domingo, 8 de novembro de 2009

Livro - Memórias da Rua do Ouvidor - Capítulo IX

CAPÍTULO 9

Como a 8 de março de 1808 a Rua do Ouvidor assistiu metida nos cantos à passagem da família real portuguesa que nesse dia desembarcou na cidade do Rio de Janeiro: lembra-se o edital do intendente Geral da Polícia o Conselheiro Paulo Fernandes, mandando acabar com rótulas e gelosias dos sobrados. Trata-se da Carta Régia que abriu os portos do Brasil ao comércio das nações amigas, e diz-se como os ingleses foram os primeiros a aproveitar-se dela, e alguns se restabeleceram na Rua do Ouvidor, e refere-se a um episódio da vida do irmão Joaquim, que indica bem o medo que se tinha de Napoleão. Como a Rua do Ouvidor ainda vivia tão modesta, que de 1808 a 1818, período riquíssimo de festas e iluminações, só uma vez foi lembrada; mas sendo ainda festeira de pouca despesa, e nos pomposos espetáculos de 1818, em que se ostentaram soberbíssimos carros de triunfo, ela não se representou nem mesmo em sege de aluguel. Como firmada a paz geral em 1815, e elevado o Brasil a Reino em 1816, entraram neste os franceses como pé direito, vindo engajada para o Rio de Janeiro uma colônia de artistas, aos quais deveu seu berço a nossa Academia das Belas-Artes. Mostra-se que aflua do Ouvidor não ganhou com a colônia artística, porque não era de franceses, era de francesas que o seu esplendor tinha de provir; e enfim remata-se este capítulo maçante com a tradição veracíssima da primeira francesa que teve nomeada e residência, aliás efêmeras, no Rio de Janeiro.

Vestida de festa e toda adereçada na tarde de 8 de março de 1808 para assistir à entrada da família real portuguesa na cidade do Rio de Janeiro, a Rua do Ouvidor ficou todavia no canto ou nos cantos.

O Príncipe Regente D. João e a família real desembarcaram no cais do Largo do Paço, atravessaram esta praça, seguiram pela Rua Direita, e tomaram pela do Rosário para ir na igreja desta santa invocação, que era ainda então a da Sé apesar de ser a dos pretinhos, render graças a Deus.

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Numerosíssimo concurso oficial e popular precedia e acompanhava ao príncipe regente e à família real transmigrantes de Lisboa; multidão imensa estacionava, movia-se, ou precipitava-se curiosa e entusiasmada, e a Rua do Ouvidor antemurada por enchentes de povo nas duas entradas que abre para a Rua Direita teve de ficar nesses dois cantos durante a festiva passagem, e tão no canto se achou, que nenhum dos príncipes indiciou ter idéia da sua existência, voltando para ela os olhos. Todos eles imitando D. João somente demoraram os passos, contemplando a bela igreja da Santa Cruz dos Militares.

É que a Rua do Ouvidor ainda não recebia cartas pelo correio, e só uns três lustros mais tarde começou a fazer bulha na cidade, cabendo-lhe apenas sua partilha no progresso e melhoramentos gerais que a nova capital da monarquia portuguesa recebeu em casta escala nessa época transcendente que, sem o calcular, Napoleão Bonaparte abriu para o Brasil, mandando invadir Portugal.

Assim, logo em 1809 a Rua do Ouvidor; como todas as outras da cidade, melhorou muito o aspecto de suas casas, obedecendo ao edital de 11 de junho, mandado afixar pelo Intendente Geral da Polícia o Conselheiro Paulo Fernandes Viana, ordenando a abolição das rótulas e gelosias dos sobrados.

O Marquês de Lavradio tinha, como já ficou dito, acabado com os peneiros das portas das casas, costume grosseiro, quase selvagem; o Conselheiro Paulo Fernandes, Intendente Geral da Polícia, fulminou as rótulas e gelosias dos sobrados, costume quase bárbaro e de raiz mourisca; nem todos, porém, temeram-se do raio policial; muitas casas resistiram à reforma decretada pela civilização, somente aos poucos foram despedaçando suas rótulas e gelosias, e ainda hoje se conservam, anacrônicos, mas agora curiosíssimos exemplares daquelas casas antigas, por exemplo, em frente à porta principal da alfândega.

Não é perder tempo dar ligeira idéia das tais rótulas e gelosias, sob os pontos de vista material e moral.

