domingo, 1 de novembro de 2009

Livro - Memórias da Rua do Ouvidor - Capítulo VIII

CAPÍTULO 8

Como a Rua do Ouvidor ainda entra na história da conspiração dos inconfidentes de Minas Gerais por curioso episódio que se refere sob a denominação de episódio ou de tradição da maçã, que, plenamente provada, seria preciosa luz histórica. Conta-se a viagem da maçã que o Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade por triste e aborrido não quis comer, e mandou-a ao Vigário Padre Toledo, que, ao saboreá-la, achou-lhe miolo muito melhor do que poderia ter imaginado. Terminada a tradição da maçã, diz-se enfim como o Belo Senhor teve de lembrar-se do conselho que Agostinho Fuas lhe dera na Rua do Ouvidor, depois da segunda ceia na saleta do fundo da taberna de Manoel Gago, e como escapando do degredo o Belo Senhor morreu pobre e ignorado na cidade do Rio de Janeiro.

Referindo no capítulo antecedente a tradição de Perpétua Mineira, declarei positivamente que eu a encontrara completada nos meus velhos manuscritos, como estes, porém, não trazem nome de autor, nem baseiam em documentos suas informações, é claro que só me aproveitam para enfeitar estas Memórias; porque fora abuso condenável expor-me a falsificar a história, dando por fatos averiguados alguns devaneios de imaginação.

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Podem severos críticos achar de mau gosto o meu repetido recurso aos velhos manuscritos, mas hei de teimar nele: escrevo as Memórias da Rua do Ouvidor; que em seu caráter de rua das modas, da elegância e do luxo merece e deve ser adornada e adereçada condignamente.

Não vendo gato por lebre, desde que previamente declaro a origem e a natureza das tradições, que vou contando a salvar sempre a verdade histórica.

Este cavaco serve de preâmbulo a uma outra e bem curiosa tradição, que pertence um pouco à Rua do Ouvidor; e que seria, na hipótese de chegar por algum modo a averiguar-se, interessante episódio da história da conspiração mineira, que ficou sendo chamada do Tiradentes. É um episódio que eu chamarei da - maçã.

A tradição que passo ao conhecimento dos meus leitores não é das tais dos velhos manuscritos: há sete ou oito anos passados eu a ouvi (como diversas informações sobre alguns inconfidentes) a um bondoso e inteligente fazendeiro de Minas Gerais, com o qual entretive passageiras, mas saudosas, relações aqui no Rio de Janeiro.

O episódio me sorri, me agrada muito, porque vem apoiar o meu juízo sobre os motivos determinantes da Carta Régia de comutação da pena de morte em degredo para os verdadeiros e principais chefes da conspiração mineira em 1789.

Não o mais ilustrado, o principal chefe, porém da famosa conspiração foi por mais rico e mais prestigioso e influente na capitania o Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, o qual era filho natural de Gomes Freire de Andrade, Conde de Bobadela e de D. Maria Correia de Sá e Benevides.

Em outro também, como este, mesquinho trabalho literário, dissimulei o nome da família dessa senhora, chamando-a simplesmente Maria de...: eu podia proceder assim, porque o meu trabalho era e é romance, embora histórico; mas o meu ilustrado e excelente amigo o Sr. Joaquim Norberto de Souza e Silva, escrevendo a sua obra O Tiradentes, declinou os nomes de batismo e de família da mãe do Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade com o seu indisputável direito o severo dever de historiador; posso, portanto, fazer o mesmo nestas Memórias, sem inconveniência alguma.

O Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, cabeça da conspiração, pertencia, pois, embora filho natural, pelo lado materno, à família Correia de Sá e Benevides, e pelo paterno à dos Freire de Andrade, ambas nobres e de influência na corte de Lisboa, e que não se submetiam à horrível idéia de que um dos seus morresse na forca.

Principalmente os Freire de Andrade, cujo nome de família o principal chefe da conspiração trazia de seu pai, ardiam por salvá-lo da morte infamante.

