sábado, 17 de outubro de 2009

Livro - TIL - Capítulo III

III

ELA

A embalançar-se na tronqueira, Inhá seguia com os olhos o rapaz que afastava-se.

Miguel tinha razão. Tão ardilosa era a expressão do rostinho da menina e tão brejeiro seu olhar, que a transfiguravam completamente. Quem assim a visse, julgaria ter diante de si, a chasqueá-lo, o trejeito garoto de um caipirinha.

Para essa ilusão muito concorriam o tipo e o traje da moça.

Era ela de pequena estatura e tão delgada e flexível no talhe, que dobrava-se como o junco da várzea. As formas da graciosa pubescência, que um corpinho justo debuxaria em doce e palpitante relevo, as dissimulava o frouxo corte de uma jaqueta de flanela escarlate com mangas compridas, e desabotoada sobre um camisote liso, cujos largos colarinhos se rebatiam sobre os ombros, à feição dos que usavam então os meninos de escola.

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Servia-lhe de toucado um chapéu de palha de coco trançada, sob o qual escondia os lindos cabelos negros cacheados, que às vezes, com os saltos, escapavam da prisão e vinham folgar sobre as espáduas. Calçava grossos coturnos de couro de veado, mas tão altos que mais pareciam botas; e comparando com as de Miguel, se diriam irmãs na forma, a não ser o tamanho, onde aliás afogava-se o pezinho buliçoso.

Ainda assim não estava Inhá contente, pois metiam-lhe inveja o pala e as calças de brim do companheiro; mas sobretudo a clavina de caça que ele trazia ao ombro.

Para tê-la, e carregá-la assim, daria ela naquele momento sem hesitar as soberbas tranças de seus longos cabelos, que lhe estavam metendo figas e zombando das duas pretensões a rapaz.

Se a estreita saia de chita dava a esse vestuário um traço feminino, acusando um contorno harmonioso, por isso mesmo ela em seus momentos de luta com a natureza parecia caprichar em destruir aquele vestígio de seu sexo. Os pulos que soltava, a firmeza de seu passo gentil que ela de propósito fazia rijo, imprimiam com efeito certa aspereza e nervura a seus movimentos sempre encantadores, apesar de tudo.

Os grandes olhos, negros, claros e serenos, como um lago cristalino imerso na sombra, não podiam negar que fossem de mulher: tinham a diáfana profundidade do céu, cheia de enlevos e mistérios.

A boca mimosa e breve, conhecia-se que fora vazada no molde do beijo e do sorriso. Mas quando o brinco iluminava essa fisionomia, e o capricho quebrava-lhe a harmonia das linhas do suave perfil, era cobrir-se com a máscara do rapazinho estouvado, que ela teria sido sem dúvida, se a natureza não lhe trocasse o destino.

Nesse prisma da lindeza de Inhá reflete-se a sua índole. Aquela alma tem facetas como o diamante; iria-se e acende uma cor ou outra, conforme o raio de luz que a fere.

Contradição viva, seu gênio é o ser e o não ser. Busquem nela a graça da moça e encontrarão o estouvamento do menino; porém mal se apercebam da ilusão, que já a imagem da mulher despontará em toda sua esplêndida fascinação. A antítese banal do anjo-demônio torna-se realidade nela, em quem se cambiam no sorriso ou no olhar a serenidade celeste com os fulvos lampejos da paixão, à semelhança do firmamento onde ao radiante matiz da aurora sucedem os fulgores sinistros da procela.

Cheia de carícias e gentilezas no princípio do passeio, fechara de repente a flor de sua graça e envolvera-se naqueles ares zombeteiros, que pungiam como espinhos o coração de Miguel. Poucos momentos antes, estremecera de susto vendo armar-se uma espingarda para atirar a um passarinho; e logo após arrostara sem hesitar a sanha de um assassino feroz, cujo senho incutia pavor aos mais intrépidos.