Em vez de verdadeiros balcões tinham os sobrados engradamentos de madeira de maior ou menor altura, e com gelosias abrindo para a rua; nos mais severos, porém, ou de mais pureza de costumes, as grades de madeira eram completas, estendendo-se além da frente pelos dois extremos laterais e pela parte superior, onde atingiam a altura dos próprios sobrados, que assim tomavam feição de cadeias. Também nessas grandes rótulas ou engradamentos se observavam as gelosias, e rentes com o assoalho pequenos postigos, pelos quais as senhoras e escravas, debruçando-se, podiam ver, sem que fossem facilmente vistas, o que se passava nas ruas.

As rótulas e gelosias não eram cadeias confessas, positivas, mas eram pelo aspecto e pelo seu destino grandes gaiolas, onde os pais e maridos zelavam sonegadas à sociedade as filhas e as esposas.

A higiene, a arquitetura, o embelezamento da cidade exigiam a destruição das malignas e feias gaiolas.

E a Rua do Ouvidor devia ser pronta, como foi, em dar cumprimento ao edital de Paulo Fernandes, porque rótulas e gelosias destinadas a esconder à força o belo sexo deviam ser imediatamente banidas da rua que não tarde tinha de tornar-se por excelência de exposição diária de elegantes e honestíssimas senhoras, e infelizmente também de andorinhas que por ali fazem verão.

Em 1808 a Rua do Ouvidor já tinha entrada na ordem das comerciais; mas o comércio apenas a conquistara até pouco além da Rua da Quitanda, e daí para o Largo de S. Francisco de Paula, à exceção das tavernas em algumas das quinas da rua, e de uma ou outra modestíssima oficina, todas as casas eram de morada de famílias alheias ao mister mercantil e industrial.

A Carta Régia de 28 de janeiro de 1808 lavrada em cidade de S. Salvador da Bahia, onde arribara entre outros navios, a capitania, na qual vinha o Príncipe Regente D. João, franqueou os portos do Brasil ao comércio da Inglaterra, e das potências em paz com a coroa de Portugal, sob a imposição única de vinte e quatro por cento de direito de importação.

Essa grandiosa providência que pós termo à condição colonial do Brasil foi enérgica e impiedosamente combatida no Rio de Janeiro, pelo explicável egoísmo de alguns ricos comerciantes portugueses, e por fidalgos influentes na corte, que os apoiaram; fulminou-os, porém, na imprensa régia em magistral opúsculo o sábio economista brasileiro José da Silva Lisboa (ulteriormente Visconde de Cairu) e ainda mais nos conselhos do príncipe regente, o célebre ministro e estadista Conde de Linhares.

A Carta Régia de 28 de janeiro de 1806 vingou, e necessariamente havia de vingar, e quem logo e logo se aproveitou da abertura dos portos do Brasil ex-colônia foi, nem era preciso dizê-lo, foi a Inglaterra.

E imediatamente... que dúvida!... abriu-se a porta, ela entrou célere; porque, depois da entrada, não havia mais despedida possível.

No mesmo ano de 1808 negociantes da Inglaterra organizaram companhia, interessando-se na exportação de mercadorias para a cidade do Rio de Janeiro, e outras principais do Brasil, e além de seus sócios, alguns outros ingleses, independentes da companhia, vieram desde o mesmo ano de 1808 estabelecer casas de comércio nessas cidades.

No Rio de Janeiro, a Rua do Ouvidor foi uma das primeiras a ter casas ou estabelecimentos de negociantes ingleses, lojas de louça, de fazendas ou panos tecidos, e enfim de comércio de importação e de exportação de gêneros recebidos da Inglaterra e mandados do Brasil, e portanto antes de ouvir dizer monsieur e sacre nom de Dieu ouviu repetir mister e goodemi e comeu batatas inglesas antes de comer petit-pois.

Ainda era cedo para a vinda de franceses então internacionalmente excomungados por terem invadido o reino de Portugal.

Os franceses eram odiados como demônios, e a despeito do espaço imenso do Atlântico se impunha tão aterrador lá de longe na Europa o vulto homérico de Napoleão, que (conforme o diz em suas Memórias o Padre Luís Gonçalves dos Santos) um dos motivos da criação do lugar de Intendente Geral da Polícia foi a necessidade de elevado e ativo chefe policial que obstasse e punisse (no Brasil!!!) a ação perigosa de espiões e de agentes franceses.

Era medo pueril!... mas ninguém ignora que o famoso Bonaparte chegou a passar por feiticeiro, e por ter pacto com o diabo na opinião da gente rude, que o teve por inimigo em guerras horríveis.

Certo é que no Brasil houve recomendações insensatas contra a sonhada espionagem francesa, e a melhor prova disso está no seguinte fato passado com o célebre irmão Joaquim, o S. Francisco de Assis brasileiro.