Ora, diz a tradição, que ouvi, e é muito verossímil, que as duas famílias, e mais forte e ativamente os Freire de Andrade, se empenhavam com insistente esforço por conseguir, ao menos, comutação da pena de morte para o seu Freire de Andrade.

D. Maria Correia de Sã, diz ainda a tradição, e é muito possível, teve do Conde de Bobadela uma filha, cujo nome não pude guardar, se o meu digno informante me revelou, do que não tenho certeza.

Essa senhora, a quem chamarei simplesmente irmã do Coronel Francisco de Paula, era casada com um rico negociante português estabelecido à Rua do Ouvidor; perto da Igreja da Santa Cruz dos Militares, e, apesar ou com ignorância do marido, que absolutista intransigente, ou talvez temeroso do parentesco fraternal da esposa, maldizia por toda a parte dos perversos inconfidentes, e do cunhado ainda mais que dos outros, ela entretinha correspondência cautelosa, mas solicita, com os Freire de Andrade de Lisboa, interessados em favor de seu irmão.

Em 1791 a amorosa irmã do Coronel Francisco de Paula recebeu, em carta vinda de Lisboa, a comunicação confidencialíssima da Carta Régia de 15 de outubro de 1790, comutadora da pena de morte; mas carta régia que ficaria guardada em absoluto segredo, até que a alçada lavrasse no Rio de Janeiro a sentença de morte dos réus.

A excelente irmã radiou jubilosa; mas o júbilo nunca é perfeito no coração humano.

Francisco de Paula, em seu cárcere subterrâneo da ilha das Cobras, vivia atormentado pelas sinistras apreensões da forca.

A forca era o pesadelo horrível que o ansiava no sono de suas noites lúgubres.

Mas o segredo da Carta Régia era condição que, desrespeitada, podia anular a graça a tanto custo obtida.

A piedosa irmã não teve força bastante de ânimo para guardar a notícia confidencialíssima com tão apurado zelo que resistisse ao empenho ardente de consolar o Coronel Francisco de Paula, varrendo-lhe do espírito as horríveis idéias apreensivas, não da morte, mas da ignominia da forca.

Como, porém, transmitir ao irmão aquele segredo melindroso, e cuja quebra e arriscada propalação seriam crime, e crime fatal?...

A mulher, que tem às vezes artes do diabo, também às vezes admira por travessuras e inspirações de anjo.

O Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade estava preso e incomunicável em um dos cárceres subterrâneos da ilha das Cobras, assim como os outros réus da conspiração mineira; mas cada qual deles em prisão separada e sem comunicação com os outros. Sabiam todos eles que mais ou menos vizinhos se achavam; mas só algum mais alto gemido por ventura alguma vez chegava ao ouvido da irmã-vítima em masmorra mais próxima. Estavam juntos, e mais do que nunca separados.

A exceção dos agentes da justiça e dos carcereiros muito observados, só penetrava até cada um dos inconfidentes um padre incumbido de exortá-los religiosamente e de ouvi-los em confissão.

Mas o governo do vice-rei tinha errado na escolha do padre, porque o padre escolhido era bom e piedoso.

Ou por feliz acaso ou por amoroso artifício, a irmã do Coronel Francisco de Paula tomara esse mesmo padre por seu confessor e diretor de consciência, e aos poucos o foi comovendo tanto com as suas lágrimas pela desgraça do irmão, que acabou tendo nele inocente e apiedado intermediário, que lhe trazia notícias do estado de saúde e das esperanças e temores do ânimo do triste encarcerado.

A proteção do padre limitava-se exclusivamente a essas pobres consolações: além delas nunca uma carta, nem informações sobre a devassa, nem sobre o cárcere, onde Freire de Andrade estava preso.

O padre zelava à risca o segredo imposto relativamente aos infelizes inconfidentes guardados nas prisões subterrâneas da ilha das Cobras.