E assim é tudo nela; de contraste em contraste, mudando a cada instante, sua existência tem a constância da volubilidade. Na vaga flutuação dessa alma, como no seio da onda, se desenha o mundo que a cerca; a sombra apaga a luz; uma forma devanece a outra; ela é a imagem de tudo, menos de si própria.

Teria o rapaz dado vinte passos quando a menina o chamou, mas com ar de remoque:

- Escute!... Nhô Miguel, ora escute!

Como não a atendesse o companheiro, que se fingia ou estava deveras zangado, Inhá saltou da tronqueira, e alcançando o rebelde de uma corrida, tomou-lhe o caminho.

- Onde vai?

- Caçar.

- Depois; agora vamos à fazenda.

- Eu não! disse Miguel prontamente.

- Que pirraça é esta?

- Não tenho que fazer lá.

- Mas tenho eu.

- Todos os dias? perguntou Miguel fitando nela um olhar perscrutador.

- Se eu gosto!

Essa ingênua confissão, fê-la a menina com um gesto encantador, rasgando os grandes olhos puros e brandos, como se abrisse os seios d’alma ao pensamento suspeitoso do companheiro. Foi o olhar deste que abaixou-se encadeado e cego com a reverberação; e o rubor queimou-lhe as faces, enquanto a menina banhava-se em um sorriso de canduras.

- Pois vá só! replicou o rapaz virando.

- Para Linda agastar-se comigo?

- Não tenha susto.

- Você é um ingrato, nhô Miguel: não paga o bem que lhe querem.

- Deixe-se desses brinquedos, Inhá. É por isso mesmo que eu não vou mais à fazenda e também para... não ver certas coisas.

- O que?... Mecê, diga; por favor! acudiu a menina para bulir com o rapaz.

- Cuida que eu não reparo como Afonso brinca tanto com mecê?

- Mecê, hein?...

- Que me importa! Hei de dizer mecê.

- Está disfarçando! Não quer que se fale dos segredinhos com o Afonso?

- E faz mal isso? perguntou a menina com sincera surpresa.

Aumentou-se o vexame de Miguel, que mordia os beiços com o desejo de soltar uma palavra, e se continha pelo receio do desagrado da menina.

- Mas não vê que Afonso gosta de você.

- Estimo bem! disse Inhá dando uma pirueta.

- Então?...

- Acabe!

- Então Inhá também gosta dele?

- Também!

- Ah!

- Tanto como de você, nhô Miguel!

- Muito obrigado! retorquiu Miguel com um modo seco.

- Por isso agora ficou aí todo amuado?

- Até logo; já me vou.

- Não vai, que eu não quero! Exclamou a menina com despeito, e impedindo-lhe o passo.

- Então voltemos para a casa.

Inhá aproximou-se do companheiro e o envolveu de um olhar carinhoso.

- Olhe! se você não vier, Linda fica triste, coitadinha, tão bonita, com aqueles olhos tão ternos, que ela tem, de pomba-rola; e aquele rostinho de redoma, que é mesmo uma santa quando se ri no céu. Venha, eu lhe peço, meu bom Miguel.

Fascinado estava o Miguel, mas não pela imagem que lhe descrevia Inhá, senão pelo original que tinha diante de si, e o embebia na meiguice de seu olhar e na ternura de seu carinho.

- Mas eu não gosto dela, balbuciou o moço.

Pois não fale mais comigo, disse a menina arrufada.

- Escute, Inhá!

- Vem?

O rapaz hesitava.

- Você promete?...

- Não prometo nada.

- Se Afonso quiser brincar com você...

- Eu hei de brincar com ele, muito, muito, muito!

Cada um destes advérbios, a menina o acentuou batendo com o tacão no chão.

- Então não vou!

- Não venha! Quem lhe pede?

Caminhou ela direito à tronqueira; e entrou na fazenda.


*****

Autor: José de Alencar

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