O irmão Joaquim, que a pedir esmolas já tinha fundado importante hospital em Santa Catarina, e grande seminário dos órfãos pobres na Bahia, andava esmolando pelas capitanias do Rio de Janeiro e de S. Paulo para fundar instituições semelhantes à que deixara na Bahia para socorro dos órfãos e meninos desvalidos.

Tendo feito boa colheita de esmolas em São Paulo, achava-se um dia o irmão Joaquim à beira da estrada em sitio deserto dessa capitania, descansando sentado à sombra de frondosa árvore, e de lápis e papel nas mãos traçava, improvisado arquiteto, grosseiro desenho de seminário, que ia em breve criar, quando alguns soldados e caipiras que passavam foram a ele, julgaram-no suspeito, reputaram o desenho do seminário talvez plano de marcha de algum exército invasor em riscos topográficos, e em suma prenderam e amarrado conduziram para o Rio de Janeiro o venerando irmão Joaquim, como espião e agente de Bonaparte!...

No Rio de Janeiro, Paulo Fernandes, o Intendente Geral da Polícia, ou ficou surpreendido, ou nadou em alegria ao anunciarem-lhe a prisão e chegada do espião francês, e ordenando logo que lhe apresentassem, ao ver entrar na sala o esperado criminoso, saltou da cadeira, exclamando:

- O irmão Joaquim!...

E com suas mãos ajudou a desatar as cordas que arrochavam os pulsos da inocente vítima, e sem perder tempo em interrogatórios inúteis chamou a esposa e a família e entregou aos seus cuidados amigos, aos bons ofícios da veneração mais justificada o mártir do erro mais grosseiro, o irmão Joaquim, o homem santo, o S. Francisco de Assis brasileiro.

Assim pois de 1808 até o fim da guerra geral da Europa, ou até ser encadeado aos rochedos de Santa Helena o novo Prometeu que se chamou Napoleão Bonaparte, falar em franceses no Brasil era o mesmo que hoje em dia anunciar febre amarela.

Mas estava escrito que a Rua do Ouvidor; que aliás já contava boas casas comerciais portuguesas e inglesas, somente havia de florescer e primar na cidade do Rio de Janeiro depois de tornar-se rua francesa.

Sabem todos que de 1808 a 1818 correu decênio quase todo de festas oficiais e populares: chegada da família real, aniversários natalícios da rainha e do príncipe regente, nascimentos e casamentos de príncipes, notícias de vitórias alcançadas na Europa sobre os franceses, tudo era motivo para festas mais ou menos brilhantes.

Nas Memórias do Padre Luís Gonçalves dos Santos, a paciência do leitor é posta em longa prova nas descrições, circunstanciadas e miúdas dos festejos e iluminações, sendo indicadas as ruas e ainda mesmo as casas, que mais distintas se mostravam em festiva ostentação, e a Rua do Ouvidor apenas uma vez é lembrada, mas como se vai ver, foi festeira de pouca despesa.

No dia 16 de dezembro de 1815 (aniversário natalício da Rainha D. Maria I) foi por carta de lei erigido o Principado do Brasil à categoria de Reino Unido de Portugal e Algarve.

O povo entusiasmou-se no Rio de Janeiro com o grau de nobreza a que fora elevado o Brasil, e o Senado da Câmara em janeiro de 1816 fez celebrar em ação de graças na Igreja de S. Francisco de Paula solene Te-Deum, ao qual, convidados, foram com aparatoso estado o Príncipe Regente D. João e os Príncipes seus filhos D. Pedro e D. Miguel.

O Padre Luís Gonçalves dá conta dessa festa com as minúcias do seu costume em tais assuntos; mas o que importa para a Rua do Ouvidor é que depois de dizer como o príncipe regente e seus filhos, o príncipe da Beira D. Pedro de Alcântara e o infante D. Miguel, precedidos por etc., e seguidos por etc., (nos et coetera fica toda a descrição de grandioso estado) saíram do paço da cidade no magnífico coche real e pelas ruas Direita e do Ouvidor se fizeram levar para a Igreja de S. Francisco de Paula, em trânsito que foi triunfal, ostentando as portas e janelas de todas as casas uma muito brilhante decoração e encantadora vista: tudo estava coberto de sedas de diferentes e matizadas cores, e as senhoras vestidas e tocadas com riqueza e gosto realçavam das janelas esta bela perspectiva!... De todas as janelas, especialmente da Rua do Ouvidor; caíam sobre o real coche inumeráveis flores que o cobriram e juncaram a rua, etc.