A irmã do Coronel Francisco de Paula, que recebera de Lisboa um pequeno caixote de lindas maçãs, escolheu dentre elas uma, e com finíssimo canivete, e com a mais apurada delicadeza abriu no fundo da parte mais côncava da fruta sutil entalha, sacando pequenino batoque piramidal; pela abertura feita assim escavou um pouco a fruta, e nesse vão escondeu uma tirazinha de papel, na qual escrevera: "Com certeza comutação da pena de morte na última hora", e com a mesma delicadeza e finura adaptou o batoquezinho perfeitamente seguro e de modo a iludir o homem mais ladino.

Sem dúvida aquela doce e extremosa irmã talhou dez ou vinte maçãs antes de chegar à última, em que se aplaudiu da perfeição da sua obra.

No outro dia a comovida e comovente senhora pediu chorando ao padre seu confessor o caridoso e inocentíssimo favor de levar uma maçã, que lhe apresentou, a seu infeliz irmão.

O padre, coitado, chorou também, recebendo a maçã, e no mesmo dia entregou-a ao Coronel Francisco de Paula a quem fora consolar e exortar no sombrio cárcere.

- Obrigado mil vezes, meu padre!... disse-lhe o preso beijando-lhe as mãos; obrigado!... rogo-lhe que agradeça por mim à minha triste e amada irmã.., e que lhe deite a sua bênção... ah! meu padre!... abençoe minha irmã... abençoe-a!...

Mas quase logo acrescentou:

- Ah!... outros a quem arrastei para a desgraça merecem mais do que eu consolações e doces lembranças de amizade. Meu padre! complete a sua obra de comiseração e de piedade católica; leve e dê esta maçã ao meu infortunado amigo e companheiro de adversidade, o Sr. Vigário Toledo.

O pedido do Coronel Francisco de Paula foi satisfeito, e horas depois o Vigário Padre Toledo, que recebera e guardara a maçã, ao parti-la, achou dentro da fruta a preciosa tirazinha de papel anunciadora de muito consolador mal menor.

A maçã não produziu os efeitos com que calculara a senhora sagaz.

O Padre Toledo incomunicável, como os outros inconfidentes presos, não pôde transmitir nem a Freire de Andrade, nem a algum dos outros réus e amigos a notícia que por acaso lhe chegara.

Ele e outros padres inconfidentes, graças a seu caráter sacerdotal, foram poupados à pena de morte na sentença da alçada, e, portanto, não entrando para o oratório na noite de 20 de abril, o Padre Toledo também não pôde aí passar aos companheiros de infortúnio a alentadora certeza, que lhe levara a maçã.

O Coronel Francisco de Paula Freire de Andrade passou no oratório a noite de 20 para 21 de abril com um frade franciscano ao lado a prepará-lo para morrer contrito e resignado na forca algumas horas depois, e somente na manhã de 21 de abril (o que é histórico e incontestável) foi-lhe intimada ou declarada a comutação da pena de morte em degredo para os Pedras de Ancoche.

A tradição, que acabo de reproduzir tão fielmente como a ouvi ao fazendeiro de Minas Gerais, não é inverossímil, e nem foi comunicada com pretensões de que real e positivamente se dera o episódio da maçã.

Mas, verdadeira ou imaginária, a tradição pertence um pouco à Rua do Ouvidor; pois que de uma de suas casas se diz ter saído a maçã.

E para mim, se fosse verdadeiro o episódio, seria base sólida, e ainda não o sendo a crença popular que lhe deu origem, o faz argumento conjetura! para meu juízo sobre os motivos que determinaram a Carta Régia de 15 de outubro de 1790.

Graças à sua influência e aos seus empenhos, as famílias Freire de Andrade e Correia de Sá e Benevides conseguiram em Lisboa que não tivesse de morrer na forca o inconfidente que era um dos seus; esse, porém, o Coronel Francisco de Paula, era o chefe principal da conspiração, e para que lhe fosse comutada em degredo a sua pena de morte, tornou-se moralmente indispensável estender a graça a todos os outros chefes e cúmplices, exceto o caso (diz a Carta Régia) de ser isso inadmissível (a pena de morte) pela atrocidade do crime.

