terça-feira, 3 de março de 2009

Conto - MINHA BELA VIZINHA

Eu sentia pela jovem viúva, minha vizinha, um sentimento de veneração. Ao menos, era isso que eu dizia aos meus amigos. O próprio Nabin, o mais íntimo deles, não sabia o que estava ocorrendo à minha alma. E eu sentia uma espécie de orgulho em conservar minha paixão num estado de pureza, escondendo-a no fundo da alma. Minha vizinha parecia uma flor orvalhada e caída prematuramente. Pura e resplandecente demais para o leito conjugal, ela havia se entregado ao céu.
Elas, igual a enchente que desce montanha abaixo, uma paixão não pode ser contida por muito tempo: busca passagem. Por isso eu tentava traduzir meus sentimentos em poemas. Minha pena rebelde, no entanto, não queria profanar o objeto de minha adoração.
O acaso quis que, na mesma época, meu amigo Nabin fosse também atacado de mania poética, que o surpreendeu com a violência de um terremoto. Como fosse este o seu primeiro ataque e não tivesse ele a prática da rima e do ritmo, não pôde resistir e entregou-se à mania como um viúvo à sua segunda esposa.

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Dessa forma, Nabin chamou-me para socorrê-lo. Adotara o motivo sempre renovado, ou seja, dedicava sempre seus poemas à mulher amada. Perguntei-lhe com uma palmada afetuosa no ombro:
- Então, meu caro, quem é ela?
Ele respondeu com um sorriso.
- Nem eu sei.
Confesso que encontrei grande conforto em socorrer meu amigo. Como uma galinha que choca um ovo de pata, coloquei nas suas tentativas poéticas todo o ímpeto de minha paixão reprimida. E revivia, melhorava suas produções sem forma, de modo que a maior parte de cada poema era minha obra pessoal.
Nabin manifestou sua surpresa:
- Mas é isso que eu queria e não sabia como dizer! Como consegues exprimir todos estes sentimentos?
Respondia poeticamente:
- Minha imaginação me basta; embora ignores, a verdade é silenciosa e só a imaginação abre o caminho destinado ao seu próprio uso.
E o coitado do Nabin gaguejava, embaraçado:
- Sei, sei, eu compreendo. Evidentemente. - Para murmurar, depois de alguns instantes de reflexão - : Sim, sim, tens razão!
Como já disse, em meu próprio amor havia tanta delicadeza que eu não podia traduzi-lo em palavras. Mas, com Nabin me servindo de biombo, nada impedia que minha pena funcionasse. E um fogo sincero nascia dos meus poemas escritos para um terceiro
Quando estava muito lúcido, Nabin comentava:
- Mas és tu quem escreves tais poemas! Devo publicá-los em teu nome.
- Bobagem, - respondia eu. - Eles são teus, meu caro amigo; apenas dei retoques aqui e ali.
E Nabin, aos poucos, acreditava em mim.
Eu não negaria que, muitas vezes, olhava a janela da minha vizinha com o mesmo sentimento com que um astrônomo olha o céu cheio de estrelas. E é também verdade que meus olhares disfarçados muitas vezes obtinham a recompensa de uma imagem. E o menor raio vindo daquela luz clara apaziguava e clareava, no mesmo instante, o que minhas emoções ainda possuíssem de sujo e vil.
Um dia tive uma enorme surpresa. Devia acreditar no que via? Foi numa tarde quente de verão. Os ventos do Nordeste anunciavam-se cada vez mais ameaçadores. Nuvens negras se acumulavam no horizonte. De pé contra aquele fundo luminoso, estranho e terrível, minha bela vizinha admirava o céu. E na expressão longínqua dos seus olhos, brilhantes e negros, descobri todo um mundo de desesperada ansiedade. Que vulcão ardente se esconderia sob o fulgor tão calmo daquele astro? Ah, aquele olhar impregnado de desejo do infinito, que parecia desferir o vôo através das nuvens, como o ardor de uma ave, não buscava naturalmente o céu, mas um esconderijo dentro de um coração humano.
Lendo aquela paixão enorme que se desprendia de um simples olhar, só me contive após muita luta. Não era bastante que eu corrigisse maus versos. Meu ser inteiro queria manifestar-se de uma maneira mais notável. Decidi, por fim, dedicar-me a encorajar um segundo casa-mento para as viúvas. Eu tornaria famosas minhas idéias através dos poderes da pena e do dinheiro.
Nabin mostrou dúvidas quanto à minha resolução.
