ministérios, e inconstitucionalmente predominava na política do Estado.

Que o Chalaça entrasse às vezes em intrigas palacianas, é provável; que fosse o mais apropriado para levá-las ao Imperador, é certo; porque este gostava de ouvi-lo chalaçar; confiava em sua amizade, e o autorizava a grandes liberdades; mas em sua influência política predominante não creio: por seu próprio gênio altivo D. Pedro I a não toleraria, e, além disso, o Chalaça, homem de espírito faceto, de algum talento, mas sem instrução e sem idéias políticas, não podia ser chefe de camarilha.

O Chalaça era dedicadíssimo criado e amigo particular de D. Pedro I; servia-o, fazia-o rir, chalaçando; aproveitou-se da sua privança para ser útil a muitos afilhados e protegidos seus; mas em assuntos de governo do Estado a sua política inalterável consistiu em julgar sempre excelente e ótima a política do Imperador; qualquer que ela fosse.

Dizem alguns dos homens da corte do Primeiro Reinado que, ao contrário do que naquele tempo a oposição liberal propalava, era o Chalaça quem mais severas e duras verdades fazia ouvir a D. Pedro I, com seu direito de íntimo e chalaçador amigo; isso eu não sei, nem posso assegurá-lo.

O Marquês de Barbacena, entrando para o ministério em 1829, com pretensões de chefe de gabinete à inglesa, conseguiu que se retirassem do Rio de Janeiro para a Europa o Chalaça e outro cortesão indicado como segunda influência de camarilha, o que não impediu sua ruidosa demissão de ministro no ano seguinte. Ainda uma informação, e a última:

O Chalaça, anos depois, conversando em Lisboa com ilustradíssimo brasileiro, diplomata mais tarde em retiro, pretendia ter concorrido com os seus conselhos mandados em cartas a D. Pedro I para a abdicação deste em 1831.

Creio nas cartas; elas, porém, não provam que o Chalaça fosse político; escrevia-as no empenho dinástico de D. Maria II, e na esperança do sonhado império ibérico, no interesse do seu amo e amigo. Os políticos estavam em Londres, e foram esses os que influíram no ânimo de D. Pedro I, levando-o às vacilações e inconseqüências de sua atitude em março e até 6 de abril de 1831.

Ora eis aí como uma idéia puxando outra meti-me em coisas de história política, quando só pensava lembrar a casa do Carceller!

Perdoem-me esta amolação.

A confeitaria do Carceller passou mais tarde ao Sr. João Gonçalves Guimarães que, dando ao estabelecimento realce muito maior, honra sempre o nome e a memória do bom velho Carceller, chamando-o ainda hoje - "meu amo, que me serviu de pai", porque fora dele caixeiro e por ele tratado como filho.

Grão-mestre do lunch e rei dos banquetes grandiosos da cidade do Rio de Janeiro e de aquém e de além, mar em fora e por terras a dentro, o Guimarães é pelas suas novidades culinárias objeto da veneração dos gastrônomos, que por último lhe deveram a invenção de garopas de ovos de galinha com farinha de trigo e açúcar; mas a sua confeitaria é ainda mais notável como arca de sigilo, onde já se sepultaram mais de vinte histórias de corações em fogo, abrasando-se com acompanhamento de sorvetes.

E houve um dia (no Segundo Reinado... e não quero dizer quando) em que a confeitaria do Guimarães teve horas de comoções de alta política. Na sala da frente do segundo pavimento estacionava distinto estadista, enquanto outro, hoje florescente notabilidade, que então ainda não era senador, saía, e após demora mais ou menos longa voltava ou só ou acompanhado; é claro que para explicação dissimuladora do que se passava e para animação da paciência na sala de cima levavam-se para esta empadinhas, pastéis, croquetes, doces, etc.: finalmente no fim de quatro ou cinco horas o distinto estadista desceu a escada e saiu da confeitaria com um novo ministério organizado, e ministério auspicioso, pois que se organizara com o encanto (quase que disse programa) político das empadas, pastéis, croquetes, doces e pão-de-ló.

A segunda casa célebre deste quarteirão da Rua do Ouvidor é a atual de n.º 40 - Casa da América e da China.

Não me posso ocupar dos seus merecimentos américo-chineses (que aliás são muitos) nem estudar os motivos por que, vencendo de um salto o estreito de Behring, deixou-nos sem os produtos industriais do Japão, e foi com perigoso e muito maior salto firmar pé no império célebre do filho do sol.

Requeiro que o utilíssimo estabelecimento da América e da China se naturalize japonês também e passo a dar notícias do fundamento da celebridade justíssima dessa casa do atual n.º 40.

Não sei em que ano do fim da primeira dezena do século que corre foi morar nessa casa Luís Francisco Saturnino da Veiga; certo é, porém, que de 1807 a 1810 esse homem, português de nascimento, profundamente religioso e de austeros costumes, aí se estabeleceu, abriu excelente escola de instrução primária, e nessa escola deu o ensino de primeiras letras e de noções da religião católica, creio que a todos os seus filhos e com certeza a Evaristo Ferreira da Veiga, um deles.