Nesta informação eu noto (mas sem malícia alguma) o zeloso cuidado com que observou os vestidos, os toucados e o realce das senhoras o reverendo Padre Luís Gonçalves, que tão severo, rabujento e furente preconizador do celibato clerical se pronunciou anos depois, atacando o Padre Feijó.

Em todo caso ai ficou em janeiro de 1816 a Rua do Ouvidor dignamente representada por senhoras e por flores na festa popular em honra da elevação do Brasil a Reino Unido aos de Portugal e Algarve.

Senhoras e flores!... que representantes legítimas de predestinado fulgor!... mas a representação por senhoras que se vestiam e toucavam sem vestidos nem toucados procedentes da Rua do Ouvidor e por flores que ainda então se obtinham gratuitamente, porque não havia jardins de exploração industrial, deu à rua hoje tão rica e famosa apenas brilho emprestado que bem poucas meias-moedas lhe custou.

Dois anos depois, em 1818, a Rua do Ouvidor fez muda, mas patente a confissão de exiguidade de recursos, não se tornando distinta, nem mencionada nos extraordinários espetáculos e festejos dados em honra da coroação do Rei D. João VI e de propósito demorados para o ensejo do casamento do Príncipe D. Pedro no mesmo ano celebrado.

As festas duraram três dias, e além do mais que houve, e que foi muito, produziu singular efeito, o espetáculo dos imensos e estupendos carros que se ostentaram no circo preparado no Campo de Santana, atual Praça da Aclamação.

O corpo do comércio apresentou o soberbo carro de Triunfo à Romana.

Os latoeiros e caldeireiros disputaram primazia com o seu pomposo carro da América.

Os ourives celebraram-se com o carro Triunfo do Rio de Janeiro.

Os marceneiros, carpinteiros e pedreiros distinguiram-se com seu muito aplaudido carro Emblemático.

Os alfaiates e sapateiros excederam a expectativa geral com o seu descomunal carro da Barra do Rio de Janeiro.

Ora, esses carros assinalavam (pelo menos alguns) ruas distintas; por exemplo: o dos ourives a rua do mesmo nome: o dos latoeiros e caldeireiros as dos Latoeiros, da Alfândega, etc.

E a Rua do Ouvidor ainda era tão pobre ou tão bisonha, que não fez farofa nas festas de 1818, e nem mesmo consta que fosse a elas em sege de aluguel!..

Mas era tempo!...

A carta de lei de 16 de dezembro de 1816, elevando o Brasil a reino, foi considerada de tanta importância política, que o príncipe regente D. João a fez solenemente comunicar aos governos das grandes potências da Europa, recebendo em resposta felicitações e aplausos.

Na cidade do Rio de Janeiro o corpo do comércio lembrou-se, bem inspiradamente, de festejar a elevação do Brasil a reino, oferecendo ao príncipe regente o produto de espontânea e avultada subscrição pecuniária para se fundar um instituto de artes e ciências na capital do novo reino e então da monarquia portuguesa.

O príncipe regente aceitou o oferecimento e determinou a fundação de uma escola real de ciências, artes e ofícios na cidade do Rio de Janeiro.

Escala de ciências, artes e ofícios era universo a criar; mas ainda bem que, embora as ciências e os ofícios ficassem de lado, vingaram as artes, pois que a subscrição do comércio e a deliberação do príncipe regente teceram o abençoado berço da nossa já gloriosa Academia das Belas-Artes, mãe de Porto Alegre, de Vitor Meireles, de Pedro Américo e de outras justificadíssimas ufanias do Brasil.

Mas em 1815 firmara-se no congresso diplomático de Viena a paz geral da Europa, e a França de Luís XVIII, tornada potência amiga, teve também abertos os portos do Brasil para o seu comércio.

Entretanto os franceses ainda abatidos pela guerra, pela opressão dos vitoriosos invasores do seu opulento e arruinado país, e pelos trabalhos de sua regeneração econômica, nem se lembravam talvez do Brasil.

Todavia tratando-se no Rio de Janeiro do Instituto das Artes, como a França gozasse fama de florescente em Belas-Artes, o Príncipe Regente, e logo Rei D. João VI, mandou engajar escolhidos mestres franceses, pequena que foi grande colônia de artistas pelo merecimento real e provado de alguns deles.

A 26 de março de 1816 chegaram esses artistas ao Rio de Janeiro, sendo os primeiros franceses que vieram estabelecer-se no Brasil depois da paz geral da Europa e dos tratados de Viena d'Áustria em 181S.