A viuvez permanente, dizia ele, significa um ideal de pureza e de paz espiritual infinita, um calmo esplendor análogo ao dos lugares silencisos que, com seus raios moribundos, a luz baça do décimo-primeiro dia da Lua ilumina. A simples possibilidade de um segundo casamento não é suficiente para destruir essa divina beleza?
Essa espécie de sentimento, confesso, sempre me deixou irritado. Quando, na época em que alguns sentem fome, um homem fala do problema da alimentação com desprezo, e aconselha o que necessita a comer o perfume das flores e o canto das aves, que imaginar de tal pessoa? Por isso, respondi veemente:
- Olha, Nabin, as antigas ruínas podem valer para o artista como um material formidável. Mas as casas não são erguidas apenas para a satisfação estética, e sim, para serem habitadas, e, portanto, suportar toda espécie de adaptações. Se não tens nada a ver com a questão, podes olhar esteticamente a viuvez, mas deves sempre lembrar que, por trás dela, se esconde a sensibilidade de um coração humano que soluça de dor e de desejo.
Certo das dificuldades de convencer Nabin, eu comunicava à discussão talvez mais calor do que o necessário ao assunto. Assim, fiquei surpreso alguns instantes depois; Nabin, após suspirar com o ar mais sonhador, aderiu finalmente ao meu ponto de vista. O discurso que eu pensava deveria ser ainda mais forte, tornou-se inútil.
Finda uma semana, ele veio ver-me e anunciou que, se eu quisesse dar a ele meu apoio, formaria na vanguarda do movimento, casando com uma viúva. Fiquei feliz. Abracei-o alegremente, e prometi-lhe todo o dinheiro necessário ao empreendimento. E Nabin contou-me seu caso.
Sua mulher amada existia realmente. Ele também adorara de longe, durante muito tempo, uma viúva, sem jamais revelar a alguém seus sentimentos. As revistas que publicavam seus poemas - ou mais precisamente, os meus - haviam chegado às mãos da mulher amada, conseguindo interessá-la.
A verdade é que ele não queria ir tão longe. Pois nem se preocupara em saber se a viúva aprendera a ler. Mandava a revista ao irmão de sua amada, escondendo o nome do expedidor. Do seu lado era isso uma forma de fantasia, uma concessão à sua paixão impossível. Quando o adorador coloca um buquê de flores ao pé de uma deusa, não procura saber se esta conhece ou ignora a oferenda, se ela a aceita ou recusa.
E Nabin queria me convencer de que não possuía qualquer intenção certa quando, sob diferentes pretextos, procurou e conseguiu entrar em contato com o irmão da viúva. Tudo o que diz respeito à mulher amada tem um interesse especial para o amante.
O irmão, por fim, concordou em recebê-lo.
Num dia em que se mostrara particularmente aberto aos meus argumentos, tomado de coragem, pediu a mão da viúva. Ela recusou, no começo. Mas ante seus fortes argumentos, acrescentou uma ou duas lágrimas e capitulou sem condições.
Faltava apenas um dote para os preparativos.
- Podes usar minha fortuna - eu lhe disse.
- Certo - respondeu Nabin - ; mas informo que alguns meses decorrerão antes que 'eu consiga convencer meu pai e entrar na posse da minha pensão. Até lá, como viveremos?
Assinei o cheque que ele precisava, sem um comentário, e perguntei, afinal:
- Agora, vais dizer-me o nome da noiva. Mão me consideres um provável rival, pois não pretendo escrever um só poema em sua honra; e se escrever alguns versos, não os endereçarei ao irmão, e sim, a ti.
- Não sejas ridículo! - respondeu Nabin - Não foi por medo de tua rivalidade que escondi seu nome. Realmente, a idéia de recorrer a meios tão insólitos me preocupava profundamente, e por isso nada disse aos amigos. Agora que tudo está arranjado, já não é necessária a discrição. Ela mora no número dezenove, é tua vizinha.
Mesmo que meu coração fosse uma caldeira de cobre, teria arrebentado.
- Mas então - perguntei simplesmente-, ela não é contra um segundo casamento?
- Agora, não - ele disse sorrindo.
- E os poemas bastaram para conseguir essa maravilhosa conversão?
- E então? - replicou Nabin. - Meus poemas eram tão ruins assim?
Mentalmente, fiz uma jura...
Mas eu iria me queixar a quem? Ou de quem? Dele? De mim mesmo? Da Providência? Não importa, mesmo assim eu jurei!



Autor: TAGORE, Rabindranath. IN A Noite de Núpcias; Coordenada Editora de Brasília, Brasília, DF, s/ data.

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