A casa da segunda infância e do berço literário de Evaristo deve ser patriótica e honorificamente respeitada, como o foi a casa de Píndaro.

Nos tempos em que vivemos, artificiando admirações em tributos de encomenda a aves rasteiras que no campo da política fazem pequenos giros de moita em moita, exaltemo-nos honrando a memória da casa que foi ninho da águia altaneira que em arroubos de patriotismo pôde e soube ir face a face beber de Phebo as luzes.

Para que algum severo crítico não ache de mau gosto, supondo minhas as imagens que sublinhei, declaro que elas são de Felinto Elísio, e portanto de ouro de lei.

Evaristo Ferreira da Veiga, que não foi doutor, estudou Latim, Francês, Filosofia e Retórica e creio que também um pouco de Inglês no Seminário de S. José, e não tendo mais que aprender aí, pois que não fora destinado ao sacerdócio, o pai que, aborrecido do magistério de instrução primária, abrira loja de livros na Rua da Alfândega, o fez seu caixeiro ou ajudante na loja.

Evaristo formou-se, doutorou-se por si na universidade da livraria do pai. Aprendeu sem mestre a língua italiana, História e Geografia, Ciências Sociais, Economia Política, e só não aprendeu a sabedoria do bom-senso, porque já nascera com ela.

Alguns anos depois abriu loja de livros própria, à Rua da Quitanda, quina da Rua dos Pescadores (atual do Visconde de lnhaúma). Em 1828 fez-se redator da Aurora Fluminense (e sem pedir licença a chefe político algum!!!).

Com a Aurora Fluminense criou o partido liberal-monarquista no Brasil.

De 1830 a 1837 (em que morreu com 38 anos de idade) foi deputado da Assembléia Geral Legislativa (e sem dependência nem bênção de chefe, de tio ou de padrinho político algum!!!).

O livreiro pobre, logo em 1830, foi influente liberal na Câmara.

De 1831 a 1836 foi grande chefe do partido moderado - o dominante: exerceu a maior e a mais patriótica influência na política do império, distinguindo-se sobre todos como a mais forte e pujante coluna da monarquia constitucional; fez ministros e nunca foi ministro, aconselhou nomeações de altos funcionários públicos e nunca teve emprego ou comissão lucrativa, nem empregou parente algum, salvou a ordem e mil vidas, e escapou, levemente ferido, a uma tentativa de assassinato a tiro de pistola; não desanimou por isso, prosseguiu em sua vida política de dedicação cívica e gloriosa, e quatro anos depois, exemplo admirável de todas as virtudes públicas e privadas, morreu deixando a esposa e filhas (todas dignas dele) em honradíssima pobreza!...

A vida de Evaristo foi a mais pura e a mais doce das harmonias.

Evaristo foi primeiro homem do seu tempo pela grandeza, pela honestidade, pela pureza, e pelos sãos e benéficos efeitos de sua influência política.

Evaristo é legendário.

Essa mesma casa da América e da China ainda nos oferece, embora não historicamente gloriosa, ao menos, porém, lembrança doce, mesmo porque é lembrança de senhores e de doces.

Antes do estabelecimento da confeitaria do Carceller; ocuparam o pavimento superior ou o sobrado daquela casa do atual número 40 três senhoras naturais da província de Minas, duas irmãs e uma sobrinha, que, ou por nome de família, ou da localidade do seu nascimento, eram chamadas Paracatus.

As senhoras Paracatus não deixaram, que me conste, nomeada de belas: se foram bonitas, creio que procederam de modo a não fazê-lo notar, o que não prejudica; antes abona a sua reputação; celebrizaram-se porém pela doce indústria, que souberam explorar.

Do sul ao norte e de leste a oeste da cidade do Rio de Janeiro, as senhoras Paracatus foram por unânime aclamação do povo declaradas e proclamadas primeiras inexcedíveis e incomparáveis doceiras.

As freiras da Ajuda então e ainda até os nossos dias tinham e mantiveram primazia em confecção de empadas e de pastéis; mas em doces secos e de calda foram completamente vencidas pelas senhoras Paracatus.

Os moços daquele tempo, septuagenários e octogenários de hoje, juram pela pureza e honra do seu paladar que as Paracatus ainda não foram igualadas, como doceiras, e a um desses velhos ouvi dizer, quase chorando de saudades:

- Ah! meu amigo! tudo é possível ao progresso do século, ainda mesmo em aperfeiçoamento de doces brasileiros; mas em desmamadas, como as das Paracatus, não! elas morreram sem deixar o segredo das desmamadas.

O certo é que não havia banquete de luxo, banquete de casamento, de batizado, ou de festa aniversária de ricos da cidade em que a sobremesa (o desert) não fosse preparada e fornecida pelas Paracatus.



*****

Memórias da Rua do Ouvidor
Autor: Joaquim Manoel de Macedo

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII
Capítulo XIX (Final)
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