Os franceses entraram pois com o pé direito e três vezes com o pé direito no Rio de Janeiro.

Entraram pelas portas da paz.

Entraram trazendo por vanguarda célebre colônia dos artistas enobrecidos pelo seu merecimento.

Entraram amigos quando ainda fervia o entusiasmo pela elevação do Principado do Brasil à categoria de Reino.

Entraram, portanto, em regra, e três vezes com o pé direito.

Todavia a Rua do Ouvidor ainda teve de esperar cerca de cinco ou seis anos o começo de sua época de florescimento e de glória, e para mim a razão é muito simples.

Não foi de francesas, foi de franceses a colônia artística que chegou ao Rio de Janeiro a 26 de março de 1816, e não era a palheta do pintor, nem o buril do estatuário, era somente a tesoura das modistas que havia de levantar o monumento da Rua do Ouvidor.

Também não me consta que algum daqueles artistas fosse morar à Rua do Ouvidor; e que nela se estabelecessem alguns franceses negociantes que quase logo os seguiram, e que abriram de preferência na Rua Direita lojas de louça fina, de ornamentos de salas e de objetos de fantasia.

Eu ia fazer ponto final, quando lembrei que escrevi todo histórico e positivo este capítulo IX das Memórias da Rua do Ouvidor; e tão positivo e tão sério que me parece que ficou medonho.

Pois bem, vou pôr-lhe um ligeiro apêndice embora estranho à Rua do Ouvidor; dando, porém, notícia (hoje de poucos sabidas) da primeira francesa que teve certa nomeada na cidade do Rio de Janeiro.

Em 1818, calculando talvez com as festas da coroação do rei e do casamento do príncipe, e precisando afastar-se da França, onde se arreceava das disposições menos benignas do governo de Luís XVIII, aportou à cidade do Rio de Janeiro e nela estabeleceu-se, vendendo ricos vasos ornamentais de salões e de mesas de banquete, porcelanas finíssimas e outros objetos de luxo, Mr. F. B. que acompanhara o Imperador Napoleão em suas últimas campanhas como oficial não sei de que patente, mas de confiança privada.

Mr. F. B. trouxe consigo para a capital do Brasil Mlle ou Mme Aran... a qual pretendia com inconfessável orgulho que o grande homem (então cativo em S. Helena) a achava encantadora, quando em campanha andava longe dos olhos da Imperatriz Maria Luíza; e também Mr. F. B. com orgulho igual dava testemunho do glorioso encantamento durante as campanhas.

Dizem-me septuagenários e octogenários informantes que Mlle ou Mme Aran... era realmente linda, e que atestava o bom-gosto de Napoleão.

Mr. F. B. morava com a sua bela tutelada ou protegida não na casa de comércio, mas em chácara fora da cidade, e zelava-a menos como sultão, do que como eunuco especulador.

Correram meses, e passou mais de um, quase dois anos...

Mr. F. B. empenhava-se em vender todos os seus ricos vasos ornamentais e finas porcelanas...

Mas... o Rei D. João VI era velho, e só amava o luxo, e os ornamentos na igreja...

O Príncipe D. Pedro era noivo, morava no palácio do rei, e ainda não comprava objetos de luxo.

Mr. F. B. desapontou com o caso, desesperou, e um dia disse em bom francês à Mme ou Mlle Aran...

- Não há Napoleão no Brasil! Voltemos para a nossa Paris.

Mme ou Mlle Aran... sorriu-se maliciosa e respondeu:

- Oh! Napoleão só um... mas Bonapartes encontram-se...

E como sonhadora parisiense acrescentou:

- Voltemos para a nossa bela Paris.

E o casal de andorinhas que não fizera na capital do Brasil e da monarquia portuguesa o verão calculado bateu as asas... e foi-se.

Mas, Mme ou Mlle Aran... a primeira francesa que teve nomeada na cidade do Rio de Janeiro não morou, nem deixou penas de suas asas de graciosa andorinha na Rua do Ouvidor.

O apêndice extramuros termina aqui.

*****

Memórias da Rua do Ouvidor
Autor: Joaquim Manoel de Macedo

Capítulo I
Capítulo II
Capítulo III
Capítulo IV
Capítulo V
Capítulo VI
Capítulo VII
Capítulo VIII
Capítulo IX
Capítulo X
Capítulo XI
Capítulo XII
Capítulo XIII
Capítulo XIV
Capítulo XV
Capítulo XVI
Capítulo XVII
Capítulo XVIII
Capítulo XIX (Final)
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