Por esse triste exceto o caso, foi enforcado e esquartejado o Tiradentes, que era apenas inconfidente cúmplice de segunda ordem, e até pouco recebido nas reuniões e conselhos secretos dos chefes principais; a alçada, porém, quis dar lição e exemplo ao povo e portanto mandou enforcar o Tiradentes, o qual por isso mesmo, de pequeno que era, ficou sendo gigante.

Eu peço perdão deste deslocado intrometimento de apreciação de um ponto de história pátria, que é desculpável por costume de oficio.

Agora dou nó de emenda na linha destas Memórias.

Em 1801 o Conde de Rezende chegou ao termo do seu atrabiliário e aborrecido vice-reinado, entregando o governo a D. Fernando José de Portugal, mais tarde Conde de Aguiar.

O povo saudou o novo vice-rei com a esperança e alegria de quem respirava livre de violenta opressão, e de povo que não era velho de Siracusa.

D. Fernando José de Portugal, que esteve longe de merecer comparar-se com o Marquês de Lavradio e com Luís de Vasconcelos e Souza, foi, todavia, muito considerado e aplaudido em seu governo suave pelo contraste com o abominável do seu sucessor.

Mas no vice-reinado de D. Fernando José de Portugal a Rua do Ouvidor teve de lamentar a dura e amargurada, porém merecida, sorte do seu herói da tradição do fundo da taberna à quina da Rua dos Latoeiros.

O Belo Senhor; abusando de sua extraordinária mestria caligráfica, depois de cem falsificações travessas e que passaram impunes, dobrando de ousadia, escrevera e formulara falso testamento de homem rico e finado na capitania de Minas Gerais, onde aliás ele (o falsificador) nunca tinha ido, e nunca em vida conhecera o suposto e mentido testador.

Com as letras a imitar à vista, o Belo Senhor vendido a aspirantes herdeiros de grande parte da fortuna do rico mineiro, que não deixara testamento, arranjou um falso, imitando perfeita e admiravelmente a letra do tabelião de Minas, a do testador, e as das diversas testemunhas!...

O crime foi denunciado e provado, e o Belo Senhor preso, processado e condenado a degredo para Angola, ou algum outro ponto da África, e, episódio célebre, quase que escapou da cadeia um dia com agravação do seu crime, apresentando ordem de soltura escrita e assinada pelo vice-rei, cuja letra falsificara!...

O Belo Senhor sofreu então muito, e por certo que teria maiores e infelizmente justificados rigores no degredo que merecera pelo seu crime; e também por certo que muitas vezes teve de lembrar-se do conselho que lhe dera Fuas na Rua do Ouvidor; depois da ceia e das apostas que ganhara.

De que modo, com que arte, mercê de que alta proteção escapou o Belo Senhor ao degredo, e ficou vivendo solto e livre na cidade do Rio de Janeiro, não o posso dizer; com certeza, porém, esse homem de notável inteligência desaproveitada e corrompida, e de surpreendente habilidade caligráfica, esse homem tradicional acabou morrendo na cidade onde tanto bem e mal se celebrizara na mais completa pobreza, e, por castigo da má celebridade, esquecido de todos.

Tão esquecido realmente que tendo sido um dos heróis da Rua do Ouvidor; e celebridade caligráfica (infelizmente manchada pelo crime), ainda não achei quem me informasse sobre o dia ou ano de seu nascimento, nem quem se lembre do ano em que ele morreu.

E todavia o Belo Senhor foi curiosa personagem de ontem!...

O capítulo oitavo destas Memórias deve precisa e forçosamente findar aqui; porque eu imagino que a Rua do Ouvidor está se vestindo e se enfeitando para assistir à chegada da família real portuguesa, que de Lisboa embarcara para o Rio de Janeiro, fugindo às águias de Napoleão Bonaparte.



*****

Memórias da Rua do Ouvidor
Autor: Joaquim Manoel de Macedo

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII
Capítulo XIX (Final)
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